Por Luís Castelo*

Em Portugal, nos primeiros dias de confinamento, em março último, foram vários os chefes de cozinha que reclamaram o apoio do Estado (tal como aconteceu com a maioria dos setores). Neste caso, a pandemia deixou a restauração perante uma crise sem precedentes, completamente a zeros, com tudo encerrado. O dinheiro em caixa mal daria para cumprir com as obrigações logo no primeiro mês. Equipas grandes e pequenas, com ou sem estrelas Michelin, estavam todas no mesmo barco.

As adversidades têm o potencial de despertar a criatividade e as novas ideias. Em Lisboa, um chefe de cozinha destacou-se pela sua capacidade inovadora e, mais uma vez, fez o que sempre o caracterizou ao longo da sua carreira, liderou. Logo em março, Vítor Sobral (restaurantes Tasca da Esquina, Peixaria da Esquina, entre outros) foi dos primeiros a reagir com um serviço de take away, não descurando a qualidade nem a cozinha portuguesa que caracteriza os seus projetos.

Por décadas, além das pizzas, pouco mais se pedia através do take away.

Depois de Sobral, vários seguiram o seu exemplo e hoje temos take away em todos os segmentos. Há que recordar um facto: por décadas, além das pizzas, pouco mais se pedia através do take away. Cerca de um ano antes, a Uber e outras plataformas semelhantes, começaram a vulgarizar este serviço. Porém muitos restaurantes, aparentemente nunca iriam aderir por questões de marketing, estratégia ou até de preconceito.

Já estávamos em fase de desconfinamento quando, finalmente, José Avillez (duas estrelas Michelin no restaurante Belcanto) se rendeu à Uber Eats e anunciou que também a sua cozinha podia ser experimentada em casa. Foi preciso fazer testes e adaptá-los para que a experiência seja semelhante à que se teria num dos seus restaurantes.

Take away: porta aberta para a democratização da experiência gastronómica
Luís Castelo é professor e chef-executivo da Oficina Oito. créditos: Oficina Oito

Hoje, após o desconfinamento, poucos são os que além de terem aberto as suas portas não mantêm o serviço de take away em simultâneo. Este veio para ficar e revelou-se uma nova linha de negócio para a maioria da restauração.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, diz-nos o poeta, e também as necessidades, acrescento. Com tanta oferta disponível e com a possibilidade de não sermos "obrigados" a consumir um couvert nem o vinho da carta, mais uma entrada ou sobremesa que o empregado habilmente sabe vender, com o take away conseguimos ir diretos ao assunto, ter uma boa experiência sensorial e gastronómica que, em circunstâncias normais, dificilmente fruiríamos, a menos que festejássemos uma data especial.

Hoje, pedir comida que nos chega à porta de casa à hora definida já não é necessariamente sinónimo de comida altamente processada ou fast food.

O take away veio democratizar a comida e permite ter acesso a chefes de cozinha e restaurantes mais conhecidos que, no formato tradicional, seriam sempre menos acessíveis no que toca a preços.

Claro que podemos continuar a pedir pizzas como A.C., mas o take away D.C. abre-nos uma janela de oportunidade para a diversificação e qualidade do que se pode comer em casa.

Hoje, pedir comida que nos chega à porta de casa à hora definida já não é necessariamente sinónimo de comida altamente processada ou fast food.

Estas novas opções também podem proporcionar momentos de partilha à mesa com alimentos saudáveis e não processados, com amigos ou família. O novo take away vem também sentar-se à mesa connosco!

* Luís Castelo é professor e chef-executivo da Oficina Oito

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