Lembram-se de quando menosprezam o Cristiano Ronaldo num jogo? Pois bem, ele volta sempre a aparecer e a fazer estragar à equipa adversária com golos e assistências. Será que não foi isso que fizemos com este vírus? Os golos são os casos registados e as assistências estão espalhadas por Portugal, sem a protecção necessária.

Não é a primeira vez que um coronavírus causa uma epidemia, representando uma ameaça à saúde global. No século XXI, três desses coronavírus causaram casos graves, muitos deles mortais: Sars-cov em 2002, Mers-cov em 2012 e em Dezembro de 2019 um novo coronavírus, o Sars-cov-2/Covid-19. Decorre de dois processos fisiopatológicos que estão interligados. O primeiro diz respeito ao processo citopático direto (mudanças morfológicas na célula hospedeira devido à infeção), decorrente da infeção viral, que está presente nos estadios precoces da doença. O segundo processo é referente à resposta inflamatória desregulada do hospedeiro, que prevalece nos estadios tardios.

Imaginem agora o que seria do futebol sem uma verdadeira boa rivalidade entre Benfica, Porto e Sporting, por exemplo? No nosso corpo humano, é igual. Entre as infecções e o sistema imunitário, há aquilo que é chamado de guerra de inteligência pela sobrevivência. Isto porque, nós precisamos das bactérias e as bactérias e os vírus, precisam de nós. Eles sem nós não sobrevivem, nós sem eles não sobrevivemos. Todos nós somos colonizados por uma série de bactérias que nos ajudam, seja na árvore respiratória, seja no trato gastro intestinal. Nesse sentido, temos que manter um mecanismo de tolerância em relação às bactérias e as bactérias por seu lado uma agressividade quanto baste, que permita invadir-nos, infectar-nos e tentar não nos matar. E é um facto que, nós vivemos rodeados de microrganismos.

Para qualquer equipa conseguir fazer uma boa época, é delineada ao pormenor a pré-temporada. É nesta altura que se projecta a construção do grupo de trabalho, a adaptação de novos elementos (hospitais de campanha, onde andam vocês agora?) e se define o modelo de jogo a aplicar. Procuram-se novas soluções e inovações que ajudem a delinear o melhor possível a longa caminhada. Para isso, é necessário quem pense e quem ajude a aplicar o orçamento disponível.

No caso da pandemia que vivemos, também tivemos pré-época. De alguns meses, até. Ou mesmo de anos. Antes de fazer uma breve cronologia sobre o que temos passado, recordo umas breves férias que passei na Madeira. Foi no final do mês de Outubro, ano de 2012. Na altura, foram notificados à Direção-Geral de Saúde (DGS) vários casos de dengue e foi considerado um problema de Saúde Pública emergente em virtude de se tratar de uma situação nova com um potencial de disseminação elevado. O dengue é uma doença infecciosa transmitida exclusivamente pela picada dos mosquitos Aedos, particularmente Aedos aegypti, infetados com o vírus (flavovírus), não ocorrendo transmissão pessoa a pessoa. A doença tem um período de incubação de 3 a 7 dias, podendo prolongar-se até 14 dias. Os sintomas de dengue surgem entre 3 a 14 dias após a picada do mosquito infetado. A doença manifesta-se, geralmente, por febre, dores de cabeça, dores nos músculos e nas articulações, vómitos, manchas vermelhas na pele e, mais raramente, por um quadro hemorrágico. Conseguem encontrar várias semelhanças a esta pandemia? Eu consigo, algumas. E no caso actual, só dependemos de uma boa cidadania e protecção geral para nos protegermos, até encontrarmos a cura. O mosquito, neste caso, não nos atrapalha. Pensando novamente no futebol, não vamos ter o árbitro para acusar em caso de uma derrota.

Mas, como no futebol, não podemos pensar em apenas 1 elemento.

Um sistema de saúde tem de ter sempre em atenção vários sistemas de protecção contra eventos “catastróficos” e incertos e a avaliação sobre o custo elevado e imprevisto dos cuidados de saúde e da possível perda de produtividade, inerente à segurança da população.

Vamos apontar para Março de 2020. A pré-época desta longa maratona. A primeira resposta do governo foi maioritariamente consensual, considerada por muitos positiva e que dava sinais de optimismo para o futuro e para uma iminente segunda vaga. Fomos os campeões de pré-época! Para isso também muito contribuiu a restante estratégia mundial, o confinamento e restrição, por muitos, de fronteiras.

As linhas fundamentais daquilo que se pretende em saúde pública, também são bem semelhantes ao jogo dentro de 4 linhas. As estratégias devem ser dinâmicas, à medida que os conhecimentos científicos vão sendo mais robustos, no sentido de incorporar esse mesmo conhecimento. As directrizes sanitárias também devem ser relevantes para todas as pessoas e para todos os países. Como sabemos, existem assimetrias entre países em desenvolvimento e desenvolvidos, mesmo dentro da Europa estas existem. Devemos conhecê-las para perceber como é que uma medida que seja excelente em Portugal, possa falhar completamente a 1000/2000 km de distância, por exemplo.

Neste enquadramento, nos últimos 20 anos partimos de um gasto relativamente baixo em saúde, até ao pico de gastos em 2009/2010 devido à pandemia da Gripe A, sendo a nossa economia ciclotímica (cria riqueza, destrói riqueza, num ciclo vicioso), como se pode perceber analisando o Produto Interno Bruto (PIB), crescendo muito pouco e deprimindo-se bastante. E estes ciclos de crise da economia têm implicação direta na saúde.

Podemos voltar a pensar nisso em termos futebolísticos: no final do século XX, os clubes portugueses começaram a ter cada vez mais a tendência para vender o que de melhor cá há, com consequências a curto/médio prazo no rendimento desportivo. Claro que, a justificação de gestão é de não viver acima das possibilidades.

Efetivamente e também a nível de saúde, não vivemos acima das possibilidades. Ao invés, não criámos riqueza suficiente para a despesa contraída em saúde, porque os Governos sub-orçamentam as despesas em saúde e esta nunca deixa de ser financiada pelos fornecedores, usando a saúde para aparar as contas e reduzir o orçamento do estado.

Voltemos à cronologia dos factos. Entre o medo de contrair o vírus e de perceber a resposta do SNS, os primeiros 2 meses basearam-se em palmas aos profissionais de saúde e conferências de imprensa dignas de um excelente estudo prévio. No mês de Maio, iniciámos o período de desconfinamento. Gradual e progressivo, até se perceber que ao dia de hoje, foi também gradual e progressivamente mal feito.

O tele-trabalho e as videoconferências tão elogiadas no início do ano, deixaram milagrosamente de ser solução para muitas empresas. O investimento em ventiladores, pouca utilidade terá, caso não haja profissionais formados para a sua utilização. Houve tempo para o fazer. Não o fizemos. A formação e consciência comunitária, foi-se registando maioritariamente nas redes sociais e entretanto, só temos treinadores de bancada.

Ao intervalo estamos empatados. E na primeira parte parte, nem tão pouco pensámos nas vítimas além Covid-19. Avizinha-se uma segunda parte complexa e para estarmos à altura, convém não fazer apenas uma “defesa para a fotografia”.

Um artigo do fisioterapeuta Sérgio Loureiro Nuno.

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