O livro de J. Barrie - o surgimento de Peter, lembra-me o diagnóstico de uma Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) na infância, determinante no prognóstico e ganhos terapêuticos. Quando no Peter Pan a Wendy colhe uma flor e a mostra à senhora Darling exclama - “Ah, se você ficasse assim para sempre!”, tal como alguns pais, que desejariam fazer perdurar a infância dos seus filhos. Como será em adulto?

A heterogeneidade das PEA reflecte-se nas sucessivas revisões dos critérios de diagnóstico. Como a SA surge apenas em 1994 (DSM-IV), encontramos pessoas que nunca foram diagnosticadas em criança, ainda que cumpram todos os critérios: deficit persistente na reciprocidade sócio-afectiva, nos comportamentos comunicativos não verbais e verbais para desenvolver, manter e compreender relacionamentos, e padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou actividades.

O que acontece a estas crianças “perdidas”?

Um número significativo de crianças diagnosticadas nos anos 90 estão a atingir a vida adulta - cerca de 50.000 pessoas com uma PEA atingem a maioridade em cada ano. O período entre os 17 e os 26 anos é difícil, com grande probabilidade de isolamento social e desemprego, quando comparados com outras pessoas com incapacidades diferentes. Mais de 66% dos jovens com uma PEA não consegue manter o seu posto de trabalho ou percurso académico quando termina a escola secundária. Cerca de metade não consegue inserir-se em termos socioprofissionais. Alguns apresentam outras perturbações físicas ou mentais que tornam ainda mais difícil alcançar os seus objetivos.

Para diminuir o impacto destas dificuldades é importante manter o acompanhamento psicológico, (que é muitas vezes suspenso nesta fase), e trabalhar junto da família, colegas e empregadores no esclarecimento das características da pessoa com PEA. Curiosamente, os jovens adultos com um perfil cognitivo médio ou superior parecem ter maiores dificuldades de integração que outros com o mesmo diagnóstico, mas com dificuldades intelectuais, talvez pelo maior número de solicitações, e exigências geradoras de ansiedade e depressão. Assim, é essencial continuar o apoio à aprendizagem pós-secundário (i.e., Ensino Superior), e o acesso a técnicos de saúde mental com experiência em PEA no adulto.

Um adulto com PEA transporta as dificuldades da infância, no entanto, o quadro complica-se pelo aparecimento de outras perturbações como a ansiedade, depressão, perturbação obsessivo-compulsiva, perturbação da personalidade, entre outras. A dificuldade na recolha da informação junto dos cuidadores, e de formação de técnicos da saúde/saúde mental nesta área, impede muitas vezes o melhor apoio a estas pessoas e suas famílias.

“Nunca digas “adeus”, porque dizer “adeus” significa ir embora e ir embora significa esquecer”
J. Barrie in Peter Pan

Pedro Rodrigues – Psicólogo Clínico no Núcleo de Perturbações do Espetro do Autismo e Défice Cognitivo
pedro.rodrigues@pin.com.pt

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