O mundo está cheio de boas intenções, o Rui é que chega tarde. Não é que sinta que perde muita coisa, é mais pelo incómodo de, quem chega em último, ter de cumprimentar toda a gente e, pensando que não, o mundo ainda leva uns quantos seres humanos.

A boa intenção do mundo foi permitir que o Rui possa adquirir toalhas de banho novas. Sente-se exclusivo e a marcar pontos na higiene. Pensou para si: "haverá melhor sensação do que sair de um relaxante banho de água quente e secar-me numa aconchegante toalha turca branca, prontinha a estrear?". Deus apressou-se a responder por ele.

Chegou a casa já meio tocado por sentir que a amizade, em período de férias, se torna mais intensa e proporcional aos litros de cerveja ingeridos e foi tomar um banho. Secou-se à sua nova toalha de banho branca, vestiu uns boxers escuros, o pijama e deitou-se. Acordou no dia seguinte, ainda levemente ébrio, e viu-se em pânico quando espreitou para dentro da roupa interior que se lembra de ter vestido lavada. Tinha o escroto com tanto cotão branco que apelou à embriaguez para o ajudar a pensar com a calma e clareza que caracterizam os bêbados. Das duas uma: ou tinha caspa testicular (o que não lhe parecia viável, porque não tinha ponta de comichão) ou era óbvio que era Natal nos seus testículos. Sorriu. Nunca foi crente, mas ser Natal em agosto só podia ser milagre. Ainda por cima nos testículos. Voltou a apelar à sua embriaguez para pensar com clareza, tentando perceber se tudo aquilo lhe fazia sentido e concluiu que sim: os milagres são a única coisa que consegue chegar a tempo sem depender da greve dos motoristas de matérias perigosas.

Saiu de casa a pé, com receio das operações-stop e da greve dos motoristas se manter e foi comprar prendas. Ligou à família, avisando que fazia questão de que a primeira consoada do Natal de agosto fosse em sua casa. Ofereceu a todos os familiares toalhas de banho brancas para poderem viver como ele esta quadra natalícia antecipada. E vinho, claro.

No dia seguinte, ficou então convencido de que, à quantidade de milagres que a família teve após se terem limpado a uma toalha nova, em breve estariam todos em lista de espera para serem canonizados.

O problema é que o Rui, para além de bêbado, é estúpido e esses têm a vantagem de saírem sempre vencedores de qualquer discussão. O Rui recusa-se a acreditar que tudo isto foi fruto de uma toalha nova, que não foi lavada antes de ser usada.  Diz que não faz sentido ter de lavar várias vezes uma coisa que foi feita para limpar e que nova cumpre todos os requisitos menos esse. Defende que, fazendo bem as contas às lavagens que uma toalha de banho nova tem de ter para começar a desempenhar a função para a qual foi feita e ao preço da toalha em si, o barato se torna demasiado caro. Já para não falar no dinheiro que gastou numa consoada em que acreditou. Por uma questão económica, agora só compra toalhas velhas. É que, a brincar, a brincar, é dinheiro que poupa para a bebida.

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