Três mães com caminhos e experiências diferentes, mas unidas na missão de criar os melhores seres do mundo – os seus filhos. Têm em comum o facto de estarem na "casa dos 30". Partilham também a vontade de fazer coisas: cada uma está a desenvolver o seu projeto.

Joana Gama deixou há pouco tempo a estabilidade do trabalho que teve durante uma década para ser freelancer e apostar também numa área que nos últimos anos tinha deixado em stand by: o stand-up. Além de ser coautora do blogue "a Mãe é que sabe". Liliana Ferreira descobriu a satisfação num hobby e começou a dar workshops e cursos online sobre disciplina positiva, ao fim do dia e aos fins de semana, e desde então alimenta um blogue sobre o mesmo tema e mantem o seu trabalho durante a semana. Filipa Jardim da Silva, como psicóloga clínica, nunca teve a estabilidade ou os horários "normais" de um trabalho de escritório, apesar de sempre ter trabalhado em ambiente de consultório. Há dois anos, decidiu arriscar mais um pouco e ser trabalhadora por conta própria, deixando para trás a segurança que o trabalho em equipa lhe proporcionava.

Também em comum, claro está, a maternidade. Estas partilhas são as suas vozes em discurso direto.

Que nos desculpem os pais. A intenção não é serem esquecidos. Têm um papel muito importante. Mas hoje, é o dia delas.

Joana Gama, a mãe que escolheu partilhar que a maternidade não é algo perfeito e que isso não faz mal

Um público mais jovem poderá reconhecer a sua voz, pelos anos que trabalhou como radialista num dos maiores grupos de comunicação portugueses. Haverá quem consiga recordar as partilhas que fez semanalmente enquanto um dos elementos do grupo de especialistas da Dose Diária do SAPO, no tema Lifestyle. Haverá alguém que já segue as suas palavras através de um dos blogues de maternidade mais conhecidos em Portugal. Ou existirá quem a aprecie pelo seus espetáculos de stand-up. A Joana Gama pode muito bem ser a mulher dos sete ofícios. Mas para lá das suas várias dimensões é também a mãe da Irene. E esta é a sua história.

Joana Gama
Joana Gama créditos: Paulo Simões

"Lembro-me de ter feito uma visita guiada a uma turista inglesa pela exposição dos trabalhos dos alunos na Escola n.º 2 da Rinchoa. Não sabia do que estava a falar, mas ela tinha uma câmara na mão e achei que se continuasse a apontar para as coisas e fingisse que sabia, que me iria safar naquela tarefa a que me tinha proposto. Com seis anos, senti-me atraída pela atenção de estranhos (tudo certo, não é?), mas também por brincar e por fingir.

Essa menina andou por meia dúzia de sítios antes de entrar na primária na Rinchoa. A mãe, juíza, teve de estagiar pelo país inteiro e lá foi com ela conhecer muito de Portugal. Éram só as duas e os momentos em que o pai a visitava eram mágicos.

Entre essa Joana e a Joana que hoje gosta de fazer rádio, televisão, stand-up, teatro, improviso, palestras, podcasts... passaram 32 anos.

Na psicanálise ainda não cheguei ao ponto de conseguir perceber porque é que não sinto que o tempo tenha passado por mim ao mesmo tempo que sinto a minha infância tão longe. Parece que existem anos que não me souberam a nada, pelo meio, talvez por alguns traumas. Mas que traumas poderá ter uma menina que tenha estudado na Católica?

Quem era antes da maternidade é ainda quem sou, mas finjo melhor. Continuo a querer a atenção de estranhos, continuo a achar graça a fingir que sei coisas. Só que agora já sinto que tenho coisas a perder. Vou contar-vos.

Nunca quis ser mãe. Sempre olhei para isso como algo que não seria para mim

A vida pode ser dura quando se sente que não se tem nada mas, por outro lado, dá-nos um sentimento de imunidade que nos faz fazer muitas parvoíces. Agora, tenho uma filha. Uma filha que surgiu por decorrer das premissas que algures ficaram escritas em mim pela sociedade, pelo guião. Creio que terá sido por estar numa fase de aparente estagnação da minha carreira e por sentir que não haveria mais nada que me desafiasse.

Fui desafiada pelo meu namorado da altura a ter uma filha. Senti, como sempre, que não tinha nada a perder. E, pronto, tive a filha.

Nunca quis ser mãe. Sempre olhei para isso como algo que não seria para mim. Como se não tivesse vocabulário suficiente para amar e para educar com amor. Sentia, e sinto, que ter uma criança é algo que nos transcende e que, para sermos pais, temos de nos entregar por completo. Os filhos têm de ser a nossa maior obra. Por eles, pelo mundo e também por nós.

Não senti que estivesse à altura desse desafio. Preferi julgar-me incapaz e sonhar com uma pseudoinfertilidade para não ter de pensar mais no assunto. Tinha acabado aqui a conversa. O plano era ver séries de comédia com a minha melhor amiga, no sofá, fumar um maço de Camel e comer rebuçados o dia inteiro.

Para ter uma criança é preciso conhecer-se amor. E 'o amor' que eu conhecia vinha embrulhado de condições, chantagens, medo e repreensões. Senti medo e preocupação quando a minha filha nasceu, mas não senti mais nada. Não conseguia conversar com ela ou cantar como as mães cantam. Foi como se tivesse ficado paralisada. Dizem que o cérebro mais animal tem duas reacções em situações de perigo: a de fuga ou, então, ficar congelado.

Não tinha opção. Tinha de amar à força. A Irene e eu tivemos de plantar o amor em mim, regá-lo por entre noites mal dormidas, rotinas asfixiantes e passeios ao jardim por 'fazer bem ver árvores'. A minha ansiedade e medo deixavam-me apenas num modo operacional. Obriguei-me a cantar. Só tinha as músicas que via dos filmes da Disney, em português do Brasil, na minha cabeça, aquelas cassetes que vi vezes sem conta. Muitos 'Hakuna Matata' cantei para que ela parasse de chorar, para que adormecesse, para que comesse, para que... tudo.

A maternidade deu-me estrutura sentimental. Deu-me, finalmente, o amor incondicional. Depois de o ter, pude dar

Até que houve um dia em que, enquanto lhe dava de mamar, lhe pisquei os olhos. Ela piscou-me de volta. Senti, finalmente, que tinha ao meu colo uma pessoa e não apenas um ser vivo, por muito que isto possa parecer imbecil.

Comecei a falar imenso com ela, a brincar, a inventar músicas para tudo e mais alguma coisa. A sofrer imenso com a hora de a adormecer. Mas tudo o resto estava a ficar mais tranquilo. Dançávamos, brincávamos juntas, passeávamos juntas. Apaixonámo-nos uma pela outra com o tempo.

As sementes que tínhamos plantado estavam a dar frutos. A Irene foi crescendo ao mesmo tempo que o amor e a mãe em mim. Olho-a com admiração, com respeito e com uma enorme responsabilidade. Gosto quando cada uma de nós está no seu lugar: lado a lado, de mão dada.

A maternidade deu-me estrutura sentimental. Deu-me, finalmente, o amor incondicional. Depois de o ter, pude dar. Era impossível fugir a esta responsabilidade, da mesma maneira que o amor se mostrou incontornável.

Mais do que uma filha, conheço esta pessoa que estou a criar. Desde que ela nasceu que tem sido um desafio muito grande tentar equilibrar esta nova missão com tudo o resto que ainda não tinha percebido em mim.

O objetivo de amamentar até nos fazer sentido tornou tudo muito mais fluído a nível de apego, mas mais lento no que toca à minha liberdade. Foi e ainda é duro ter de fazer escolhas que nem sempre imediatamente estejam a meu favor. Nem sempre é fácil entender que tudo o que é a favor da minha filha é também o melhor para mim, mas vai-se encaixando. Vai-se tornando normal. E ganhando, de novo, espaço e tempo para sermos nós sem os nossos filhos, respeitando os ritmos de todas as partes envolvidas.

Senti-me muito apardalada com tudo isto. Muito sozinha e com muitas dúvidas. Precisei de contacto com o mundo exterior e queria também ajudar outras mulheres a não se sentirem como eu. Essas mulheres que me eram estranhas mas que tanto teríamos em comum. Parece que havendo mais gente com as mesmas loucuras que deixamos de nos sentir loucos e foi isso que procurei e também quis dar ao criar o blogue com a Joana Paixão Brás.

a Mãe merece essa letra maiúscula, especialmente se tiver a missão de se melhorar constantemente por si e pelos seus filhos e família. Cansa, mas recompensa

Só me tem trazido coisas boas este projeto. Um processo terapêutico diário sobre isto de ser mãe e mulher, um exercício de despessoalização gigante e também uma grande satisfação por sentir que serve o seu primeiro propósito que é o de fazer com que mais mães se sintam normais.

E que vejam as suas crianças como pessoas. Já lá vão cinco anos de “a Mãe é que sabe” e, a verdade, é que não é só a Mãe quem sabe. No entanto, a Mãe merece essa letra maiúscula, especialmente se tiver a missão de se melhorar constantemente por si e pelos seus filhos e família. Cansa, mas recompensa.

Agora temos em mãos o projeto “a Mãe é que sabe... ajudar” em que vamos a casa das nossas leitoras que estão na fase final da gravidez ou no início da maternidade dar uma ajudinha no que for preciso, levando também prendas de bons parceiros.

Depois de mais de dez anos a trabalhar num grande grupo de comunicação, chegou a altura de fazer um balanço. Da mesma maneira que mudamos quando surge uma criança, o resto também irá acompanhar, mais cedo ou mais tarde. Tem de haver uma sintonia.

Agora tenho coisas a perder. E não ganhar alegria diariamente tem um custo muito grande quando se quer ensinar alguém a ser feliz

Apesar de o meu trabalho sempre ter refletido e acertado nos pontos que mais têm que ver comigo – comunicação, humor e criatividade – estava na altura de crescer. Ali dentro havia um teto para mim e isso não me poderia limitar.

A Irene não foi um fator direto na escolha. Trabalho e trabalharei as mesmas horas (até mais) do que trabalhava, mas agora construo-as à minha maneira e faço apenas o que gosto. A minha felicidade é a dela e vice-versa.

Agora tenho coisas a perder. E não ganhar alegria diariamente tem um custo muito grande quando se quer ensinar alguém a ser feliz, a ter as ferramentas necessárias.

O que tinha ficado com a Joana antes de ser mãe tinham sido os palcos. O stand-up e a comédia de improviso acabaram por perder espaço à medida que a minha barriga crescia, mas agora estão a voltar. A Irene, já crescida, já se sente segura a dormir também em casa dos avós e isso dá-me mais liberdade. E daí o COITO - aqui não nos apanham a falar mal deles.

O COITO surgiu por querer aliar o humor à parentalidade. Sou ambas as coisas, mas reparo que isto de ser mãe ainda é muito pesado para mim. Traz-me o lado depressivo, sem grande capacidade ainda de relativização. Quero conseguir rir-me disto, caraças. E quero também que outros pais se consigam rir, que sintam também que fazem parte de um grupo enquanto se passam algumas mensagens importantes que nem todos temos a sorte de as assimilar.

COITO:
Joana Gama e David Cristina na apresentação de "COITO - aqui não nos apanham a falar mal deles". créditos: Tiago Maltez | Ponte Media

Aquilo a que se chama ou que eu entendi como Parentalidade Consciente é algo que levo muito a sério, com muito respeito. E, no COITO, enquanto se resolvem alguns nós e se aliviam algumas tensões com humor, o David Cristina e eu, juntamente com os convidados, acabamos sempre por fazer a ponte entre o que é dito e como se poderá transformar em informação útil e a favor das famílias. Sei que assim parece muito complexo, mas é para rir. É um sítio onde os pais se sentem seguros para falar 'mal dos filhos' porque isto da parentalidade está longe de ser um mar de rosas. Tal como tudo na vida, digo eu.

Vejo todos os dias na Irene a mulher espantosa que sou por conseguir ver a miúda incrível que ela é

Ser mãe deu-me luz. Dei-me à luz. Estava cá tudo, mas agora está devidamente iluminado. A Irene deu-me o bem mais precioso de todos: amor e fé. Vejo todos os dias na Irene a mulher espantosa que sou por conseguir ver a miúda incrível que ela é. Ela é o meu primeiro espelho que me faz bem. Ela é a peça que me faltava para sentir que conseguia e que iria ser uma boa mãe. Tenho sido, mesmo quando parece que me faltam todas as forças, porque há sempre mais.

Sou muito mais feliz agora que sinto que tenho coisas a perder. Ganhei o mundo. Como não sentir medo? Este medo é amor e é amor que recebo e dou por ser mãe.

Obrigada, Irene."

Liliana Ferreira, a mãe que encontrou as respostas que precisava na disciplina positiva

Como passar daquela realidade em que somos crianças, as meninas lá de casa, que tentam obedecer aos pais da melhor forma que podem e que conseguem mas que questionam o mundo que nos é dado a conhecer e a forma como esse conhecimento nos é apresentado? E que depois são mães e não querem repetir os mesmos erros do que os seus pais? Foi este um dos pensamentos que serviu de base ao post "Porque decidi educar com disciplina positiva?" que Liliana Ferreira partilhou no seu blogue. Liliana tem duas filhas, uma praticamente nos sete, outra com quase três anos, e descobriu as ferramentas necessárias para se tornar na mãe que queria realmente ser. Este é o seu testemunho.

Liliana Ferreira
Liliana Ferreira

"Nasci numa família da Beira Alta e ainda bem cedo, aos três anos, viemos morar para a zona de Lisboa, onde havia oportunidades de emprego que escasseavam no interior do país.

A família sempre foi o centro da minha vida, enquanto criança e jovem, e por isso sempre me fez sentido um dia vir a constituir a minha família também.

Ter filhos creio que sempre esteve nos meus planos. Antes de casar, o tema surgia ocasionalmente entre mim e o meu marido e falávamos de como idealizávamos que a parentalidade seria – que filhos teríamos, quantos seriam, como se chamariam, que pais seríamos para eles... Falávamos sobre as questões que ocasionalmente se levantavam em relação a temas de educação, criação e comportamento das crianças, dos desafios que víamos noutros casais.

 A maternidade é uma oportunidade única de redescoberta de nós mesmas, que tem tanto de assustador como de sublime

Costumo dizer que nessa altura sabia claramente que mãe iria sempre ser e como se iriam comportar os meus filhos nas mais variadas circunstâncias. Sabia… até que nasceu a minha primeira filha. Nessa altura, deixei de saber e ainda hoje estou a aprender. Creio que é uma aprendizagem contínua.

É mesmo verdade que quando nasce um bebé nasce uma mãe. E eu diria que nasce uma nova mulher, ou pelo menos releva-se uma parte de nós que desconhecíamos e com a qual é preciso aprender a lidar. A maternidade é uma oportunidade única de redescoberta de nós mesmas, que tem tanto de assustador como de sublime. Os nossos filhos deixam-nos vulneráveis como ninguém mais e ao mesmo tempo dão-nos uma força e coragem que jamais pensaríamos possível.

Aprendi mais tarde, já após o nascimento da minha segunda filha – numa altura em que pensei que ia ter um esgotamento, tamanha era a pressão que sentia – que afinal, as mães não têm de ser perfeitas. É uma utopia pensar que sim

Com o nascimento da minha filha, eu, sempre tão pragmática, assertiva e controlada, vi-me confrontada com incertezas, dúvidas e um descontrolo que me deixava sem chão. Nos meses que estive de licença, foram mais os dias em que me senti perdida de mim, com medo de não estar à altura enquanto mãe, mulher, esposa, amiga e tanto mais, do que aqueles em que me senti preenchida e realizada. Naturalmente que amava a minha filha e o maior receio era o de não ser a mãe que achava que ela precisava – perfeita.

Liliana Ferreira

Aprendi mais tarde, já após o nascimento da minha segunda filha – numa altura em que pensei que ia ter um esgotamento, tamanha era a pressão que sentia – que afinal, as mães não têm de ser perfeitas. É uma utopia pensar que sim.

As mães precisam de ser autênticas e felizes. Precisamos de diminuir as cobranças e expetativas e acolher os erros com compaixão, sem culpa, mas com a responsabilidade de questionar o que podemos fazer diferente numa próxima vez para estarmos mais alinhadas com os valores que nos orientam nesta missão. É assim que sinto este meu papel de mãe, como a mais importante e desafiante missão da minha vida.

Tem sido tão forte e transformador este encontro com a maternidade que compreendi que para conseguir dar as respostas que necessitava, não podia apenas guiar-me pelos instintos e confiar nos padrões de educação que recebi, porque muitas vezes eles deixavam-me aquém da mãe que queria ser para as minhas filhas, do exemplo de mulher que queria ser para elas.

Percebi que se havia algo que precisava de mudar esse algo teria de mudar, antes de mais, dentro de mim. 'Sê a mudança que queres ver no mundo.' Mas para mudar teria de me conhecer, perceber que causas e condições cohabitam em mim e no meu ambiente para responder de determinadas formas.

Esta busca pelo autoconhecimento fez-me interessar por temas como inteligência emocional e desenvolvimento pessoal e querer aprofundar mais e mais. Neste caminho nasceu o blogue 'Emoções à flor da Mente', que me foi dado literalmente como prenda pelo meu marido, no Natal de 2017, para que eu pudesse ter um espaço onde sistematizar e partilhar tudo quanto estudava, refletia e vivia sobre estas temáticas.

A verdade é que quanto mais escrevia, mais queria aprender e aplicar na minha vida, nomeadamente na forma como me relacionava com as minhas filhas e como as educava.

Daí a chegar à Parentalidade Consciente e à Disciplina Positiva foi um ápice. Comecei a pesquisar sobre estes temas, fiz workshops e, um dia curiosamente, apareceu-me no feed do Facebook informação sobre uma Certificação de Disciplina Positiva que ia acontecer em Portugal.

Ponderei se fazia sentido o investimento. Afinal, nem é a área em que trabalho, mas o coração falou mais alto e fiz. E que revelação foi para mim repensar todas as questões ligadas à minha infância, educação e intenções que tinha para o meu papel de mãe. Confesso que foi também penoso despertar algumas dores e escolhas, mas acredito que trazê-las à consciência dá-me a oportunidade de viver com mais presença, foco e empatia a minha missão.

A determinada altura, fez-me também sentido, além do que partilhava no blogue e redes sociais, levar este conhecimento a outros pais que não se reviam nos modelos tradicionais de educação e procuravam alternativas alinhadas com uma parentalidade mais positiva e empática.

Apesar de aflorarem todas as inseguranças com uma exposição a que não estou habituada, avancei com um ciclo de formações online que dinamizava à noite, de forma a conciliar com o trabalho a tempo inteiro durante o dia. Valeu-me o apoio incondicional do meu marido, que desde o primeiro momento me incentivou e ajudou a encontrar tempo para preparar conteúdos e fazer os lives enquanto adormecia as meninas ou durante os fins de semana. A par vou, sempre que posso, fazendo alguns workshops presenciais na zona onde vivo. Se é lá que crescem as minhas filhas, acredito que é onde devo investir as minhas energias para passar a mensagem em que acredito.

Liliana Ferreira

Costuma-se dizer que quem corre por gosto não cansa, mas com uma filha de quase três anos e outra praticamente nos sete, uma profissão a full-time, um blogue para ir alimentando e a vontade de partilhar cada vez mais estes conhecimentos, seja de educação positiva ou inteligência emocional (que no meu entender, se alinham perfeitamente), às vezes cansa mesmo, e é desgastante.

Nessas alturas, procuro olhar para o percurso percorrido, vejo a relação que tenho com as minhas filhas e a forma como elas vão respondendo aos desafios. Fixo-me no meu objetivo e no legado que lhes quero deixar e agradeço. Sinto verdadeiramente que vale a pena todo o esforço e cansaço. Pouco a pouco a força retorna e continuo o meu caminho."

Filipa Jardim da Silva, a mãe que é também empresária e que ajuda os outros através da sua profissão

Psicóloga clínica, durante muitos anos o foco de Filipa Jardim da Silva foi a profissão – cruzar o seu caminho com o caminho de outros e ajudá-los da melhor forma possível. Até que um alarme chamado relógio biológio começou a tocar. Com o ano de 2017 vem um salto de fé e a aposta numa viagem sozinha, deixando para trás a segunça de um trabalho em grupo. Pelo meio desta aventura, uma nova aventura: a chegada do Vicente. E o desafio de encaixar na sua ocupada rotina profissional a rotina de um bebé e aprender com isso. Esta é a sua partilha.

Filipa Jardim da Silva
Filipa Jardim da Silva

"Na minha vida a Psicologia chegou antes da Maternidade. Lembro-me de ser adolescente e de ficar fascinada com todos os livros que contassem a história de alguém real, que incidissem sobre o comportamento humano e as suas nuances. Fascinavam-me as mil e uma idiossincrasias de cada pessoa, e também as minhas.

Diziam-me que era uma boa ouvinte e uma óptima conselheira. Eu sentia sobretudo um grande privilégio de cada vez que alguém confiava em mim o suficiente para me chamar de amiga, para desabafar comigo, para querer contar com a minha opinião num momento importante da sua vida. Exercendo a minha liberdade de escolha, abracei a área da Psicologia de coração aberto, não sabendo exatamente para onde a vida me levaria, mas com a convicção de que estava no caminho certo. E assim cheguei eu de malas a Lisboa aos 18 anos, deixando para trás a terra natal, com a audácia de quem persegue um sonho com muita força.

Uma coisa mantém-se idêntica até hoje: continuo a ter mais sonhos do que consigo contar. Às vezes sinto o peito a rebentar por dentro entre objectivos e o entusiasmo de quem corre por gosto, sentindo que o tempo às vezes é escasso para tudo o que quero fazer e viver.

Olhando para trás, se quiser ser justa, priorizei durante muitos anos a minha carreira

Um dos sonhos que se foram desenhando pelo caminho... foi o da maternidade. Percebi que era algo importante para mim quando aos 25 anos me disseram, num exame de rotina, que não podia engravidar... de forma leviana e pouco profissional. O impacto das palavras ditas ecoou dentro de mim sirenes e serviu-me para perceber que queria ser mãe, um dia. Esse dia tardou mais do que imaginaria, mas veio no tempo certo.

Após concluir a faculdade, e nos vários anos que se seguiram, foi muita a sede de aprender, de fazer a diferença, de trabalhar em equipas. Fui atrás de oportunidades que me faziam sentido, mesmo que a muitos quilómetros de distância. Sentir que já estava, por base, numa cidade que não era a minha criou um desprendimento que me possibilitou voar mais livremente.

Olhando para trás, se quiser ser justa, priorizei durante muitos anos a minha carreira. Movida a paixão, fui acumulando pelo caminho algumas perdas que foram sendo saradas sempre pelo amor às pessoas com quem trabalhava. A capacidade de devolver o brilho ao olhar de quem comigo trabalha, a possibilidade de dar esperança a uma mãe/pai desiludido, a hipótese de fazer a diferença à minha volta foram catalisadores de uma dedicação enormíssima, que se foi sobrepondo a tudo o resto.

Na reta final dos vinte anos, dei por mim a trabalhar muitas horas por dia, demasiadas horas, sete dias por semana, e a começar a receber algumas faturas

Vesti a camisola de todas as equipas que integrei a 200% e senti as empresas por onde passei como minhas. Contudo, na reta final dos vinte anos, dei por mim a trabalhar muitas horas por dia, demasiadas horas, sete dias por semana, e a começar a receber algumas faturas. O corpo queixou-se de várias formas, o coração acusou desgaste, os amigos sinalizaram e um questionamento em torno da minha dimensão pessoal surgiu.

Na altura não sabia, mas quando fiz a escolha de começar a criar um dia a dia com mais equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional, comecei a dar passos num caminho de empreendedorismo. Quando comecei a ser mais exigente com o tempo e a não querer desperdiçá-lo com nada que não me fizesse sentido, comecei a germinar, ainda que sem consciência, as sementes que me levariam a abraçar um projeto profissional autónomo.

Quando me apaixonei e senti que tinha encontrado um companheiro para a vida, o desejo de ser mãe reavivou-se, já no início dos trintas. Curiosamente, lembro-me de sentir que a um determinado momento era um desejo inflacionado por influências externas ou até por mecanismos biológicos, mas que ainda não era o meu tempo. Porquê? Porque não tinha um dia a dia no qual conseguisse dedicar-me a uma criança, da forma como me faria sentido.

Internamente as peças foram-se conjugando a par da vontade de me redescobrir de forma individual. Cresci numa comunidade relativamente pequena, fui aluna de uma faculdade populosa, abracei diversos projetos coletivos assinando em nome da equipa, pelo que, aos 31 anos, quis descobrir o que me compunha de forma mais específica e individual.

Como seria eu a assinar um texto apenas em nome próprio? Se não tivesse ninguém a impor-me uma agenda, como iria gerir o meu tempo, a que me iria dedicar? Como seria uma sala, um site, um logotipo escolhido por mim? E será que as pessoas confiariam em mim, sem nenhum rosto adicional associado? E foi assim que, em março de 2017, arrisquei trabalhar por conta própria e construir o meu projeto para potenciar a mudança e bem-estar a nível individual e organizacional.

Curiosamente, assim que iniciei este projeto profissional autónomo, dentro de mim ecoou uma certeza grande: estou pronta para ser mãe

Lembro-me de me sentir a levitar durante vários meses a caminho do meu consultório. A gratidão tem-me acompanhado desde então. A sensação de viver alinhada com o que me faz sentido gera em mim um sentimento de privilégio. Algo conquistado com muito trabalho de desenvolvimento pessoal, com muita dedicação, com muita escuta ativa de mim própria, uma das aprendizagens mais importantes que fiz até hoje. Quando fui capaz de diferenciar a minha voz da voz dos outros tudo se tornou mais simples.

Curiosamente, assim que iniciei este projeto profissional autónomo, dentro de mim ecoou uma certeza grande: estou pronta para ser mãe. De um ponto de vista racional, os argumentos apontavam para alguma cautela. Afinal, neste formato, se não trabalho não recebo, tudo depende de mim sem margem para delegar e a consolidação leva tempo. De um ponto de vista emocional, predominava a segurança e a tranquilidade de quem sabia que era por ali o caminho e de que nunca existiria um momento perfeito para abraçar a maternidade.

A chegada do Vicente pôs à prova a minha capacidade de ser flexível. Não se controla nada em absoluto com uma criança

Poucos meses após esta transição, o corpo foi-me sinalizando que levaria algum tempo a reequilibrar-se, a atualizar-se, a reconhecer a mudança feita. E assim, oito meses após ter dado um salto enquanto empreendedora, estava grávida e a puxar para a equipa o primeiro elemento que dava conta de que felizmente tudo corria da melhor forma.

Tive uma gravidez saudável, que me permitiu manter as minhas rotinas até aos últimos dias. A chegada do Vicente pôs à prova a minha capacidade de ser flexível. Não se controla nada em absoluto com uma criança. Por mais preparação que exista, há uma dose de imprevisibilidade grande. Essa foi/é das minhas maiores aprendizagens e que também tem reforçado o foco em detrimento da quantidade. O tempo é escasso e, com frequência, 60 minutos reservados para trabalhar transformam-se em 20 entre fraldas que se multiplicam, uma refeição que se prolonga, roupas que se sujam, um choro adicional, uma brincadeira à qual não se consegue dizer que não. A maternidade trouxe-me mais capacidade de aceitação, do que é e não do que desejaria que fosse. Trouxe-me também a possibilidade de perceber como a minha dimensão profissional e esta missão de gerar mudança à minha volta são importantes para mim.

Desde que fui mãe, estou a aprender a encarar-me de forma mais humana, com limites e necessidades, mas também com capacidades até agora desconhecidas

O amor que sinto pelo meu filho não ocupou esse espaço, pelo contrário, foi como se catalizasse a vontade de marcar pela diferença com a motivação acrescida de o inspirar e deixar orgulhoso. Claro que não ter uma estrutura na qual possa delegar, fez com que respondesse a alguns emails críticos enquanto estava na maternidade. Se puder não o fazer num segundo filho (caso exista), acho que seria uma conquista importante.

De qualquer forma, não me recrimino por o ter feito nem sinto que isso me tenha tirado enamoramento com o meu bebé. O que gerou então? Sobrecarga. Assente em quê? Na crença de que 'eu consigo'. Desde que fui mãe, estou a aprender a encarar-me de forma mais humana, com limites e necessidades, mas também com capacidades até agora desconhecidas. Nunca me pensei capaz de funcionar durante tanto tempo com tamanha privação de sono, como tem sido o caso. Ao mesmo tempo, nunca me imaginei tão cansada ao acordar, quando toda a vida me senti enérgica nos primeiros minutos do dia.

Pontos mais positivos desde que fui mãe? A capacidade de priorizar, de me manter focada no que é verdadeiramente essencial, de ser capaz de prestar atenção a pequenos pormenores outrora ignorados, e a autoconsciência de ser um modelo real para este pequeno ser.

Pontos mais negativos desde que abracei a maternidade? Sentir-me em alguns momentos a perder o controlo, assoberbada num malabarismo permanente, com menos autocuidado do que o desejável e por vezes mais vulnerável a comentários externos.

Passados nove meses desde que o Vicente nasceu, já me sinto mais tranquila de abraçar uma rotina que muda de alguma forma, um pouco, todos os dias e que ao mesmo tempo mantém alguma estrutura. Mais do que ter um dia a dia rígido, tenho procurado construir um dia a dia ajustado a cada etapa de desenvolvimento do meu bebé e também alinhado com as necessidades específicas dos momentos profissionais que atravesso. Sou uma mãe muito presente e ao mesmo tempo uma profissional dedicada.

Tenho feito as pazes com os limites humanos que me compõem e investido gradualmente no meu autocuidado, que é tão essencial. Deixei de me sentir culpada por poder passear com o meu bebé em horários em que a maioria das pessoas que trabalha por conta de outrem está no escritório. Porque também sei que trabalho em muitos horários em que essas mesmas pessoas já estão libertas. Também procuro não me culpar quando não o passeio precisamente porque estou num dia maratona. Assim, flexibilidade e criatividade acompanham-me com frequência. Um passeio pelo jardim pode originar uma ideia inovadora e os horários das sestas são momentos-chave para serem potenciados. Não me deito com ele porque não é possível, há trabalho para pôr em dia.

Sobretudo ser mãe não implicou para mim desistir de nada, apenas flexibilizar-me no ritmo do percurso

A maternidade trouxe-me uma agitação mais serena de quem sente que não tem nada a provar a não ser para si mesma, trouxe-me a vontade de olhar sobretudo para dentro e não para o lado, trouxe-me novos sonhos para se juntarem aos que já existiam a par de uma responsabilidade de gerir muito bem o tempo finito que temos. A maternidade trouxe-me uma admiração diferente por muitas mães e pais que conheço e com quem trabalho ou já trabalhei. Trouxe-me ainda um encantamento diário de quem acompanha um ser humano a construir-se.

Tenho aprendido a confiar mais em mim e a escutar a minha voz interior. A apropriar-me de cada escolha que faço como minha. Ser mãe do Vicente tem-me incentivado a vencer medos e a quebrar barreiras. Gerou uma coragem interna que em momento críticos permite acreditar que tudo se vai resolver, mesmo que naquele instante não se vislumbre o caminho. Faz com que abrace diariamente a missão de ser a melhor versão possível de mim mesma, repleta de falhas e defeitos que se convertem em aprendizagens importantes. Sobretudo ser mãe não implicou para mim desistir de nada, apenas flexibilizar-me no ritmo do percurso."

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