Apesar de a descoberta da gravidez abrir as portas ao mundo da maternidade, é a partir da certidão de declaração da maternidade que a mãe é identificada como tal. Pode dizer-se que o “ser mãe” se define a partir deste momento ou não é bem assim?

É difícil concordar com esse conceito, pois ser mãe vai muito além disso. É um processo de aprendizagem e descoberta que tem início antes do bebé nascer. A construção da parentalidade começa assim que sabemos que estamos grávidos e que um "pequeno ser" se desenvolve dentro de nós, o que dá início a uma responsabilidade acrescida tanto para com a própria mãe (casulo) como para com o bebé, despertando, desta forma, um sentido de proteção e cuidado em prol do seu bem-estar. Resguardar a saúde do bebé passa a ser, assim, a principal preocupação durante este processo. São também os momentos únicos que se vivem entre “mãe e filho”, quando este está ainda na barriga, que contribuem para este processo de se tornar mãe e cultivam um amor incondicional.

Como é que se estabelece uma relação com o bebé ainda dentro da barriga? 

O vínculo com o bebé desenvolve-se através de momentos de partilha e interação. Assim que se começam a sentir as mudanças, nomeadamente as hormonas, a barriga a crescer ou os enjoos, por exemplo, e que podemos ver o bebé através da ecografia, ouvir o seu coração ou senti-lo a mexer, inicia-se uma relação com o bebé. Além disso, o bebé começa a desenvolver alguns sentidos, como o olfato e audição, ainda na barriga e, como tal, sempre que a mãe interage com a barriga ou ouve uma música de que gosta a relação entre ambos está a ser fortalecida. É uma experiência mágica dar-lhes estímulos externos e sentir a resposta (música, toque) que eles nos dão. 

Durante a gravidez, que fatores contribuem para a construção do papel de mãe?

As experiências vividas até então com os nossos pais e pares influenciam bastante. As nossas mães, amigas e, até mesmo, outras pessoas desconhecidas contribuem, inevitavelmente, para a construção deste papel. O meio ambiente envolvente, os cursos de preparação para o nascimento, a preparação do enxoval e do quarto são também formas de nos ligarmos ao nosso bebé e ao papel de mãe.

Ser mãe é um processo de aprendizagem, repleto de alegrias, conquistas, mas também de dificuldades, desafios e muita paciência

O que leva as mães a questionarem o seu papel durante a gravidez? As opiniões e críticas alheias, nomeadamente de familiares e amigos, sobre as escolhas e o bem-estar do bebé podem conduzir à pressão para a gravidez perfeita?

Creio que, atualmente, vivemos muito a tentar replicar o que vimos nas redes sociais, e que nem sempre corresponde à realidade. Temos ao dispor muita informação e desinformação. Esquecemo-nos, sem nos apercebermos, de ouvir o nosso instinto e de pensarmos por nós. Penso que devemos estar seguros das nossas escolhas e apoiarmo-nos apenas e só numa pessoa que nos oriente no caminho que pretendemos fazer. Ao fazermos essas escolhas devemos ter como critério chave-alguém que esteja na prática atual, com uma forte componente prática de obstetrícia ou pediatria. Saber que o grande desafio do nascimento de um bebé começa intensamente quando ele nasce e não quando estamos grávidos.

Como lidar com as críticas?

Muitas mães, ao ouvirem as opiniões e os palpites de alguém que tem uma expectativa de comportamento diferente ou considera a sua perspetiva mais válida sobre determinada decisão materna – o chamado mom-shaming – podem sentir-se inseguras, humilhadas e frustradas. Para lidar com estas situações, acredito que o melhor será simplesmente ouvir, “sorrir e acenar”, mantendo-nos fiéis ao caminho que escolhemos. Cabe a cada mãe decidir se pretende assumir a crítica do outro e se é essa a direção que quer seguir.

Como se pode lidar com o 'sentimento de culpa' por aquilo que não está perfeito na gravidez?

A perfeição existe!? Não existe culpa! Existe tentativa de fazermos sempre o melhor, e se não correu como o esperado, mudamos a estratégia levando essa aprendizagem. Não considero que sejam erros, vejo antes como tentativas.

Uma vez mãe, para sempre mãe?

Sem dúvida! Ser mãe é um processo de aprendizagem, repleto de alegrias, conquistas, mas também de dificuldades, desafios e muita paciência, que percorre os anos de uma vida. É um caminho de altos e baixo onde aprendemos a amar e somos amados. Fui mãe pela primeira vez há 13 anos e de novo há 9 anos, e não existe um dia sem preocupação, mas também sem me deitar de coração cheio pelo amor que sinto por eles.

Cláudia Xavier é profissional das Conversas com Barriguinhas e mentora da Mom&babycare by ClaudiaXavier.

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