Martim Vicente tornou-se conhecido do público depois de participar no programa da SIC 'Ídolos', já lá vão 10 anos. O músico conseguiu chegar à final, não ganhando por um triz, como o próprio notou entre risos, e com um visível 'fairplay'.

O Notícias ao Minuto esteve à conversa com o artista, que se revelou bem-disposto e grato pela vida que construiu desde o final do programa.

Hoje em dia, para além da sua carreira em palco, Martim é também professor de Educação Musical, desafio que abraçou e do qual muito se orgulha.

Também foi pai pela primeira vez no ano passado, com o nascimento do pequeno Xavier.

Prepara-se para dar dois concertos no dia 26 de janeiro (Teatro Maria Matos, em Lisboa) e no dia 28 (CCOP) no Porto no âmbito do seu mais recente álbum, 'Coração'.

Como é que está a viver esta fase de regresso aos concertos?

É uma vitória e um golpe de persistência. Não significa que as coisas estejam espetaculares, acho que eu e todos nós na Cultura falamos isso - foi uma queda muito abrupta e vai demorar. Vai demorar a levantar e a pôr a Cultura onde estava. É tudo uma questão de hábitos e as pessoas foram habituadas a não ir.

[Mas] Claro que estou muito entusiasmado por ir fazer este concerto de apresentação, uma produção minha e da minha agência, porque acreditamos muito neste álbum, e queremos mostrá-lo, por isso, investimos à séria.

E ainda fica ansioso antes de se subir ao palco?

Acho que todos os artistas ficam um bocadinho. Podem dizer: 'mas é o vosso trabalho, eu não vou nervoso para o trabalho todos os dias'. Sim, é verdade e nós também não estamos nervosos todos os dias e o nosso trabalho não se cinge unicamente àquela hora e meia/duas horas de espetáculo.

[Contudo,] aquele momento é sempre tenso, pelo menos para mim, por causa da responsabilidade do que estou a fazer e provoca uma ansiedade, mas é uma ansiedade boa no sentido em que quero fazer isto bem, o melhor possível. Servir o melhor possível aquela plateia. Nunca fui muito atacado pelos nervos, porque acho que tem a ver com a forma como me preparo. Se me preparar bem sei que o que vou fazer vai ser bom.

O que tem preparado para os dois concertos?

Posso revelar que é um concerto na sua génese baseado neste novo álbum ['Coração]. O grande objetivo é que as pessoas compreendam que aquelas histórias podem pertencer a cada um e que o disco possa ainda ser mais real ao vivo. Tenho uma carreira e mais trabalhos lançados e, como é óbvio, vamos visitar alguns hits e canções que as pessoas estarão sem dúvida à espera de ouvir. Haverá convidados, provavelmente.

Falando em hits, vem aí uma nova edição do programa 'Ídolos' este ano. Sente alguma nostalgia quando pensa nisto?

Sempre. Já tinha pensado há algum tempo se o programa não iria voltar, até porque sou professor de Educação Musical em escolas e os pais dos meus alunos sabem quem eu sou e começam a dizer aos filhos. Eles já não são do tempo do programa 'Ídolos' e vêm-me perguntar: 'Participou no The Voice? No Got Talent?' e falam dos programas que existem hoje.

Claro que é sempre nostálgico saber que vai aparecer um novo programa...

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Muita coisa mudou no Martim desde o 'Ídolos'...

Sim... [afirma entre risos]. Passaram-se 11 anos e muita coisa mudou, musicalmente, como é óbvio, porque tinha 21 anos e ainda me estava a construir e a conhecer-me... acho que ainda estou.

Fui crescendo, também a nível pessoal como é óbvio, sou casado e fui pai. Há muita diferença de quem eu era no tempo do programa e de quem sou agora.

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Durante este tempo não pensou em investir numa outra carreira, para além da música?

Nunca tive esse pensamento de desistir. A minha certeza, desejo ou sonho de poder ser um artista ou músico profissional vem desde muito pequeno, fez sempre parte da minha construção pessoal e esse foco nunca saiu. Sou licenciado em Sociologia, não decidi tirar nada relacionado com música porque durante toda a minha escolaridade frequentei e tirei um curso de música no Conservatório. A música nunca desapareceu da minha vida e fui trabalhando em alguns projetos.

Quando chego ao 'Ídolos' não foi do género: 'é agora, tudo ou nada!'. Foi um desafio que coloquei a mim próprio porque já tinha estrutura mental e segurança para ser escrutinado publicamente. Porque tem a ver com o apresentarmo-nos de forma muito pública perante a televisão, que é uma coisa diferente do que as pessoas pensam. O foco era para ganhar. Não ganhei, mas foi por pouco.

Fiquei com a sensação de missão cumprida. Sabia que era uma pena que estava a ser lançada como um canhão para o ar, mas não chegava lá cima e transformava-me num pássaro. Tinha a consciência que toda a notoriedade e a questão da figura pública seria uma coisa que teria o seu tempo e que tinha de trabalhar.

Não foi um choque, mas fazendo uma retrospetiva percebi que mudou-me muito como pessoa. A fama muda as pessoas.

Foi difícil lidar com essa notoriedade, com o ser reconhecido na rua?

Na altura achei que não, que não tinha sido difícil, não era uma pessoa tímida ou introvertida, sempre lidei bem com os focos. Não foi um choque, mas fazendo uma retrospetiva percebi que mudou-me muito como pessoa. A fama muda as pessoas. Olhando para trás compreendo os erros que cometi, mas faz parte dessa construção.

Olhando para trás, acha que aproveitou bem a oportunidade que lhe foi dada?

Fazer uma comparação com o que é agora é difícil, porque na altura o Facebook já existia, mas não existiam páginas de artistas, por exemplo. Lembro-me que acabei por tomar uma opção que a nível de fãs correu mal para mim em que decidi não trabalhar a minha página pessoal e criou-se uma página de fãs e as pessoas faziam lá gosto.

Houve pessoas que não pensaram nisso. Lembro-me da Carolina Deslandes que não estava a ligar e deixou que a página pessoal dela fosse inundada. Isso depois ajudou-a muito, porque quando se percebeu que o que valia era uma página para o artista ela já a tinha construído.

Com o conhecimento que tenho hoje faria algumas coisas diferentes, arrependo-me de algumas, mas no período pós-'Ídolos' teria tentado ser mais eficaz com o mostrar alguma coisa às pessoas, acho que esperei demasiado tempo.

Apesar de ser um programa em que competiam uns com os outros, acabou por criar amizade com outros concorrentes...

Na altura éramos todos muito íntimos e muito amigos e acabamos por criar relações com as pessoas que são mais parecidas connosco. A Carolina era uma delas. Após o programa nós víamo-nos todos os dias, tornamo-nos muito próximos, íntimos e amigos até hoje.

No programa estávamos muito tempo juntos, vivíamos no mesmo hotel. Criei grandes amizades com ela, com o Gonçalo e com a Maria Manuel.

Acho que é injusto dizer que os jurados do 'Ídolos' não eram pessoas capazes de olhar para o todo, como os do 'The Voice' também são.

Há quem considere o formato do 'Ídolos' injusto, uma vez que os jurados analisam tudo e não apenas a voz. Na sua perspetiva, um artista deverá ser analisado também pela imagem?

Já ouvi essa discussão muitas vezes. Acho que são formatos de programas que são diferentes, mas têm o mesmo objetivo: audiências. Como obter as audiências é que muda. Lembro-me que quando 'The Voice' apareceu essa ideia era interessante: é a voz que vai dar o primeiro impacto. Depois não significa que só a voz é que conta. A partir daí a pessoa é vestida, maquilhada e escolhidas as canções, ou seja, é movimentada e é igual ao 'Ídolos'.

Acho que é injusto dizer que os jurados do 'Ídolos' não eram pessoas capazes de olhar para o todo, como os do 'The Voice' também são. O 'Ídolos', pelo que tenho percebido, tem muito mais castings até chegar às galas. Até aí nós, os concorrentes, estamos sozinhos. Há essa pressão adicional. No 'Ídolos' há quatro castings e 10 galas.

Qual era o conselho que daria aos concorrentes deste ano do 'Ídolos'?

Espero que quem se assume como concorrente possa beber do melhor que estes programas trazem. Na minha opinião nem é a notoriedade, é o sentido de cumplicidade que ganhas com a concorrência. Essa é uma das coisas boas que o programa traz: as pessoas escolhem, é normal, e nós não somos ou amigos ou adversários, porque estamos a concorrer todos pelo mesmo. E a segunda parte é trabalhar com uma grande produção de nível mundial. Eu pelo menos ganhei com isso, o saber estar à frente de um câmara, a pressão de palco, os tempos, a estar com uma banda... Em pouco tempo ganha-se muita experiência.

Como é que tem sido a experiência de ser professor de Educação Musical?

É giro esse regresso à escola. Os meus alunos perguntam-me porque é que ainda não tenho barba branca, porque já me consideram muito velho. Mas tem sido uma experiência ótima porque fui uma pessoa que bebeu muito do ensino, a quem devo muito e que sempre respeitei. Houve uma fase na minha vida que eu percebi que Deus me disse que eu também tinha um dom para ensinar. Não tinha esse desejo quando era miúdo, mas percebi que tinha sido chamado para contribuir para a sociedade nessa área.

Tem sido riquíssimo porque ao estar nas duas áreas ao mesmo tempo - o Ensino e a Cultura - dá para fazer aquilo que eu gostava que os próximos governos compreendessem um bocadinho melhor: a necessidade de aliar a Cultura ao Ensino. As crianças que estamos a formar serão os consumidores do futuro, são eles que irão comprar bilhetes para espetáculos, que irão às exposições, que vão pôr outros a ouvir. Tem sido uma bênção eu poder fazer esse trabalho na escola.

E o que é que ensina nas suas aulas?

Eles vêm com muitas curiosidades sobre o mundo da música, fico muito feliz por poder lhes dar isso. Fazem perguntas sobre o palco, os artistas, como se compõe, são coisas que não estão propriamente no currículo, mas que eu vejo que os faz apaixonar pela Cultura.

A disciplina é sobre entrar dentro do ambiente musical, compreender que há coisas mais fáceis e difíceis, porque, independentemente da profissão que seguirmos, continuamos a precisar de consumir Cultura. Conseguimos consumir de uma maneira mais prazerosa quando percebemos o que está a acontecer. E para mim ver essa evolução nas minhas aulas tem sido fantástico. E não é porque gostaram da música, mas porque passaram a entendê-la, por isso têm mais prazer. Na minha opinião fazia até sentido ir até ao 3.º ciclo para explorar outras coisas como os estilos musicais ou a história da música.

No outro dia alguém me dizia: ser-se pai ou mãe ajuda num processo de santificação.

Foi pai no ano passado do pequeno Xavier. Como é que está a viver a paternidade?

É muito mágico, difícil de descrever, extremamente cansativo, uma coisa que como pais estamos a aprender. É um ser humano que foi formado por nós e esse sentido de responsabilidade é muito especial, é a maior responsabilidade que eu já tive. Isso faz-me respirar fundo. A minha vida mudou muito. É único e faz-me acordar feliz por o ver, por saber que ele está bem. Faz-me pensar que adulto será ele, que adulto estarei a construir. No outro dia alguém me dizia: ser-se pai ou mãe ajuda num processo de santificação. Obriga-nos a ser melhores, porque algumas coisas em que não éramos muito bons quando se tem um filho à responsabilidade até nisso tentamos ser melhores.

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