A primeira vez que fui confrontada com o epíteto "Coronababy" foi este mês de setembro, quando li um artigo na National Geographic sobre o impacto do COVID-19 nos bebés. Confesso que a leitura foi produtiva: suscitou-me ainda mais questões sobre o real impacto do tempo em que vivemos.

O stress pré-natal e o seu impacto pós-natal é, como é natural, um aspeto relativamente bem estudado. Estudos existem, conclusões também, no entanto a unanimidade e consenso continuam a dizer respeito a ideias gerais, não a consequências concretas. Ou seja, estudos em humanos e cobaias parecem demonstrar que o stress pré-natal se associa ao alargamento da amígdala do feto (órgão cerebral responsável pelas respostas de agressividade mais primárias). No entanto, daí a assumir que mães stressadas geram bebés propensos à depressão, ansiedade e agressividade é um longo passo. Uma coisa é assumir que estes fatores se relacionam, outra coisa é ditar que uma coisa leva diretamente à outra.

No entanto, grupos de investigação de Calgary (Canadá) e Roterdão (Holanda) dedicam-se a estudar o impacto do confinamento nas grávidas e na evolução dos seus bebés. O estudo canadiano, liderado pela neurorradiologista Catherine Lebel, já recrutou cerca de 2.000 grávidas e detetou uma prevalência de 37% de sintomas depressivos e 57% de sintomas ansiosos nesta população. Conheceremos em breve o impacto que isto terá sobre os cérebros dos seus bebés.

A verdade é que estar grávida e ter um bebé durante a pandemia é um grande fator de stress: a incerteza quanto à doença em grávidas, o impacto que tem no feto, a eventual doença no recém-nascido e todos os aspetos (pouco) práticos que rodeiam a assistência de saúde nesta etapa, são percecionados como barreiras sucessivas de imprevisibilidade. Começando pelo acesso às consultas de vigilância materna, a realização de exames complementares de diagnóstico, a terminar com a incerteza da possibilidade de acompanhante durante o parto.

Retrocesso na humanização

A perspetiva de um parto sem acompanhante é de uma particular crueldade para a grávida. E, no entanto, no pico do isolamento durante o mês de abril deste ano, aconteceu. Pior, mães COVID-19 foram separadas dos seus bebés saudáveis e aconselhadas a fazer extração do leite materno para posterior administração por outro cuidador. Nenhuma destas indicações se mantém. No entanto, vivíamos dias de medo e desconhecimento e, de uma penada, retrocedemos anos na humanização dos cuidados de saúde. Não esquecer o parecer positivo e realista da Organização Mundial de Saúde (OMS) que foi sempre inequívoca nas suas recomendações: recomendou a permanência dos bebés junto das mães e apoiou o aleitamento materno pelas mães infetadas, com o uso de máscara e desinfeção regular das mãos.

Até agora só abordamos os primeiros dias do bebé e já tropeçamos em tantas dificuldades. O que sabemos é que esta pandemia levou a um aumento considerável dos partos no domicílio em alguns países europeus, especialmente na Holanda que dispõe de uma óptima rede de apoio aos partos domiciliários.

Segue-se então a alta hospitalar e os primeiros dias em casa. Naturalmente que a maior insegurança diz respeito às primeiras visitas ao bebé. Numa cultura ocidental, em que um bebé é reconhecido como sendo uma dádiva, é difícil, senão impossível, manter os bebés longe da família alargada. Já era assim antes da COVID-19, em que todos os anos tínhamos bebés recém-nascidos infetados por doenças preveníveis, por contactos desnecessários e perigosos com amigos e familiares doentes.

No entanto, com a COVID-19, as portas das casas dos bebés fecharam-se. E se vos contasse o incrível número de conflitos familiares que isto gerou? Avós despeitadas por não poderem pegar no neto ao colo, mães à beira de um ataque de nervos porque a prima tocou no pé do bebé, noras e sogras desavindas, avós apanhados de surpresa por terem que trocar de roupa e sapatos à entrada da casa dos filhos.

Neste aspeto, concordo com as directrizes do CDC dos Estados Unidos (Centers for Disease Control and Prevention) e recomendo algum comedimento. Àqueles familiares fora da família nuclear que irão estar presentes numa base regular na casa do bebé, recomendo realmente uma quarentena profilática de 2 semanas antes da data prevista do parto, bem como medidas reforçadas de higiene e desinfeção das mãos, com uso obrigatório de máscara durante as visitas.

Pôr a culpa no pediatra pode ser a solução

À restante família, mais alargada, que teriam em vista apenas e só uma visita social rápida ao bebé, costumo recomendar aos recém-pais que ponham a culpa toda no pediatra, que é muitíssimo insensível e não recomenda nenhum destes convívios no primeiro mês de vida.

A vida social de um bebé no seu primeiro ano de vida é sobretudo bastante restrita: certo que o bebé gosta de se rir para caras novas, mas não tenhamos ilusões. O processo vinculativo nos primeiros 90 dias de vida está dedicado à mãe, sendo que, a partir desta altura, o bebé passa a aceitar um segundo vínculo, que é habitualmente o pai. E é habitualmente tudo: estamos a falar de 2 pessoas. A partir dos 9 meses, esta situação torna-se por demais evidente, com as avós (aquela entidade!) a ficarem muito irritadas, porque a netinha fofinha que ia para o seu colinho sem qualquer dificuldade passa a estranhar toda a gente e só aceita a mãe e o pai. Claro que avó que é avó se sente excluída! O primeiro ano de vida não é, nem tem que ser, a explosão social do bebé.

Por isso, o isolamento não é em si mesmo um problema real para os bebés abaixo de um ano, antes pelo contrário, é a oportunidade de passarem o tempo todo com as figuras de referência realmente importantes. O problema do isolamento existe para a saúde mental dos pais: privados da companhia e apoio de outros adultos, podem desenvolver sintomatologia ansiosa e depressiva e, isso sim, pode comprometer a vinculação do bebé.

Em relação à socialização, apraz-me dizer que as crianças só socializam verdadeiramente após os dois anos de idade. Não se fazem "amiguinhos" antes disso… Apenas e só se aprende a tolerar a presença do outro com maior ou menor curiosidade.

Isto leva-nos necessariamente ao ponto de discussão seguinte que será a integração do bebé no infantário. Tendo em conta que a licença parental em Portugal é de 6 meses, com eventual recurso a mais 3 meses, sabemos que no limite, aos 9 meses, um bebé poderá ter que integrar a creche. E realmente, numa altura de pandemia, há imensas questões que ficam por resolver.

A adaptação da criança à creche em período de pandemia trouxe consigo o impedimento dos pais de entrarem na escola e estarem gradualmente (por períodos de tempo crescente) com o seu bebé, educadoras e outros bebés da sala. Isto é obviamente um problema. As transições estão a ser incrivelmente mais difíceis, com passagens de colo breves e intempestivas à porta da escola.

Felizmente há inúmeras escolas que conseguiram desenvolver formas mais humanizadas de fazer este processo sem expor as outras crianças da sala a adultos potencialmente infetados. A existência de uma sala de transição, por exemplo, onde educadora, bebé e mãe/pai podem permanecer antes da mudança de colo parece ser a estratégia mais correta.

Um primeiro ano de muitos desafios

Outro aspeto que tem sido bastante contestado é a proibição de levar e trazer objetos de transição de casa. Já sabemos que a fraldinha X ou o coelhinho Y tem uma importância vital como objeto securizante. Não está a ser fácil obedecer a esta direção da DGS. A esmagadora maioria das escolas aceita um objeto que fica na "caminha do bebé".

Por fim, não posso deixar de referir a preocupação dos pais face ao desenvolvimento do bebé num contexto em que todos os cuidadores do infantário fazem uso generalizado de máscaras. Neste capítulo, sublinho que os bebés são incrivelmente resilientes: não só têm acesso diário a adultos que, na sua presença, não usam máscara (o caso dos pais), como também sabem interpretar (bem melhor do que os adultos) outras pistas sociais, como a voz, o toque, os gestos de carinho e o olhar.

Globalmente, o primeiro ano de vida de uma criança é feito de muitos desafios. Num contexto de pandemia, os desafios adensam-se. O que acontecerá se o nosso bebé tiver COVID-19? Realmente o que nos diz a literatura já disponível é que a infeção na população pediátrica previamente saudável é ligeira. No entanto, caso o bebé tenha febre, terá que ser avaliado pelo médico assistente e ativada a linha SNS 24 para averiguar o risco real de poder ser um caso de COVID-19.

Em nenhum momento se deveriam testar bebés sem critérios de risco ou assintomáticos. Fazer uma zaragatoa nasal custa. Fazê-la num bebé pequenino só para ter a certeza que não é COVID-19 e ele poder voltar para a escola é desumano. Face a isto, a única arma que temos ao nosso dispor é o bom senso. E parece-me ser de bom senso, em caso de suspeita, fazer o isolamento profilático de 14 dias. Depois deste período, a possibilidade de o bebé ter ou transmitir COVID-19 é remota. E esta será eventualmente a melhor estratégia de contenção da transmissão, respeitando o bebé e impedindo ativamente uma corrida desenfreada e histérica aos testes de rastreio COVID-19.

Um artigo da médica Joana Martins, especialista em Pediatria.

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