Sandra Gomes Silva, nutricionista, transpôs para o seu novo livro o título do blogue de sua autoria. “O Vegetariano” . Há uma intenção neste título. Sandra recorda-nos que o vegetarianismo não é filho do final do século XX. Em 1909, nascia no Porto a revista “O Vegetariano de Portugal”. Na época, trazia já algumas das preocupações que nos acompanham neste século XXI. É este legado que Sandra Silva traz para o seu livro, num tempo em que “existe muita desinformação e muitos mitos associados à alimentação vegetariana”. Na entrevista ao SAPO Lifestyle, Sandra corrobora o seu objetivo, alertando-nos para o efeito pernicioso de “notícias falsas, benefícios apontados a alimentos e suplementos sem qualquer evidência científica a sustentar, testemunhos inventados com o fim de promover a venda a qualquer custo”.

Uma entrevista onde Sandra Gomes toca em aspetos não apenas alimentares associados ao vegetarianismo, mas também de ordem ética. A alimentação vegetariana e as crianças de tenra idade, as razões para resistirmos a uma dieta de base vegetal (“Estamos habituados a consumir carne desde crianças e faz muita confusão a muitas pessoas deixar de a consumir”), os nutrientes mais importantes à nossa mesa, também nos dão tema de conversa. Uma troca de palavras que também nos surpreende: bebidas vegetais, algas, tofu, seitan, não estão na lista dos essenciais na lista de compras de Sandra. Podem ser interessantes do ponto de vista nutricional, mas têm melhores substitutos.

Vivemos um momento único nas últimas décadas, com o confinamento doméstico. Na sua opinião, o facto de estarmos em casa é uma boa oportunidade para repensarmos como comemos, para melhor ou, pelo contrário, a ansiedade que estes períodos nos trazem, empurra-nos para alimentos “gulosos” e mais calóricos?”

Ambas as situações são possíveis. Sem dúvida que vivemos uma situação complexa, que naturalmente gera mais ansiedade e, daí, mais fome emocional. Não é atípico, mas não queremos que a comida seja vista como uma compensação, um reconforto, a longo prazo.

Assim, podemos e devemos tentar manter as nossas rotinas, como o número de refeições que fazíamos, e aproveitar o facto de estarmos mais por casa para estar mais tempo na cozinha, preparar refeições mais equilibradas e dar asas à criatividade. Na hora das compras, evitar abastecermo-nos de alimentos excessivamente processados e procurar, dentro do possível, trazer alimentos nutritivos e variados.

Alimentação Saudável é uma expressão que traz consigo um séquito de conceitos, mas, na realidade, nem sempre é fácil definir o que é uma alimentação saudável. A Sandra, no seu livro, fala-nos em muita desinformação. A que se refere e como podemos definir a alimentação saudável

Hoje em dia, já não sabemos muito bem o que devemos comer. Todos os dias surgem notícias sobre novos superalimentos, sobre alimentos que afinal não são tão saudáveis quanto nós pensávamos que eram e sobre novas dietas que prometem um corpo de sonho rapidamente. Com tanta informação a chegar, acabamos por ficar ainda mais confuso. Para piorar, existe muita desinformação. Notícias falsas, benefícios apontados a alimentos e suplementos sem qualquer evidência científica a sustentar, testemunhos inventados com o fim de promover a venda a qualquer custo.

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Então acabamos por estar desinformados, porque por um lado temos excesso de informação e por outro lado informação falsa que nem sempre sabemos filtrar.

De acordo com a FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura], dieta saudável é aquela que atende às necessidades nutricionais dos indivíduos, fornecendo alimentos suficientes, seguros, nutritivos e variados para levar uma vida ativa e reduzir o risco de doenças. Inclui, entre outros, frutas, hortícolas (legumes), leguminosas, frutos gordos, sementes e cereais integrais, e alimentos com baixo teor de gorduras (especialmente gorduras saturadas), açúcar e sal.

Uma dieta vegetariana pode não ser saudável?

Tendo em conta a definição da FAO, uma alimentação vegetariana pode ser saudável. Contudo, se não for bem planeada e houver carência ou excesso de algum nutriente, a dieta não será saudável.

O mesmo se aplica aos produtos alimentares. Não é por serem aptos para vegetarianos que será obrigatoriamente saudável.

Temos muita sorte com a variedade de alimentos de origem vegetal que conseguimos produzir no nosso país e aos quais podemos aceder com facilidade.

Tendemos a olhar para o vegetarianismo e a ver-lhe a origem no nosso tempo, como reação a uma sociedade que valoriza uma alimentação hipercalórica, com fast food e pouco amiga do planeta. Na realidade, o vegetarianismo tem uma longa história. Gostaria que nos contasse brevemente.

A história da alimentação vegetariana é tudo menos recente. O conceito de uma alimentação sem carne existe pelo menos desde o século VI a.C., com Pitágoras a ser um dos primeiros proponentes deste tipo de dieta.

O termo vegetariano foi criado em meados do século XIX e desde essa altura as dietas vegetarianas foram crescendo em popularidade em todo o mundo, maioritariamente relacionadas com questões religiosas, filosóficas ou envolvidas num estilo de vida mais naturalista e frugal.

Em Portugal a história da alimentação vegetariana também não é muito recente. No início do século XX, registou-se, na cidade do Porto, um primeiro movimento a favor deste padrão alimentar. Em 1911, fundou-se a Sociedade Vegetariana de Portugal, pelo comité que publicava “O Vegetariano”, revista sobre o tema distribuída entre 1909 e 1935 em Portugal e pelo mundo.

Os cinco alimentos que estão no dia a dia de Sandra Gomes:

- Leguminosas (feijão, grão-de-bico, ervilhas, lentilhas, favas, tremoços, …)

- Cereais integrais (trigo, aveia, espelta, centeio, …)

- Fruta (todos os tipos, conforme a época)

- Hortícolas (ou “legumes”, de todos os tipos, conforme a época)

- Frutos gordos (amêndoas, nozes, avelãs) e sementes (de linhaça, de chia, ...).

Em 2009, a Sandra abdicou do consumo de carne. Leva, agora, 11 anos de um regime alimentar sem carne. O que mudou na sua vida, física e emocionalmente?

Dado que as minhas motivações para me tornar vegetariana foram principalmente éticas, a maior diferença foi sentir-me em paz com aquilo que ponho no meu prato.

A sua decisão também envolveu questões de ordem ética. Pode explicar-nos?

A determinada altura percebi que não queria alimentar-me de animais. Se posso ter uma alimentação saudável, não tenho de causar morte, sofrimento ou exploração de animais, é assim que eu prefiro alimentar-me.

A história da alimentação vegetariana é tudo menos recente. O conceito de uma alimentação sem carne existe pelo menos desde o século VI a.C., com Pitágoras

Sandra, ter uma dieta de base vegetal não significa que se seja vegetariano. Assim como ser um vegetariano estrito não significa que se pratique um estilo de vida vegan, mas já praticará uma dieta vegan. Parece confuso. Pode explicar-nos?

Dieta de base vegetal é uma dieta em que na base, na sua maioria, estão os alimentos de origem vegetal. Não é necessariamente uma dieta vegetariana. A dieta mediterrânica, por conceito, e a dieta vegetariana, são dietas de base vegetal, por exemplo.

Dieta vegetariana estrita é uma dieta onde não se incluem quaisquer alimentos de origem animal. Já o veganismo é um estilo de vida em que, dentro do possível e do praticável, não se causa a morte, sofrimento e exploração dos animais. O vegano tem uma alimentação vegetariana estrita, mas o veganismo vai além da alimentação, abrange todo o estilo de vida. Por outro lado, uma pessoa pode ter uma alimentação vegetariana estrita e não ser vegano.

 Se posso ter uma alimentação saudável, não tenho de causar morte, sofrimento ou exploração de animais.

Escreve a Sandra no seu livro que “para os italianos, uma dieta vegetariana e saudável e nutricionalmente adequada pode ser obtida escolhendo entre a grande variedade de alimentos de origem vegetal tradicionalmente consumidos em Itália”. Podemos transpor esta realidade para Portugal? Se sim, com que alimentos?

Claro que sim. Podemos e devemos ter uma alimentação à base de produtos locais. Portugal tem uma grande variedade de alimentos de origem vegetal, como hortícolas, fruta e leguminosas, e podem e devem ser incluídos no nosso dia a dia. É melhor para a saúde, para o ambiente e para a economia.

Também nos relata que vegetarianos e veganos têm um risco reduzido de certas condições de saúde. Quais, exatamente?

A alimentação vegetariana oferece vários benefícios, nomeadamente a proteção contra as principais causas de morte e de perda de anos de vida com saúde no mundo: cancro, excesso de peso e obesidade, doenças cardiovasculares, hipertensão e diabetes.

A redução do risco destas doenças acontece porque, por um lado, há um elevado consumo de alimentos protetores da saúde, como fruta, hortícolas, leguminosas, cereais integrais, frutos gordos e sementes (que contêm vitaminas, minerais, fibra e compostos bioativos, benéficos para a nossa saúde) e, por outro, há uma baixa, ou nula, ingestão de alimentos comprovadamente prejudiciais à saúde, como carnes vermelhas e processadas, e, consequentemente, de compostos como gorduras saturadas e colesterol.

Uma criança de tenra idade pode praticar uma dieta vegetariana estrita?

Sim. A Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos da América, a maior organização de nutrição do mundo diz-nos que “Dietas vegetarianas adequadamente planeadas, incluindo veganas, são saudáveis, nutricionalmente adequadas e podem trazer benefícios à saúde para a prevenção e o tratamento de certas doenças.  Estas dietas são apropriadas para todas as fases do ciclo de vida, incluindo gravidez, lactação, infância, adolescência, idade adulta e em atletas”.

Podemos e devemos ter uma alimentação à base de produtos locais. Portugal tem uma grande variedade de alimentos de origem vegetal, como hortícolas, fruta e leguminosas.

Face às evidências sobre os benefícios de uma dieta vegetariana ou vegana e não obstante o número crescente de praticantes, continuamos a encontrar muita resistência a adotá-las. O que contribui para isso?

Podem ser vários fatores. O peso do hábito será um dos mais importantes. Estamos habituados a consumir carne desde crianças e faz muita confusão a muitas pessoas deixar de a consumir. Contudo, o número de pessoas que já reduziram o consumo de carne ou que deixaram de a consumir cresce a olhos vistos por todo o mundo. A consciência alimentar, aliada à informação e à maior disponibilidade de produtos estão a tornar o mundo cada vez mais vegetariano.

Hoje tanto se fala de bebidas vegetais, algas, tofu, seitan. Contudo a Sandra não inclui estes alimentos na sua lista dos essenciais. Porquê?

Bebidas vegetais podem ser interessantes do ponto de vista nutricional, principalmente a bebida de soja com cálcio. É uma boa alternativa ao leite, para quem o quiser substituir. Mas nenhum dos dois é essencial.

Tofu e seitan podem ser usados como alternativas à carne. Mas também podemos substituí-la pelas leguminosas, daí estes produtos não serem essenciais. No entanto, podem ser úteis para variar os pratos e para adaptar alguns pratos típicos da culinária portuguesa à deita vegetariana.

As algas podem ser interessantes, mas também não são essenciais.

No fundo, a nossa alimentação pode e deve ter como base alimentos locais e pouco processados. Não precisamos de incluir alimentos exóticos, caros ou excessivamente processados para termos uma alimentação saudável. Como eu costumo dizer, se os nossos avós não iriam reconhecer como comida, é porque provavelmente não nos fazem falta.

No livro a Sandra refere que devemos consumir pelo menos 30 alimentos diferentes de origem vegetal por semana. Pode suscitar várias perguntas: como o fazer? Sairá caro?

A nossa alimentação deve ser variada, sendo ou não vegetariana. O desafio dos 30 alimentos de origem vegetal por semana serve para nós refletirmos sobre a variedade da nossa alimentação. Devemos contabilizar todo o tipo de alimentos, incluindo especiarias e ervas aromáticas. Parece um objetivo difícil, mas não é.

Ter uma dieta variada não fica mais caro. Não é por procurarmos variar a nossa dieta que a alimentação terá de incluir alimentos exóticos ou dispendiosos. Temos muita sorte com a variedade de alimentos de origem vegetal que conseguimos produzir no nosso país e aos quais podemos aceder com facilidade. Não se trata de comprar mais alimentos, trata-se de variar mais.

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