Em Portugal, à semelhança do resto do mundo, são várias as empresas que oferecem um serviço de criopreservação de células estaminais do sangue do cordão umbilical, o seu armazenamento em azoto líquido a uma temperatura de 196º C negativos, para que toda a atividade biológica das células cesse, mantendo-as num estado latente. Mas estas não são umas células quaisquer. São as células estaminais hematopoiéticas.

Uma espécie de supercélulas indiferenciadas, com muitos médicos e investigadores lhes chamam, que têm a capacidade de se diferenciar em vários tipos celulares, de se renovar e dividir indefinidamente. É devido a estas excecionais características intrínsecas que são tão importantes na terapia de várias doenças hemato-oncológicas, como é o caso das leucemias e dos linfomas, só para referir duas delas.

Por outro lado, estes organismos demonstram igualmente capacidade na regeneração dos tecidos, o que, no futuro, poderá aumentar a sua aplicabilidade noutro tipo de doenças, como é o caso das doenças ósseas e das cardíacas. Atualmente, o período de armazenamento é de 20 anos, havendo a possibilidade de prolongar este período se a qualidade da amostra assim o permitir. Uma realidade nova que importa conhecer.

Especialistas da Universidade de Atenas e da Unidade de Transplante de Células Estaminais do Hospital Infantil Aghia Sophia, na Grécia, realizaram um transplante autólogo de sangue do cordão umbilical, com células estaminais criopreservadas do próprio corpo, que, combinado com uma terapêutica imunossupressora, permitiu curar duas crianças com deanemia aplástica grave em 2012.

Só meia dúzia de anos depois, deixando uma margem de segurança que inviabilizasse a criação de expetativas nos pais de outros portadores da doença, é que o procedimento, realizado em crianças de 15 e 24 meses, foi tornado público. Em Portugal, o primeiro transplante de células estaminais criopreservadas aconteceu no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto em 2007. Salvou a vida a uma criança de 14 meses.

Da colheita ao armazenamento

O processo de colheita ocorre no momento do parto. É feito com recurso a um kit específico, que terá de ser previamente comprado. A recolha é feita imediatamente após o corte do cordão umbilical. Isto significa que nem a mãe nem o bebé serão postos em perigo e nenhum dos dois sentirá qualquer tipo de dor. O responsável pela colheita é um elemento da equipa médica presente no parto.

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A partir daqui, a empresa que comercializa o serviço, um banco privado, previamente escolhido pelos pais, deverá ser alertada para proceder de imediato à recolha, ao transporte em tempo útil até ao laboratório e, posteriormente, ao processamento da criopreservação da amostra de sangue do cordão umbilical, que segue uma série de regras. Mário Sousa, médico geneticista, alerta, no entanto, em declarações à Saber Viver, para o facto de "apenas uma em cada dezena colheitas de sangue do cordão umbilical possuírem qualidade suficiente para serem criopreservadas".

"Nós só avançamos para a criopreservação do sangue se este estiver isento de contaminações", fez questão de sublinhar, à revista, o especialista. Estas células não se encontram, contudo, apenas no sangue do cordão umbilical, existindo igualmente na medula óssea. No caso de um indivíduo necessitar delas para a terapia de uma leucemia, por exemplo, é possível recorrer ao banco mundial de medula óssea.

Como é que estas células ajudam a salvar vidas

Em Portugal, no início da década, já eram mais de 100.000. A criopreservação de sangue do cordão umbilical é vendida aos pais que o queiram fazer para usar no caso de o seu filho vir a apresentar uma doença em que o transplante de medula óssea possa ser curativo. "Mas a probabilidade de tal acontecer é extremamente remota", esclareceu à publicação esclarece Manuel Abecasis, hematologista.

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"É importante não esquecer que, nas leucemias agudas das crianças, muitas vezes, já o sangue de cordão umbilical contém células leucémicas", esclareceu, na altura, em declarações à revista feminina Saber Viver, na condição de diretor da Unidade de Transplantação de Medula Óssea do IPO de Lisboa, aquele que foi um dos pioneiros dos transplantes de medula óssea em Portugal. Contudo, o sangue do cordão umbilical de uma criança não a poderá ajudar a salvar apenas a ela no futuro. Pode também ajudar a salvar a vida de um familiar próximo, como um irmão ou até um dos progenitores.

Estas células estaminais hematopoiéticas têm vantagens em relação às da medula óssea dos adultos. São mais jovens, mais resistentes, têm maior capacidade de regeneração (dez vezes superior), apresentam índices mais elevados de compatibilidade entre dador e recetor e uma menor incidência de rejeição do transplante, quando usadas no repovoamento de medula óssea de doentes após quimioterapia e/ou radioterapia.

Bancos privados versus bancos públicos

Portugal e o Reino Unido eram, no início da década, os únicos estados-membros da União Europeia onde existiam bancos privados de sangue do cordão umbilical. No caso do Reino Unido, os que existem submetem-se a uma certificação periódica efectuada pela Netcord, a entidade internacional de certificação de bancos públicos. "Em Portugal, não há regulamentação", queixava-se então Mário Sousa.

"E uma das consequências é que a informação que estas empresas divulgam nem sempre é verdadeira e não é controlada", alertava, naquela altura, aquele que um dos mais conhecidos defensores da criação de um banco público de sangue do cordão umbilical no nosso país. De lá para cá, o panorama mudou. A informação disponível, além de ser maior, também tende atualmente a ser mais clara.

"Vivemos numa sociedade livre, com uma economia de mercado e as pessoas são livres de dar ao seu dinheiro o destino que quiserem. Se informadas corretamente sobre o real valor de congelar o sangue do cordão umbilical do seu filho, por que não?", questionava na altura Manuel Abecasis. A criopreservação das células estaminais custa, no mínimo, 1.000 €. O período de armazenamento é de, pelo menos, 20 anos.

Texto: Alexandra Pereira com Mário Sousa (médico geneticista) e Manuel Abecasis (médico especialista em hematologia clínica)

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