A vergonha é uma emoção do domínio da auto-consciência, que pode ou não ter manifestações físicas (ex: o rubor na face, alguma dificuldade em articular um discurso) seguidas a um episódio que causa um sentimento de inadequação face ao que é “suposto”, ao que seria esperado pelos outros ou aceite socialmente. É aqui que começam algumas origens na vergonha, um estado interno de inadequação, desvalorização, desonra, desilusão consigo mesmo ou desconexão consigo e com os outros.

Esta emoção pode ser despoletada por um acontecimento exterior, que nos embaraça ou pela nossa própria percepção de que somos inadequados ou desajustados face a uma determinada tarefa, uma falha em alcançar alguma meta que tenhamos traçado, desiludindo-nos connosco próprios. Neste ponto, entram as expectativas e a forma como o desenvolvimento de cada pessoa foi sendo lapidado primeiro pelos seus primeiros cuidadores e pares e depois pelos seus próprios pensamentos e ideias sobre si mesmo (auto-conceito).

A vergonha é muitas vezes confundida com a culpa – uma emoção que pode ser sentida pela percepção de que algo que se fez possa ter magoado o outro ou prejudicado alguém de alguma forma, havendo muitas vezes uma necessidade (que passa ou não à acção) de pedir desculpas. A principal diferença entre a vergonha e a culpa é que esta última está muito associada a algo desadequado que se fez e a vergonha muitas vezes liga-se a algo desadequado que se é, sendo mais internalizada e mais profunda no seu impacto do ponto de vista emocional.

Esta emoção pode ser ainda “mascarada” quando as pessoas que a sentem e não sabem o que fazer para lidar com ela, tentam diminuir outros que estejam à sua volta como forma de não estarem “sob os holofotes da desadequação”. Se o outro se sente pior, a própria pessoa não tem de lidar com o que está a sentir. Muitas vezes, este é um padrão observado nas relações tóxicas por parte do(s) abusador(es), em que se tenta ganhar poder ou sentir-se melhor, através da dominação e controle sobre o outro. A questão é que não é isso que ajuda esta emoção a ser entendida, regulada e gerida de forma adequada.

Sentir vergonha acontece com muitas pessoas em vários contextos, graus ou momentos de vida. A dificuldade começa a existir quando a vergonha impede que a pessoa se sinta bem durante bastante tempo ou que comece a evitar situações, lugares ou pessoas porque se sente envergonhada ou com medo de se sentir inadequada ou frágil. A antecipação de sentir vergonha causa muitas vezes sintomas de ansiedade, motivo pelo qual muitas pessoas acabam por se focar no tratamento destes sintomas sem ir às situações ou emoções de base que os originaram. É muito comum nas crianças vítimas de bullying (que desenvolvem sentimentos fortíssimos de desadequação e inferioridade) sentirem uma ansiedade enorme e começarem a recusar a ida ao contexto em que o bullying acontece. Ao mesmo tempo, as próprias crianças bullys, que inferiorizam os outros e os atacam, podem elas mesmas também estar a projetar a própria vergonha sentida noutros contextos onde são elas as vítimas, porque nunca tiveram espaço para serem também entendidas ou respeitadas.

E porque digo no título que a vergonha precisa de amor? O amor, o respeito por si mesmo e pelo outro, a aceitação da dificuldade sem (se) inferiorizar é o primeiro passo para poder dar a entender ao outro que a sua vergonha não lhe retira valor. Como em outras emoções, também a vergonha precisa de ser aceite e as pessoas, regra geral, não sabem lidar com ela.

Se as crianças não são tão comunicativas, expressivas ou efusivas como os adultos acham que elas deveriam ser, não será por apontar em público essa dificuldade que elas a irão ultrapassar, nem por dizer quase como um rótulo “ele/a é envergonhado”. A vergonha é uma emoção, não uma característica. Estas crianças (ou adolescentes, ou adultos) precisam, sim, de algo que não lhes foi permitido ter durante o seu crescimento – segurança e aceitação dos outros. É preciso que não se lhes aponte constantemente os erros, falhas, desadequações, mas sim que se lhes mostre que gostamos deles como eles são e que os acolhemos com carinho, para que eles não achem que vão ser abandonados ou rejeitados.

Em psicoterapia, a aceitação, compreensão e permissão são fundamentais quando esta emoção está presente e aliadas a outras ferramentas de intervenção ajudam as pessoas a aceitarem-se, compreenderem-se e permitirem-se melhor, com mais amor por si.

Ana Sousa - Psicóloga Clínica

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