Na passada quarta-feira, o cavaleiro tauromáquico João Moura foi detido por alegados maus tratos a animais de companhia. A notícia já começa mal, porque companhia fazia-lhes pouca. É que, pelas fotos dos animais, percebemos que raramente lá ia.
Infelizmente a história vem carregada de ironia, pelo que remexer no enredo pode estragá-la.

Começando pelo título de cavaleiro, nome que, quando figurado, está associado a homem nobre e esforçado ou mesmo a alguém brioso e corajoso. Tudo o que esta história refuta. Depois soube-se que foi detido em Monforte quando os galgos estavam tudo menos isso.

Houve um mandado de busca à propriedade de João Moura, onde foram apreendidos 18 cães. O cavaleiro foi sujeito a termo de identidade e residência, numa tentativa da GNR saber onde ele anda, para poder levar restos de comida e ajudar o homem a alimentar os animais.

Ao abrirmos a notícia (e após o asco se apoderar de nós), vemos um alerta na publicação dizendo “contém fotos que podem chocar”. Sinceramente não abri logo, por pensar que podia ser um book fotográfico de João Moura.

O zeloso cavaleiro apressou-se a negar os maus tratos. “Tinha lá uns cães mais magros e alguém denunciou isso, mais nada”, como se a culpa fosse imediatamente de quem apontou o dedo e não de quem cometeu a acção. É quase como culparem um humorista por uma piada e ilibarem quem permitiu que o assunto fosse digno de escárnio.

João Moura mostrou-se relaxado e com a sensação de dever cumprido, tendo dito: “já prestei as minhas declarações e estou em casa tranquilo e com a consciência tranquila. Não matei ninguém, não roubei ninguém, não tratei mal os meus cães, alguns estavam mais magros, mas não os tratei mal”. É como se houvesse uma impassividade face a um mundo que não o preocupa. Já o imagino a reagir à fome em África, argumentando que “algumas crianças podem estar mais magras, mas ninguém as tratou mal”.

A preocupação do senhor deve ser só pagar para comer um bom frango do campo e apresentarem-lhe um frango da guia. Ninguém o trata mal, mas o frango vem mais magro.

Segundo a lei, sujeita-se a uma pena de prisão até um ano ou multa de 120 dias. O problema é que, infelizmente, um dos animais acabou por falecer por extrema subnutrição e desidratação, o que pode piorar as coisas. Em caso de morte dos animais ou de “privação de importante órgão ou membro ou afetação grave e permanente da sua capacidade de locomoção”, a pena de prisão pode chegar aos dois anos e a multa pode ir até 240 dias.

Podíamos deixar o João Moura na prisão. Um ano ou dois. Sem comer, nem beber. E também íamos para casa, tranquilos e de consciência tranquila. No fundo não matámos ninguém, não roubámos ninguém, não tratámos mal João Moura. Podia ficar mais magro, é certo, mas não o tratávamos mal.

Aqui, a certeza é só uma: João Moura não é um animal. Não há galgo nenhum que lhe mereça a comparação.

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