Já não faltará muito para atingirmos, no mundo, os duzentos e cinquenta milhões de casos e os cinco milhões de óbitos por (ou com) COVID-19, registados como tal. Mas, de facto, a que número real corresponderá?

Tais números, num contexto actual de quase 50% de vacinados com pelo menos uma dose no mundo, ainda que com a conhecida (e reiterada) iniquidade de acesso a esse meio de prevenção.

Sem vacina, qual teria sido a repercussão da actual emergência de Saúde Pública?

De novo, uma “gripezinha”? com cinco milhões de casos fatais?

Mesmo com uma mais equilibrada distribuição de vacinas quantos mais casos ainda estarão para ocorrer? E quantos mais óbitos?

Terá a “brutalidade” de tais indicadores sido suficiente para perspectivar a prestação de cuidados de saúde num contexto mais amplo que não se esgote na prestação de cuidados de saúde individuais?

Que consequências para a Humanidade se teria se o vírus causasse maior gravidade da doença, por exemplo mais próximo do equivalente aos efeitos do grupo de agentes das febres hemorrágicas, que dimensão poderia ter atingido?

Oxalá a Humanidade saiba retirar lições para o futuro, adequando os sistemas de saúde a respostas que se situem para além da clínica individual e que robusteçam, em vez de minguarem, as formas organizadas da sociedade a outras ameaças que, por certo, virão. Como o povo diz “o barato sai caro” no contexto da manutenção de estruturas de vigilância, gestão de informação e respostas organizadas (afinal, a Saúde Pública) a novas potenciais ameaças de natureza similar. Isso para não falar na necessidade de se investir mais na criação de conhecimento que demonstrou, na actual situação pandémica, que é decisiva para uma adequada gestão de riscos.

Claro que os custos intangíveis como o sofrimento ou as mortes evitáveis, mesmo transformados em unidades monetárias, são bem mais elevados que a perspectiva económica mais dominante e frequente. A “velha questão” das pessoas servirem a Economia ou a Economia servir as pessoas, como se essas variáveis fossem independentes …

Não terá sido suficiente para nos prepararmos melhor para minorar os impactos individuais, sociais, económicos ou políticos?

Não terá sido suficiente para corrigir, pelo menos parcialmente, a trajectória mais prevalente dos actuais sistemas de saúde?

O investimento dos sistemas de saúde na área da Saúde Pública, mesmo nos países mais ricos e desenvolvidos, há muito que hipovaloriza a sua real importância e a presente situação pandémica veio “pôr a nu”, com crueldade, essa realidade. Idêntica situação ocorrerá nos recursos (irrisórios, se não mesmo insignificantes) reiteradamente atribuídos à criação de conhecimento e investigação nessa mesma área científica.

Ou vamos voltar a não aprender o suficiente com o conhecimento que vamos adquirindo?

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