É capaz de o conhecer da televisão, contudo, a sua experiência como profissional vai muito além do pequeno ecrã. Apaixonado por moda, Pedro Crispim iniciou a sua caminhada nesta área ainda como manequim, ao lado de nomes como Diogo Morgado.

Todos os dias ajuda homens e mulheres a encontrarem o seu estilo e a sentirem-se melhor consigo mesmos.

Sem 'papas na língua', revela que melhorou bastante com o tempo e com a sabedoria e discernimento que a maturidade e os anos lhe trouxeram.

Crispim concretizou um dos seus sonhos ao lançar a sua própria coleção de roupa. Uma coleção que o representa a si próprio e aos seus ideiais.

Concretizou um sonho ao lançar a sua própria coleção de roupa. Como é que surgiu a oportunidade?

De há alguns anos para cá tenho um objetivo que é lançar um produto novo. Não consigo estar sempre a fazer o mesmo e foi por isso que enveredei por esta área (moda) e que trabalho nela há 23/24 anos. Estou sempre a tentar criar algo que me motive e que acrescente alguma coisa a nível de novidade.

Normalmente tento estar ligado a marcas portuguesas. Esta marca, tal como eu, também é um bocadinho livre. A minha exigência é a total liberdade de criação, obviamente respeitando sempre o ADN da marca. Não consigo dar o nome a algo que não é meu. O que me levou a aceitar este desafio foi o deixarem-me criar sem qualquer tipo de espartilho.

A moda não tem de ter género, não tem de ficar espartilhada a um tipo de corpo e beleza não tem idadeA coleção é feita para todos os tipos de corpos, idades, existem, inclusive, peças sem género que podem ser vestidas por eles e por elas e essa é cada vez mais a minha linguagem. A moda não tem de ter género, não tem de ficar espartilhada a um tipo de corpo e beleza não tem idade.

Hoje em dia toda a gente é treinador de bancada

Como é que começou o gosto pela moda?

Comecei com 17 anos como manequim. Concorri a um concurso de modelos. Na altura estavam nomes ligados como o Diogo Morgado e até acabamos todos por fazer formação na mesma escola a nível de modelos. Continuo a acreditar que a formação é a base. Nós para fazermos algo temos de ter noção do que vamos fazer e ferramentas para executar. E isto também aplica-se ao digital. Hoje em dia toda a gente é treinador de bancada, sem ter qualquer tipo de noção e do poder da palavra. É muito importante nós pensarmos que temos impacto nos outros.

As pessoas andam muito revoltadas nas redes sociais

Como é que vê atualmente as redes sociais?

Acho que as redes sociais são um 'pau de dois bicos'. Efetivamente é um 'mal necessário'. Se forem bem utilizadas conseguem ter um impacto bastante positivo na vida de todos, mas se for mal utilizadas, obviamente, podem ser bastante destrutivas. Depende muito de quem faz, depende muito de quem lê e de quem interpreta as coisas. A partir do momento em que colocamos alguma coisa nas redes sociais passamos a ser responsáveis pela sua interpretação. Tem de haver algum cuidado nesse aspeto que acho que muita gente que trabalha no digital não tem.

Também penso que as pessoas andam muito revoltadas. Andam todos muito zangados, a fazerem comentários anónimos e acabam por fazer das redes sociais um saco de boxe.

Quando era miúdo não havia redes sociais e senti o preconceito na pele

O Pedro sentiu isso na pele?

Vou ser sincero. Quando era miúdo não havia redes sociais e senti o preconceito na pele. Nunca tive uma imagem muito típica e nunca quis tê-lo. Nunca quis pertencer a nenhuma tribo, ou a nenhuma 'manada' e isso tem um preço a pagar. Quando somos autênticos não há nada que nos venha a tirar do caminho, agora acho que, atualmente, as redes sociais já não têm o impacto em mim que tiveram no início.

Se nós respondermos a quem nos trata mal com muita gentileza a pessoa fica sem chão Lia as mensagens e pensava porque é que estava a ser atacado. Metia-me confusão como é que a pessoa tinha tanto ódio, ou raiva, para ir para ali perder tempo e energia em vez de estar focada em alguma coisa mais construtiva na sua vida. Depois comecei a pensar que as pessoas deveriam ser extremamente solitárias para precisarem disso. Comecei quase a funcionar como um terapeuta, ou seja: quem me odeia ou quem não me suporta acaba por se tornar quase amigo. Dou uma 'chapada de luva branca'. Se nós respondermos a quem nos trata mal com muita gentileza a pessoa fica sem chão. E eu sou extremamente correto com as pessoas de forma geral e ainda mais com essas pessoas, porque no fundo, no fundo, são umas almas perdidas [risos].

Os bloggers são pagos para publicar, são pagos para dizer que gostam, basicamente

Considera-se um blogger?

Não. Os bloggers são pagos para publicar, são pagos para dizer que gostam, basicamente. Não tem a ver com o meu ADN nem enquanto profissional, nem enquanto pessoa. Nós estamos num mercado não só dos bloggers, mas do digital em forma geral, em que as pessoas dizem que sim se forem pagas para isso.

A nível de redes digitais utilizo a nível profissional. Gosto de fotografia, gosto de me divertir e não me chateia nada exibir-me nas redes sociais. Quando me perguntam assim: 'Porque é que precisas de estares despido nas tuas redes?'. Eu não preciso, se eu precisasse eu cobrava dinheiro. Há quem cobre. Existe quem cobre dinheiro para posar nu em algum lado, eu não cobro, publico foto despido na minha rede.

O facto de nunca querer ter pertencido a uma 'maioria' fez com que sentisse o preconceito das pessoas, por exemplo, em relação à sua orientação sexual?

Claro, como tudo. Pela orientação sexual, ou porque me vestia diferente deles, porque as minhas opções de brincadeiras não eram as que eles queriam ter. O ser humano desde sempre - e os miúdos conseguem ser bastante 'sacaninhas' - as pessoas de forma geral quando estranham, se incomoda, querem logo 'abater'. Ao incomodá-los reagem de forma um bocadinho instintiva e animal que é marcarem o seu território.

Os miúdos e miúdas que se encaixam fora do convencional ainda precisam de muita orientação Quando era miúdo passei por isso e não me tornou uma pessoa pior, nem tóxica, nem agressiva, pelo contrário. Hoje em dia lido com bastantes miúdos que se dirigem a mim nas redes sociais um bocadinho à procura de dicas de como lidar exatamente com isso. Mediante a minha realidade tento orientar as pessoas da melhor forma. Os miúdos e miúdas que se encaixam fora do convencional ainda precisam de muita orientação.

Não gosto de gente histérica, ponto

Há alguns anos, o Pedro disse numa entrevista que não suportava o "histerismo de alguns homossexuais". Mantém esta opinião ou é algo sobre o qual já pensa de outra forma?

Não gosto de gente histérica, ponto. Não gosto de gente que grita, que está nos sítios públicos que se impõe dessa forma, não gosto de gritos, guerra, não gosto do extremismo e acho que isso é negativo para todas as pessoas. Lembro-me perfeitamente quando falava desse tema e até cheguei a dizer, inclusive, que não concordava com o casamento e eu sei perfeitamente que com a maturidade vem também uma certa tranquilidade da vida.

Começamos a dar importância à nossa vida. Portanto, se os outros quiserem ser histéricos e andar na rua a fazer o que querem, têm toda a legitimidade e direito para fazê-lo, tal como eu tenho em não fazê-lo. Cada um tem que tomar um opção: existe quem use casacos de couro animal e há quem prefira o que é vegetal. Ou seja, temos de respeitar as opiniões uns dos outros, não somos todos iguais.

Acima de tudo quando eu não gosto resolvo afastar-me. Quando eu não quero estar não estou, quando eu não quero ir não vou. Hoje em dia não dou a minha opinião a não ser que me a peçam.

Em relação aos homossexuais ainda falta mudar muita coisa na sociedade?

Acho que a sociedade ainda precisa de umas gerações para a frente para tudo ficar mais alinhado. Ainda é tudo muito novo. Neste momento vivemos quase uma altura de revolução em que as pessoas gritam disto, se vestem daquilo...

Há muitos termos que desconheço, por exemplo, pansexual, mas a minha idade também me diz que não posso levar tudo na mochila. Tenho de fazer uma triagem daquilo que tem impacto diretamente na minha vida e das coisas que não me acrescentam nada. Embora eu respeite tudo. Se alguém me disser que faz amor com o sol, como já vi, ou com as árvores, eu respeito, faça à vontade.

Acho que o ser humano vai sempre ser preconceituoso com tudo o que considera diferente dele

Na realidade vivemos numa altura de liberdade aparente, mas na verdade ainda se vive muito o preconceito, silencioso, no olhar, nas decisões. Acredito que nunca se vá dissipar. Continua a existir com os chineses, com as gordas, com os magros, altos, baixos. Acho que o ser humano vai sempre ser preconceituoso com tudo o que ele considera diferente dele.

Também existe preconceito entre os próprios homossexuais Penso que o preconceito nunca vai parar. Também existe preconceito entre os próprios homossexuais, neste caso. Até entre os próprios gordos. O gordo A tem preconceito do gordo B, porque ele está-se nas tintas para ser gordo e até usa uma t-shirt a ver-se o umbigo. E essa liberdade faz confusão ao outro que está prisioneiro daquilo. A liberdade do outro faz-me confusão porque contrasta com a minha prisão. E é a mesma coisa com os gays. Existem gays que estão completamente espartilhados no armário, escondidos, e que lhes mete confusão outro tipo de postura mais livre, sem qualquer tipo de esconderijos.

Disse aos meus pais que era gay com 19 anos, numa altura em que o tema não era propriamente pacífico

Essa perspetiva partiu também da sua 'base' que diz ser a sua mãe?

Sim, eu tenho uma relação muito próxima com a minha mãe, aliás com os meus pais. Disse aos meus pais que era gay com 19 anos, numa altura em que o tema não era propriamente pacífico. Desde o início, apesar das nuances que existiram, como tentar perceber o quê, na realidade nesse processo houve uma necessidade de procura. E os meus pais, que atualmente têm setenta e tal anos, desde o início que sinto muito apoio da parte deles e continuo a sentir. A minha mãe adora que eu trabalhe neste meio mais criativo, apoia imenso. Foi muito importante no homem em que me acabei por tornar.

Gostava de ser pai um dia?

Gostava de casar-me, de ser pai, essa ideia já passou por várias fases. Tanto uma coisa como a outra ainda é possível de acontecer e eu ainda desejo casar e constituir uma família. Acho que ainda vou a tempo [risos].

Se tivesse de dizer alguma coisa ao Pedro com 19 anos o que é que diria?

Diria para ter calma, que as coisas acontecem. E para ser mais atento aos sinais, porque a vida dá sinais das pessoas a ter e das pessoas a não ter. Nunca fui muito atento aos sinais enquanto era miúdo. A vida dá-nos as respostas todas. Temos de estar focados e eu deixei de estar atento.

Quais os projetos para o futuro?

Tenho uma coisa que é deixar respirar o produto e neste momento a coleção está a ser distribuída por várias lojas de Norte a Sul e também online. Este ano já não vou lançar mais nada. Tento meter-me numa coisa por ano para além do meu trabalho, do meu atelier e das formações que dou. Continuo na TVI feliz da vida no ‘Você na TV’. É bom estarmos num sítio onde somos valorizados. Para o ano, quem sabe, um livro dedicado ao público masculino.

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