HealthNews (HN)- A dislexia ainda é negligenciada pela sociedade e pela comunidade escolar. Quais são os principais constrangimentos com que se deparou e continua a deparar no percurso académico?

Joana Gonçalves (JG)- Em todas as instituições que frequentei sempre me deparei com um processo muito lento. A informação não circula como deveria entre docentes, psicólogos e diretores. Isso atrasou muito a minha aprendizagem. Sempre fui muito prejudicada… Os professores tratavam-me de maneira “normal”, sendo que eu tinha muitas dificuldades por causa da dislexia.

Sempre senti, e acho que vou sentir o mesmo quando entrar no mercado de trabalho, aquela dúvida se estou a ser avaliada da forma como deveria. Apesar de ter um documento a comprovar a minha dislexia fico sempre com essa dúvida… Não me sinto confortável em questionar o trabalho das pessoas, sejam eles professores ou não.

HN- Em Portugal não há nenhuma formação específica obrigatória para os professores, e tendo em conta a sua experiência, considera que há efetivamente falta de apoio nas escolas?

JG- Sem dúvida. Embora a dislexia não seja um problema grave aos olhos dos outros, já que não ficamos incapacitados de realizar tarefas, é necessário mais apoio. É preciso mais psicólogos que saibam como agir. Eu por exemplo nunca tive o apoio de nenhum psicólogo especializado em dislexia… Sempre tive vários psicólogos na escola, mas realizavam atividades para pessoas com défices de atenção ou raciocínio, sendo que não era esse o meu problema. A minha dislexia é mais direcionada à compreensão das palavras.

HN- E qual foi o papel que os seus pais tiveram ao longo deste processo?

JG- Os meus pais foram essenciais. Sempre me incentivaram a ler e a escrever. Por parte dos meus pais tive muito apoio, mas por parte dos professores não tive. Eles próprios sentiam muita dificuldade na forma como me deveria avaliar, uma vez que no meu relatório havia parâmetros que os impedia de contar erros ortográficos, a estrutura de frases não poderia ser penalizada na totalidade, etc. Os professores não sabiam o que fazer nem como realizar a minha avaliação nos exames. Penso que precisam de formação nesse sentido.

HN- As dificuldades sentidas em contexto escolar podem provocar alguma frustração e conduzir para sentimentos de inferioridade. No seu caso como é lidar com esta disfunção neurológica?

JG- Os meus pais sabiam que tinha dislexia, mas nunca me contaram por esse mesmo motivo. Não queriam que eu sofresse nem que me sentisse menos que os outros. Foi no sétimo ano que descobri que tinha dislexia. Foi a professora de português que percebeu que tinha dificuldades e disse que tinha dislexia.

No início, senti-me “burra” e inferior perante os outros. Os meus colegas conseguiam fazer as atividades com rapidez e eu demorava sempre muito tempo. Isso fez com que também sofresse de bullying. As crianças não sabem o que é a dislexia. Não é um assunto abordado nas escolas.

HN- Há falta de sensibilização na comunidade escolar…

JG- Sim, muita. A dislexia deveria ser um assunto normalizado e abordado nas escolas. O Ministério da Educação deveria começar a trabalhar mais com estas crianças. Estamos a falar de 10% da população… É muita gente. Portanto, deveria haver mais apoio. Não é quando acabamos a vida académica que a nossa dislexia desaparece, ela é para o resto da vida.

HN- Esta disfunção pode fazer com que muitos alunos percam o interesse na aprendizagem, levando ao abandono escolar, mas esse não foi o seu caso. Quais as estratégias que tem encontrado para ultrapassar as dificuldades provocadas pela dislexia?

JG- Sempre quis tirar um curso de ensino superior. Era um sonho para mim… E a dislexia atrasou esse sonho porque acabei por entrar três anos mais tarde à faculdade, mas ao mesmo tempo foi bom. Nesses anos aprendi muito vocabulário e consegui “disfarçar” a minha dislexia.

É claro que quando entrei no ensino superior foi um grande choque. Não era nada do que estava à espera. Era um mundo mais complicado e vi-me aflita.

HN- Foi na faculdade que teve conhecimento do Orcam Read, uma nova tecnologia, desenvolvida pelo Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID) da ESECS do Politécnico de Leiria, de apoio a pessoas com dislexia. Em que medida este aparelho contribuiu para enfrentar os desafios sentidos na sua aprendizagem?

JG- Estou a tirar o curso de Comunicação e Media, o que significa que tenho de ler e escrever muito. Sempre tive muita dificuldade no que toca à leitura silenciosa e o aparelho ajuda-me a ter alguém a ler por mim, mas sem perturbar outras pessoas. O aparelho também lê os textos que escrevo e se não perceber bem a palavra é porque há um erro. Consigo mais facilmente identificar os meus erros ortográficos e de construção de frases.

HN- Gostaria de deixar alguma mensagem para os jovens e crianças com dislexia?

JG- Acho que não devemos nunca desistir dos nossos sonhos só por causa da dislexia. Toda a gente vai dizer que não vais conseguir… a mim muitas pessoas disseram-me que não iria conseguir e que não era capaz, mas a verdade é que hoje estou no ensino superior. Se eu tivesse dado ouvidos a essas pessoas não estaria onde estou. Não devemos desistir nunca.

Entrevista de Vaishaly Camões

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