Levantar-se, chegar ao hospital, trocar de roupa, equipar-se com muito cuidado, entrar, observar doentes, efetuar centenas de procedimentos médicos, sair dos cuidados intensivos, tomar banho, respirar, comer. E recomeçar, semanas a fio, em turnos diários de muitas horas, frente a um inimigo sem rosto, um desconhecido que entrou no léxico dos nossos quotidianos: COVID-19.

Para Ana Isabel Pedroso, médica, especialista em Medicina Interna, a expressão “linha da frente”, saltou das cartilhas de guerra, para ser uma presença no seu dia a dia. Um quotidiano vivido entre ser Mulher, Mãe e Médica. É esta tripla dimensão que Ana Pedroso leva para o livro que dá aos escaparates. “Para além do medo – Uma mulher na linha da frente da pandemia” (edição IN), relata-nos uma história de superação, de separações e reencontros, a angústia de quem saiu de casa sem data de regresso. Lar onde ficava o companheiro e duas crianças, as filhas de cinco e sete anos. No início de 2020, o quotidiano de Ana Pedroso alterou-se. Mudou-se para um hotel e teve de habituar corpo e alma a um fato semelhante ao de um astronauta. Para os colegas, Ana passou a ser um nome e uma hora de entrada ao serviço, escritos nas costas do fato.

Do tumulto em que se tornaram os seus dias, a médica recorda o momento primeiro, aquele em que “nada voltaria a ser igual”: a 18 de março de 2020, o Presidente da República declarou o Estado de Emergência. Começaram meses de loucura. Uma vaga, duas vagas, três vagas de COVID-19. Aos primeiros meses caóticos de 2020, sucedeu a calmaria. Paz podre. Em janeiro de 2021, Ana percebeu que não era “tempo de limpar armas”: “Foi difícil virar o ano e perceber que se avizinhava mais do mesmo: COVID-19, COVID-19 e mais COVID-19”, confidencia.

Em conversa com o SAPO Lifestyle, Ana Isabel Pedroso, traz-nos uma mensagem pragmática, também feita de esperança. Enaltece a ciência, a vacina e afirma igualmente a sua Fé.

Na primeira pessoa, as palavras da mulher para quem a medicina surgiu de uma paixão pelo corpo humano. Ana Pedroso termina neste momento a especialização em Medicina Intensiva no Hospital de Cascais e aposta na comunicação em saúde no projeto "Medicina sem Filtros".

COVID-19: O relato na primeira pessoa de Ana Isabel Pedroso, uma médica na linha da frente da pandemia
Em 2020, o dia a dia no serviço hospitalar onde Ana Isabel Pedroso trabalha. créditos: Ana Isabel Pedroso

A Ana Pedroso no seu percurso profissional procurou “o pico dos Himalaias”, como refere no seu livro, ou seja, a área do doente crítico. O que a fascinou nesse limite? O resgate para a vida de alguém que está na fronteira com a morte?

Sem dúvida. É uma área onde a nossa ação faz toda a diferença. O doente crítico tem essa particularidade, ou seja, a mais pequena ação que temos nele, condiciona grandes alterações, com impactos clínicos e de prognóstico. Fascina-me o facto de conseguirmos fazer a diferença no momento certo.

Como era o seu quotidiano familiar e profissional antes da chegada da COVID-19 a Portugal?

Muitas horas de trabalho, sempre. Sempre com tudo muito organizado e encaixado, com a vida familiar muito preenchida, orientada com a vida profissional. No fundo a ginástica que todos fazemos nas nossas áreas, com a particularidade de haver turnos de 24 horas e de muitas vezes não haver fins de semana, feriados, etc.

O doente crítico tem essa particularidade, ou seja, a mais pequena ação que temos nele, condiciona grandes alterações, com impactos clínicos e de prognóstico.

Ainda se recorda do momento em que percebeu que estávamos perante algo diferente, um território ainda não trilhado? O que sentiu?

Sim. Foi quando comecei a ouvir os relatos dos colegas italianos e espanhóis. Em 2020, percebi que não conhecíamos este vírus nem como iríamos lidar com ele. Senti um misto de medo e fascínio pela COVID-19, vivemos história nesses dias. O desafio foi imperioso e estivemos à altura.

COVID-19: O relato na primeira pessoa de Ana Isabel Pedroso, uma médica na linha da frente da pandemia
Marcas após cada turno de muitas horas. créditos: Ana Isabel Pedroso

Tinha um curso de preparação para catástrofe. Percebeu que era chegado o momento de pôr em prática o que aprendera?

Na época, não tinha noção que poderia chegar ao que vivemos em janeiro de 2020, por exemplo. Nunca pensei que não tivéssemos capacidade para tratar dos nossos doentes, que tivéssemos de os transferir de hospital em hospital, à procura de uma vaga, que tivéssemos de trabalhar as horas que foram necessárias para colmatar a procura.

Há um momento em que a mulher e mãe, também filha, tem de se despedir temporariamente dos que lhe estão próximos para abraçar o “combate” à COVID-19. É lícito afirmar que foi o pior momento de todos os que viveu ao longo desta pandemia?

É. Senão o tivesse vivido teria sido totalmente diferente. Esse grande pormenor modificou a pandemia aos meus olhos. Era o medo, o medo que temos mais pelos nossos do que por nós próprios.

O que sentiu quando entrou pela primeira vez no “covidário”?  

Medo. Desconhecido. A viver o que se via nas televisões e internet.

Em 2020, percebi que não conhecíamos este vírus nem como iríamos lidar com ele. Senti um misto de medo e fascínio pela COVID-19, vivemos história nesses dias.

Tendo de sintetizar em duas ou três frases o que passou a ser o seu novo quotidiano, como o descreveria?

Levantar-me e, depois, a chegada ao trabalho com cuidados novos. Trocar de roupa. Passagem de doentes em secções. Eram muitos, não dava para estarmos todos na passagem de todos. Comer e beber água antes de entrar. Equipar-me com muito cuidado. Escrever o nome no fato e a hora de entrada. Entrar, observar doentes, fazer gasometrias, verificar análises e disfunção de órgão, fazer modificações nos ventiladores, em perfusões, virar doentes [pronar], mudar terapêuticas, sair, banho, respirar e comer. Voltar a entrar.

COVID-19: O relato na primeira pessoa de Ana Isabel Pedroso, uma médica na linha da frente da pandemia
Páscoa de 2020. Os desenhos do irmão de Ana Pedroso numa mensagem endereçada pela família. créditos: Ana Isabel Pedroso

Confessa que se sentia impotente face à doença. Como superou as primeiras semanas naquela “terra de ninguém”, considerando que tinha de passar confiança aos doentes? O que se diz numa altura como aquela?

Que eles não estão sozinhos. Estamos lá para cuidar, dê por onde der. E nunca ninguém deixou nenhum doente para trás. É um orgulho.

A Ana Pedroso tem Fé?

Tenho.

Diz-nos que “com o passar do tempo, o medo já lá não estava”. Como superou esse medo, visto que as condições objetivas eram quase as mesmas?

Porque nenhum de nós ficou infetado. Era evidente que com aqueles cuidados tudo correria pelo melhor e assim foi até hoje.

Naqueles primeiros meses sentiu o carinho e o apoio da comunidade. Olhando para trás, considera que, hoje, a mesma comunidade esqueceu-vos e à vossa luta diária?

Não se esqueceram, mas abandonaram essa ideia da sua rotina diária.

Quantas e quantas vezes, nos últimos dois anos, não nos deparámos com comunicações de saúde importantes que a maioria não compreendeu?

Percebemos no livro da Ana Pedroso que, em certos momentos, a comunidade está mal informada no que respeita à COVID-19. Comunica-se mal a saúde em Portugal?

Sem dúvida alguma que sim. Quantas e quantas vezes, nos últimos dois anos, não nos deparámos com comunicações de saúde importantes que a maioria não compreendeu? Isso só dá azo a que, quem assim entender, descontextualize e passe a informação à posteriori de uma forma errada. Faz com que as pessoas, por não perceberem, não adiram e, no fundo, não alteram os comportamentos, e esse foi um dos passos mais importantes desta pandemia: a alteração dos nossos comportamentos.

COVID-19: O relato na primeira pessoa de Ana Isabel Pedroso, uma médica na linha da frente da pandemia
Ana Isabel Pedroso encontrou nos colegas de hospital uma família. créditos: Ana Isabel Pedroso

Foi o imperativo de comunicar com o leigo que a levou a desenvolver a página “Medicina sem Filtros”?

Sim associado a um gosto pessoal que vim a descobrir por esta área. Da informação, do comunicar.

Pormenorizando ainda a comunicação: apesar da forte adesão dos cidadãos à vacinação, há um travo a dúvida. Por exemplo, “vacinei-me, mas acho que desenvolveram a vacina muito rápido”. O que tem a dizer aos leitores sobre a vacina e vacinação?

Que não previne a infeção, mas sim a doença grave e que se vê que está a fazer o seu efeito. A vacina é fruto do desenvolvimento da tecnologia farmacológica.  Uma alegria para o mundo científico e mais um passo para a sobrevivência da espécie humana.

para além do medo
créditos: Edições IN

A saúde mental dos portugueses está a viver maus dias?

Sim, sem dúvida que esse ponto é fulcral e é ótimo falarmos disto. Nós não estamos bem. A situação que vivemos foi difícil à escala de cada indivíduo. É bom que se perceba que somos um todo, não somos somente eu ou aquele. Todos nós temos dificuldades e a forma de as ultrapassarmos faz-se com maior ou menor facilidade. Há que procurar ajuda quando necessário.

A resposta clínica acompanha este panorama que descreve?

Nem sempre, mas existem muitos profissionais para ajudar.

Lemos no seu livro uma mensagem de empoderamento das mulheres. Concorda?

Concordo em absoluto. A vida infelizmente ainda não é igual para as mulheres e para os homens. Na Medicina esta realidade não é diferente da que encontramos noutras profissões. Há que ser o mais profissional possível e demonstrar que há caminho a fazer e percorrê-lo sem medo.

O caminho que percorreu na sua área profissional também se fez de superação no feminino?

Acredito que sim. Acabo por ter muitas mulheres que se revêm no que publico ou escrevo. Quando o comecei a fazer nunca pensei que tal acontecesse, mas, como digo sempre, é a maravilha de saber que não estamos sozinhos no mundo. A interação com os outros é algo incrível e, no meu caminho profissional, seguirei sempre com a certeza de ser eu mesma em tudo o que faço.

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