Foi recentemente divulgado um estudo sobre os dados da doença meningocócica invasiva no Reino Unido nos últimos 4 anos (http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.3998164).

Os autores do estudo destacam o aumento marcado de casos de doença meningocócica pelo serogrupo B em adolescentes e jovens adultos nos últimos meses de 2021, ultrapassando os níveis pré-pandemia.

Durante a pandemia provocada pelo SARS-CoV-2, houve uma diminuição muito significativa de outras doenças infeciosas provocadas por vírus e bactérias. Esta diminuição deveu-se às medidas de contenção da pandemia como o uso de máscaras, higienização das mãos e distanciamento social. Alguns vírus que são muito frequentes entre nós, como o vírus da gripe ou os vírus que provocam bronquiolite, praticamente desapareceram no inverno de 2020/21. Também houve uma enorme redução das infeções por bactérias que provocam doenças graves como pneumonia e meningite.

Ao serem aliviadas as medidas de contenção relacionadas com a COVID-19, era natural que estes vírus e bactérias voltassem a circular mais e a provocar mais doenças. Assistimos a isso mesmo no nosso país com um aumento exponencial de casos de bronquiolite no verão de 2021. Um dado muito curioso, uma vez que esta doença é sazonal e raramente ocorre em meses quentes.

Os dados agora divulgados pela Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido, mostram um aumento muito significativo de doença meningocócica invasiva, particularmente no grupo etário dos 15 aos 19 anos, provocados quase na totalidade pela Neisseria meningitidis do serogrupo B (88,7%). O serogrupo W teve uma expressão muito baixa (5,7%) e não houve casos por outros serogrupos como o C e o Y nos últimos meses de 2021.

Estes dados podem ser explicados pela vacinação contra os serogrupos A, C, W e Y que é realizada a adolescentes no Reino Unido entre os 13 e os 15 anos. A vacina contra o serogrupo B é aplicada a crianças no primeiro ano de vida, com três doses aos 2, 4 e 12 meses, desde 2014. Ou seja, as crianças com idades abaixo dos 10 anos estão protegidas pela vacina contra o grupo B e por isso não houve um aumento da doença neste grupo etário, e os adolescentes estão protegidos contra os grupos A, C, W e Y, o que explica o predomínio de casos do grupo B nestas idades.

Em Portugal, fazem parte do Programa Nacional de Vacinação (PNV) a vacina contra o grupo B aos 2, 4 e 12 meses, para todas as crianças nascidas a partir de 1 de Janeiro de 2019 e a vacina contra o grupo C aos 12 meses. Existem ainda no nosso país outras vacinas não contempladas no PNV, mas que podem ser aconselhadas a título individual contra o grupo B e contra os grupos A, C, W e Y.

A doença meningocócica invasiva é uma doença devastadora, com mortalidade elevada e deixando muitas vezes sequelas graves nos sobreviventes. Graças à introdução de vacinas altamente eficazes contra esta doença os números têm reduzido ao longo dos últimos anos. Este artigo do Reino Unido serve como um sinal de alerta de que não podemos baixar a guarda, sob pena de voltarmos a ter um aumento de casos de meningite e sépsis meningocócica.

Um artigo do médico Francisco Abecasis, Pediatra no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte/Hospital de Santa Maria.

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