Muitas vezes a visão é dada como garantida, mas como reage o nosso corpo quando ficamos reféns dos restantes sentidos?

A experiência decorre no piso -1 do hotel Sheraton, em Lisboa, onde o silêncio, o clima intimista e a iluminação reduzida do lugar prenunciam a que aí vem. Antes de entrar para o espaço onde os meus sentidos serão colocados à prova, uma oficina olfativa aguardava, na receção, pelos mais curiosos. Como sou adepta de um bom desafio, e este parecia aparentemente simples – cheirar quatro odores distintos e tentar adivinhar os respetivos temperos – apressei-me para junto da mesa para tentar identificar os ingredientes-mistério. As respostas certas só são reveladas no final do jantar, mas posso adiantar que não passei com distinção.

Ainda na receção somos “convidados” a um “detox digital”, em que temos de colocar todos os nossos pertences num cofre e bengaleiro. Nenhum gadget que possa interromper o escuro absoluto é permitido no espaço onde decorrerá a refeição.

O nervosismo miudinho, por não sabermos o que nos espera, era quase palpável entre os visitantes curiosos, mas quando a Odete, a nossa guia de sala, solicitou que nos colocássemos em fila única, surgiu uma só pergunta: “Como será ali dentro?”

Ao avançarmos, lentamente, uns atrás do outros, por entre as cortinas pesadas de pano opaco, a resposta tornou-se óbvia: Escuro como o breu!

Acha que tem o paladar apurado? Tire as teimas com a experiência Dans Le Noir
Acha que tem o paladar apurado? Tire as teimas com a experiência Dans Le Noir créditos: Divulgação

É exatamente isso! Nem um freixo de luz para garantir que os olhos continuavam a funcionar. Não há vendas que simulem a ausência de luz, apenas uma escuridão total completamente desconcertante.

Eis a experiência – realizar uma refeição completa às escuras, alheia ao menu que me será servido.

É quando sou colocada à frente da minha cadeira que o verdadeiro desafio começa – sentar-me sem derrubar nada à minha volta. Uma vez instalada no meu lugar, a voz da guia indica o que tenho à minha frente: “a faca à direita, o garfo à esquerda, o guardanapo, o cesto do pão…”, diz enquanto os meus dedos tateiam o espaço para confirmar a localização dos objetos.

À medida que a comida vai chegando também os meus sentidos se vão adaptando à nova realidade: pouco a pouco as minhas mãos vão diretamente ao encontro do que procuro sem precisar de andar às apalpadelas, e a escuridão fica ligeiramente menos perturbadora.

Odete, a guia de mesa que nos acompanhou na experiência, é invisual total há 13 anos, mas movia-se com impressionante destreza pelo espaço.

“Inicialmente inscrevi-me sem ter noção que seria um emprego, nem sabia que o ‘Dans Le Noir’ pagava, inscrevi-me por ser um desafio fora da caixa – uma pessoa cega ser guia de sala e servir refeições às escuras”, confessou ao SAPO Lifestyle. Apesar de trabalhar há vários anos na Câmara Municipal de Lisboa, explica que ser guia de sala é mais terapia do que trabalho: “Quando venho para aqui é como ir para uma terapia, para um lugar que gosto. O meu trabalho na Câmara é sobretudo de atenção, no computador e atendimento ao público. Aqui é diferente, a exigência é mais física, mas é um cansaço bom”.

A comida, deliciosa desde a entrada à sobremesa, é confecionada pelo chef Valdir Ramos que baseia os seus pratos na seleção de ingredientes de alta qualidade e sazonais, com influências da América Latina e Ásia. A experiência gastronómica é composta por três pratos, com ou sem harmonização de vinhos.

Uma vez que a comida é servida no escuro e os visitantes não sabem qual o menu, são várias as preocupações e muitos critérios que têm de ser seguidos aquando da sua confeção. “No ‘Dans Le Noir’ temos um documento com guidelines para a preparação da comida. Esta experiência está presente um pouco por todo o mundo, mas cada chefe responsável segue os mesmos critérios de confeção, nomeadamente temperaturas, sabores e texturas”, diz Alexandra Moreaux, project manager do ‘Dans Le Noir’. “Obviamente cada chefe tem liberdade criativa para montar o seu menu, mas todas as propostas são sujeitas a degustação e o que não estiver dentro dos critérios é ajustado”, conclui.

Para além de aberta ao público em geral, esta experiência gastronómica encontra-se também disponível para grupos maiores, nomeadamente integrado em team buildings corporativos, mediante reserva prévia.

O jantar às escuras acontece todas as quintas, sextas e sábados e tem um valor de 55€ por pessoa, que inclui entrada, prato principal, sobremesa e água com ou sem gás. Se é apreciador, pode optar por incluir na experiência a harmonização de vinhos, pelo valor de 65€ por pessoa, que adiciona três copos de vinhos à degustação anterior.

As reservas podem ser feitas aqui.