Já se imaginou de férias no meio de uma floresta onde o silêncio é apenas quebrado pelos vários sons da natureza ou em contacto directo com populações locais a receber e transmitir costumes, sem que por perto haja sinais de turismo de massa ou tenha de estar confinado a um resort? Se a sua resposta é afirmativa, então está na altura de descobrir o ecoturismo. Muitos ainda têm a ideia que é mais caro e menos luxuoso, mas os novos empreendimentos tem vindo a mudar essa mentalidade.

«O ecoturismo é um segmento turístico que está particularmente vocacionado para a observação e contemplação de espaços naturais, da fauna e da flora, atividade à qual se associa também uma vertente mais cultural que é o contacto com comunidades locais», explicou à Saber Viver Brígida Brito, entrevistada enquanto investigadora do Centro de Estudos Africanos do ISCTE e com doutoramento em ecoturismo.

Pode-se fazer ecoturismo em qualquer parte do mundo mas há países que estão mais vocacionados que outros pelas suas características ambientais. Ter espécies que as pessoas gostam de observar, locais para caminhar e contemplar a natureza bem como alojamento adequado são as regras básicas do ecoturismo. «O Brasil e a Costa Rica são dos países que mais potencialidades e iniciativas têm», sublinha.

Mas, nos últimos anos, outros locais têm emergido, como é o caso da Malásia, onde estão localizados empreendimentos como o Gayana Eco Resort (na imagem). Na Tasmânia, em novembro de 2016, foram anunciados mais quatro, com abertura prevista para o verão de 2017. «O continente africano tem menos mas algumas iniciativas em Moçambique, Namíbia, São Tomé e Príncipe e Guiné Bissau são muito interessantes», exemplifica a investigadora.

Hotéis especiais

O alojamento também obedece a alguns critérios. «Deve ser de pequena dimensão, explorado por locais, ser um núcleo de desenvolvimento da área onde está instalado e os lucros devem ser retidos localmente de forma a ajudarem a criar infraestruturas como escolas, centros de formação e hospitais», afirma Brígida Brito. Para além destas regras existem outras, tais como a utilização de energias renováveis.

A construção com materiais da zona e estarem completamente integrados no ambiente e cultura são outros dos pressupostos. Como nos conta esta investigadora, «as unidades de ecoturismo vão do básico ao luxo, embora as primeiras sejam as mais frequentes e se caracterizem por serem quase sempre cabanas sem ar condicionado e onde a energia elétrica é, em muitas ocasiões, substituída por velas e tochas alimentadas, por exemplo, por papaia verde e óleo de palma».

«São despojadas de qualquer tipo de luxo mas são ideais para estadias curtas e estão localizadas em lugares extraordinários», acrescenta ainda esta especialista. Em outubro de 2016, o site Dailymail.co.uk listou os países que mais têm vindo a apostar neste tipo de turismo. A Costa Rica surge na linha da frente, seguida por destinos como as Ilhas Galápagos, a Malásia, o Peru e a Patagónia. Veja também a galeria de imagens de destinos com muito verde.

Veja na página seguinte: O caso português

O caso português

Em Portugal, no final da década de 2000, o ecoturismo era praticamente ainda inexistente. «O que já existe são excursões de um dia para fazer caminhadas. Em termos de alojamento, o que temos de mais semelhante é o turismo rural, pois insere-se numa pequena comunidade», esclarecia, na altura, à revista Saber Viver, Brígida Brito. A maioria dos portugueses também não é grandes adepta deste tipo de turismo.

E muitos dos que o são acabam por optar pelo estrangeiro, como foi o caso de Solange Gonçalves, empregada bancária. «Há uns anos, escolhi um eco-resort na República Dominicana precisamente por ter essas características», assegura. «Este segmento não é adaptável a toda a gente e para haver uma maior promoção do ecoturismo é necessário mudar mentalidades», refere Brígida Brito.

«Há quem prefira ficar nos hotéis em vez de andar a pé por caminhos difíceis mas que proporcionam experiências inesquecíveis», diz a especialista, que não desvaloriza eventuais perigos, como a presença animais e a possibilidade de quedas. «A partir do momento em que entramos num parque florestal para ir ver chimpanzés temos de ter consciência de que ali também vivem cobras, leopardos e outros tipos de animais que podem apresentar perigo para o homem».

O perfil dos ecoturistas

O ideal é que, antes de partir, se informe dos perigos e tenha consciência do que faz, «até porque perigos existem em qualquer lado, até mesmo quando atravessamos a rua onde moramos», lembra a investigadora. Querem aproveitar ao máximo experiências únicas e consideram as viagens uma importante dimensão de aprendizagem. São oriundos, sobretudo, dos países do norte e do centro da Europa (Dinamarca, Finlândia, Inglaterra, Alemanha, Suíça e França) e dos EUA.

Têm, em média, mais de 50 anos e possuem formação superior. São pessoas muito interessadas, fazem muita pesquisa e planeiam as viagens ao pormenor. Preocupam-se com o ambiente e a sua máxima é deixar o local visitado tal como ele estava, sem trazer ou deixar nada. São pessoas que respeitam as comunidades visitadas e interagem com elas no que toca aos costumes, práticas e hábitos. Não usam excessivamente a sua capacidade negocial quando adquirem algum bem.

Onde fazer

Se está a pensar render-se a esta forma de turismo, opte por um destes exemplos a seguir:

- Ecolodge

Situado na Praia Jalé, no sul de São Tomé e Príncipe, é conhecido por proporcionar aos turistas a observação de tartarugas a desovar e a nidificar, bem como o nascimento das suas crias e a sua caminhada até ao mar. Está situado numa zona de pas-sagem de golfinhos e baleias e perto do rio Malanza,que é navegável em canoa tradicional, durante estes passeios pode ver-se macacos e a zona de mangal que dá um colorido encarniçado à água. Mais informações neste site.

Cristalino Lodge

Já venceu a categoria de Preservação Ambiental dos World Savers Awards da revista Condé Nast Traveller e é conhecido por proporcionar a observação de mais de 550 espécies de aves e borboletas. Está situado na Amazónia e é rodeado por floresta primária, o que faz com que só seja acessível de barco. Integra a Fundação Ecológica Cristalina. Saiba mais em www.cristalinolodge.com.br.

- Uana

Este ecoturismo guineense é recente e tem para oferecer a observação de símios, os macacos fidalgos vivem nas árvores do próprio complexo. Os grandes mamíferos podem ser vistos no corredor de Balana que liga a Guiné Bissau à Guiné Conacri. O Uana está situado no Parque Nacional de Cantanhez, no sul do país, numa deslumbrante zona de floresta primária.

Texto: Rita Caetano e Luis Batista Gonçalves com Brígida Brito (investigadora)

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