Espirros, nariz a pingar, olhos vermelhos, tosse e comichão na pele. Estes são os principais sintomas das alergias que mais frequentemente assolam as pessoas que delas sofrem com a chegada da primavera e nos meses de maior calor. A reacção alérgica é uma das consequências possíveis do funcionamento do sistema imunológico do ser humano, que se defende desta forma dos numerosos micróbios e substâncias presentes nos alimentos, no ar e nos objetos com que lida na sua vida quotidiana.

Essas substâncias, também apelidadas de antigénios, são identificadas como estranhas ao organismo pelo sistema imunológico, através de proteínas especiais que circulam no sangue e em todos os líquidos orgânicos, os anticorpos, ajudando a captar e eliminar depois os antigénios invasores. De acordo com a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), há quatro décadas, descobriu-se que as pessoas com alergia produzem um anticorpo especial, a IgE, sigla de imunoglobulina E.

Metade da população europeia vai sofrer de alergias em 2050. A pele vai ser um dos órgãos mais afetados
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E fazem-no para substâncias inofensivas e banais que existem no meio ambiente, como é o caso dos pólens das plantas, dos componentes do pó da casa e de alimentos como o leite, o pêssego, o camarão, os amendoins ou os ovos. São os chamados alergénios. Uma vez produzida, esta IgE liga-se a células especiais, os mastócitos, muito abundantes na pele e nas mucosas, o revestimento do aparelho respiratório e do tubo digestivo, à espera do seu alergénio. Quando o encontram, provocam a libertação imediata e explosiva de substâncias químicas dos mastócitos que provocam rapidamente, entre 15 a 30 minutos, uma inflamação.

É essa inflamação intensa que origina os primeiros sintomas da alergia. Se a exposição a esse alergénio é intensa e a inflamação muito prolongada, a doença alérgica pode tornar-se crónica e persistente. A razão pela qual algumas substâncias desencadeiam alergias apenas em algumas pessoas ainda não é muito clara, mas a história de outras alergias na família, a chamada atopia, parece ser o principal fator predisponente. Possivelmente, a resposta estará nalguns dos genes que passam de pais para filhos.

Mas não só. Também poderá estar nalgumas condições do ambiente que favorecem a proliferação dos alergénios, como explica a SPAIC no seu site. Alguns investigadores apontam ainda outras causas. Um estudo divulgado pela publicação especializada ERJ Open Research defende que os adolescentes que se deitam mais tarde e acordam a meio da manhã ou ao início da tarde têm uma maior probabilidade de sofrer de asma e de alergias do que aqueles que adormecem e que acordam mais cedo.

Por que estão a aumentar as alergias?

As alergias têm vindo a aumentar um pouco por todo o mundo desde as últimas décadas do século XX. Atualmente, na Europa, cerca de 8% a 10% da população, mais de 24 milhões de pessoas, sofre de asma. A rinite alérgica é ainda mais frequente, pois afeta 10% a 15% da população, mais de 35 milhões de europeus. Em Portugal, estudos mais recentes demonstram que cerca de 11% das crianças entre os 6 e 14 anos e 5% dos adultos sofrem de asma, o que corresponde a cerca de 500.000 portugueses.

Mas, devido aos muitos casos de subdiagnóstico, os números devem ser (ainda) maiores. "Em Portugal, estima-se que a doença alérgica afete cerca de um terço da população", refere Pedro Martins, vice-presidente da SPAIC. "De acordo com os dados atuais, 30% da nossa população tem queixas de rinite, 18% tem concomitantemente queixas de conjuntivite, 6.7% asma e cerca de 5% reportam alergia alimentar", acrescenta ainda o responsável deste organismo em comunicado de imprensa.

O que está a mudar no tratamento das doenças alérgicas
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O panorama da rinite alérgica é igualmente pouco animador. Atingirá, segundo as estimativas, cerca de 10% da população. A razão do aumento das doenças alérgicas, nomeadamente na população ocidental, com um nível sócio-económico relativamente desenvolvido, não está ainda esclarecido, mas vários dados parecem apontar para o ambiente e para o estilo de vida ocidental. A SPAIC defende que a diminuição das infeções na primeira infância, pelo seu melhor controlo através da vacinação de antibióticos e melhores condições sanitárias, poderá fazer com que o sistema imunológico se volte para os alergénios ambienciais.

Menos ocupado com os micróbios e parasitas, o organismo pode concentrar atenções nessas substâncias, que, à partida, seriam inofensivos para o indivíduo. Além disso, condições derivadas de um ambiente doméstico cada vez mais hermético, uma vez que hoje as crianças passam 90% do seu tempo dentro de portas, assim como a alimentação, alguns ácidos gordos, conservantes e até antibióticos diminuem os micróbios normais do intestino, poderão também estar envolvidos nesse processo.

As doenças alérgicas mais frequentes

Estas são, segundo os especialistas, as mais comuns:

- Rinite alérgica

Nariz tapado, comichão, espirros e pingo no nariz, logo que o alergénio entra no nariz levado pelo ar, são as manifestações mais comuns.

- Conjuntivite alérgica

É marcada por inchaço, vermelhidão e comichão de ambos os olhos, num determinado ambiente, local ou época do ano.

- Asma

Tosse, falta de ar, chiadeira no peito, que surge subitamente, em determinados locais, após constipações, com o exercício ou no local de trabalho são os sintimas mais comuns.

- Dermatite atópica

Também chamada eczema, surge com vermelhidão, comichão e descamação da pele. Atinge, sobretudo, a face, as dobras dos cotovelos e/ou os joelhos.

- Urticária

É outra alergia da pele, com manchas e pápulas que dão muita comichão. Os episódios são muitas vezes desencadeados por infeções, certos alimentos, medicamentos e stresse.

- Anafilaxia

É a forma mais aparatosa e grave da alergia. Surge em poucos minutos após o contacto com o que provoca a alergia, nomeadamente alimentos, penicilina, a picada de abelha ou de uma vespa, o contacto com borracha ou com látex. As manifestações mais comuns incluem inchaço, calor, urticária, espirros, falta de ar e sensação de desmaio. Se não tratada imediatamente com adrenalina injetável, pode levar à perda de consciência e/ou ao choque e acabar por ser fatal.

- Sinusite e otite média

Apesar de, por si só, não serem doenças alérgicas, com muita frequência associam-se e complicam a rinite alérgica. A inflamação aguda ou crónica das cavidades em volta do nariz, atrás das maçãs do rosto, e dos ouvidos, é muitas vezes uma extensão da inflamação alérgica que, pela sua cronicidade, facilita as infeções.

Quando e como tratar a alergia?

A doença alérgica é uma teia complexa de células e substâncias químicas que envolvem vários órgãos do corpo humano, frequentemente durante longos anos, para a qual não há ainda um tratamento ou medicamento isolado, apesar dos grandes avanços que se fizeram no conhecimento e tratamento destas doenças. No entanto, o tratamento deve ser iniciado o mais precocemente possível. O controlo eficaz da alergia implica a combinação de várias medidas, sendo as mais comuns:

- A identificação do(s) alergénio(s) envolvidos, minimizando o mais possível a exposição aos mesmos.

- O uso combinado de diferentes medicamentos para diminuir os sintomas e, sobretudo, a inflamação crónica da alergia. Sempre que possível, devem ser usados localmente, junto do órgão que está mais envolvido, que pode ser os pulmões, o nariz, a pele ou os olhos.

- A imunoterapia, também conhecida como vacinas para a alergia, poderá estar indicada para modificar o comportamento do sistema imunológico, diminuindo a reação ao contacto com o alergénio, particularmente quando o doente está sensibilizado a um grupo limitado de alergénios e quando as medidas inicialmente adoptadas não estão a ser suficientes para controlar a doença.

Dada a complexidade da gestão clínica destas doenças, há médicos habilitados para o seu diagnóstico e tratamento, os especialistas em alergologia e imunologia clínica ou imunoalergologistas. "Há que estar atento à duração dos sintomas, aos fatores desencadeantes e aos fatores de alívio. A avaliação de um médico imunoalergologista constituirá uma mais valia para melhorar o processo de diagnóstico", defende a SPAIC, que alerta para os (muitos) casos de subdiagnóstico existentes.

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