Quando a esmola é grande, o pobre desconfia, alerta um popular provérbio português. Com muitos dos anúncios patrocinados que surgem nas redes sociais, a postura não deve ser diferente. "Lamentamos informar que vamos parar a produção de alguns [modelos de] sapatos e liquidar o nosso stock. Devido ao impacto da epidemia [de COVID-19], não estamos a conseguir matérias-primas de qualidade", justifica a Cathego, um site de comércio eletrónico, num desses anúncios.

"Estamos a fazer saldos de liquidação, com descontos até 90%. Aproveitem", escreve a suposta marca de calçado numa das comunicações promocionais que milhares de pessoas em todo o mundo viram no Facebook nas últimas horas. Mas basta fazer uma pesquisa rápida nesta rede social para perceber que, afinal, a qualidade que apregoa não é a prometida e que muitos dos que já fizeram compras no site estão longe de estarem satisfeitos com a aquisição e com o serviço.

Anunciam promoções fantásticas mas são muitos os consumidores que se queixam. Pandemia agrava o problema

É o caso de Anita Kitkowski. "Eu encomendei dois pares de sapatos e recebi-os no dia 21 de fevereiro. Desde essa altura que estou em conflito com eles porque enviaram o modelo errado e o tamanho também não foi o que eu pedi. Eles dizem que têm uma política de devolução gratuita em 30 dias mas tem-me sido impossível devolvê-los", lamentou, no passado dia 11, ‎na publicação que fez na página da Cathego no Facebook. A marca não apagou o aviso.‎

"Eles recusam-se a fornecer uma morada para a devolução, o serviço de apoio telefónico não está em funcionamento porque o número disponibilizado está errado e, sempre que os contacto por e-mail, recebo a mesma resposta. Pedem-me para ficar com os sapatos e, em contrapartida, oferecem-me um vale de desconto de 6, 8 ou 11 dólares, depende dos dias. Dizem-me que o envio fica muito caro e multiplicam-se em desculpas", lamenta a queixosa.

"Já os ameacei com um processo e com a divulgação pública do meu caso para lhes arruinar a reputação mas não me serviu de nada. Nada funciona", desabafa ‎Anita Kitkowski, que deixa ainda outro alerta aos que vão atrás das promoções sem conhecer efetivamente as marcas. "O calçado deles tem melhor aspeto nas fotografias. Quando o recebemos em casa, parece [feito] de plástico", critica ainda. Donna Sanderson Mulkey ia caindo no mesmo erro.

Mas, ao contrário de Anita Kitkowski, antes de concluir a compra, resolveu ir ao site ScamFinance verificar se a empresa era fidedigna. Não era. "Cathego é um golpe e a lista negra de sites inclui também o BornShoes.com, o AlamoShoes.com e o Bourdani.com. Partilhem esta informação", pede. No passado dia 27, o ScamFinance desmascarou a empresa. "Está diretamente associada a outros sites de retalho fraudolentos", garante o organismo.

"Muitos golpistas, um pouco por todo o mundo, viram nesta pandemia terrível uma oportunidade para se aproveitarem de pessoas que vivem num estado de ansiedade maior", referem os analistas da ScamFinance, que apontam ainda pormenores que podem ser indiciadores de fraude em sites semelhantes. "Para além de terem muitas gralhas e até erros gramaticais, apresentam informações de expedição, pagamento e devolução incompletas", avisam.

"Tendem também a crer que são eles que produzem o calçado quando, na realidade, não é isso que sucede", avisa a ScamFinance. No entanto, não é só no calçado que estas empresas operam. O português David Gomes foi ludibriado com relógios. "Um dia, em junho de 2019, estava em casa e vi, no Instagram, um anúncio patrocinado de uma suposta nova marca de relógios, a Thanfe. Como estavam em fase de lançamento, estavam a oferecer relógios naquele dia", recorda.

"Só tínhamos de pagar os portes de envio, que rondavam os 11 dólares, pouco mais de 10 euros. Como tinham um design giro, encomendei dois. Só passados dois meses, é que recebi um. Não tinha marca e via-se que era um relógio barato, feito de plástico", lamenta o farmacêutico. "Percebi logo que tinha sido enganado", admite. Atualmente, a marca desapareceu e, como tal, já nem sequer surge no ScamFinance. Mas este tipo de fraudes não são de agora.

Já em 2017 a revista nova-iorquina Intelligencer, tal como a Topic Magazine, alertava para a proliferação de anúncios a oferecer fatos de banho e, depois, relógios nas redes sociais, identificando marcas como a Ottega, a Folsom & Co. e a SofiCoastal, que ainda hoje continua a existir. "Por norma, têm um contador a indicar o fim do prazo da oferta, como se a venda estivesse a acontecer em tempo real. São táticas de venda artificiais para forçar a compra", avisava a publicação.

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