Crónica anterior: Gravidez em tempo de pandemia. A vida continua e temos de nos adaptar ao presente


A 12 de março um número fixo que eu desconhecia apareceu no visor do meu telemóvel. Atendi. “Olá, Daniela. É o Miguel. Tudo bem?”, ouvi do outro lado.

De acordo com o calendário (imaginário) da gravidez, além das análises e das ecografias, é-nos sugerido a frequência de um curso pré e pós-parto. Foi em janeiro ou fevereiro que comecei a pesquisar e a explorar hipóteses. A opção gratuita, no meu Centro de Saúde, foi logo colocada de parte: duas vezes por semana, no período da tarde – já não sei precisar as horas mas qualquer coisa entre as 15h e as 17h.

Expliquei à enfermeira que para nós era complicado estarmo-nos a ausentar duas vezes por semana, durante várias semanas, para assistirmos ao curso no horário laboral. A ideia era o pai estar presente, e, embora as empresas de ambos sejam lugares flexíveis, ia obrigar-nos a uma logística que não justificava. Fiquei cansada só de pensar o que ia implicar.

Explorámos a opção privada pela conveniência pós-laboral, pela proximidade de casa e por incluir outro tipo de serviços. Por isso, de acordo com a escolha, íamos iniciar o curso no dia 16 de março, às 24 semanas de gravidez.

Ao telefone, o Miguel apresentou-me a opção do curso em versão streaming e precisava de saber se preferíamos assistir ao curso presencialmente ou online. A minha primeira reação foi começar a fazer perguntas: quantas pessoas estavam no curso, quantos casais iam estar em casa, quantos casais iam estar presencialmente… Disse-lhe que era uma vergonha da minha parte – tendo em conta a minha profissão –, não ter pensado sobre o assunto (na realidade, a minha cabeça naqueles dias só via trabalho à frente, não conseguia pensar em coisas a médio e longo prazo).

Consigo ver as vantagens desta nova forma de assistir a este tipo de cursos sem sair prejudicada. Mas ao contrário de outros casais ou grávidas, não tenho mais tempo disponível, muito pelo contrário

“É para isso que estamos aqui”, respondeu-me. Sim, eles estavam lá para nos lembrar destas coisas, o que agradeci porque não estava a conseguir processar todas as mudanças que estavam a acontecer. Fiquei de falar com o meu namorado e dar-lhe feedback. Acabámos por optar por marcar presença à distância. “Era a coisa mais responsável a fazer no momento”, respondi-lhe mais tarde.

A verdade é que até hoje, todas as sessões foram online com participação de 100%. Os casais da minha turma nunca se viram pessoalmente, não sabemos nada uns dos outros sem ser o que é falado nas aulas. Não há relação, não há empatia, não há contacto próximo. Apenas um grupo de pessoas que está em quadrados num computador, cada um no conforto das suas casas.

E isto é mais uma das coisas que este vírus nos tirou: a possibilidade de criar relações com outras pessoas – as que já temos só a nós cabe cultivá-las e mantê-las. Mas falo por mim: tenho pouca paciência para estar (ainda) mais horas ao computador, por isso não tenho conseguido usufruir do curso na sua totalidade. Estou cansada de reuniões por Zoom, Microsoft Teams, Slack, telefone.

Houve dias em que dei por mim em frente ao computador das 8h30 às 20h30. Houve outra vez em que me inscrevi num dos wokshops online e por razões de indisponibilidade mudaram o dia e a hora do workshop. Moral da história: esqueci-me completamente… Entretanto consegui participar em outros dois, num deles estava de folga (do trabalho, do computador nem por isso).

Consigo ver as vantagens desta nova forma de assistir a este tipo de cursos sem sair prejudicada. Mas ao contrário de outros casais ou grávidas, não tenho mais tempo disponível, muito pelo contrário. Olho para os horários dos workshops e tento escolher o mal menor entre hora de almoço, final da tarde e noite. Neste momento, para mim, esta opção não está a funcionar e só conto os dias para que acabe o mais rápido possível. Um daqueles casos em que “o problema não és tu (curso), sou eu (Daniela)”.

Fast Forward

Depois de 55 dias em casa, posso dizer: estou farta do computador. Farta de fazer a maior parte das coisas online. Queixo-me de barriga cheia – pelo menos posso continuar a fazer as coisas, estou no conforto da minha casa, tenho tudo à distância de um clique (a expressão preferida do mundo para caracterizar a internet) – mas estou farta. Saturada mesmo. E se não posso prescindir dele para o meu trabalho, há outras coisas que evitava bem e para já não posso. Não vou ter saudades, disso tenho a certeza.

Escrevi esta crónica na semana passada e achei que devia deixá-la em stand by. Sentia-me azeda. Entretanto, a última aula do curso aconteceu ontem. Essa fase pelo menos já passou. Menos umas horas de computador! Mas o que sinto agora é que o tempo parece que está a passar mais rápido. Não sei se é o facto de os dias serem todos iguais. A verdade é que estamos neste ritmo há mais um de mês e meio. Deve ser pelo facto de a barriga crescer cada vez mais, o desconforto começar a instalar-se. O tempo está a acelerar, por um lado, mas parece que falta imenso, por outro.

Às vezes questiono-me: será que se não estivessemos a passar por isto, a minha disposição seria diferente? Estaria mais animada para estes detalhes da chegada de um bebé? Isso é algo que nunca saberemos

E não sei se sinta inveja das pré-mamãs que estão a seguir isto tudo muito certinho ou se comece a arrancar cabelos e a "panicar".

A verdade é que a maternidade não chegou à minha vida de surpresa: foi planeado, adiei o máximo que pude, tendo em conta uma série de fatores, à minha volta nasceram e vivem muitos bebés e crianças, e não sendo necessariamente o tema que mais me interessava na vida, também não é surpresa para mim uma série de coisas. O facto de termos uma área de Família no SAPO Lifestyle também me ajuda a estar a par. Portanto, não sou uma enciclopédia em bebés, mas já vou bem avançada nessa parte.

Mas... não, às 31 semanas de gestação, não tenho as coisas prontas. Nem vou ter no imediato. Não sei se há mais pré-mamãs como eu, que ainda não tenham filhos, na mesma situação. Mas digam-me: não estou sozinha nisto, pois não? Digam-me que há mais casos como eu, que não têm tido tempo (leia-se, disponibilidade mental, tempo é coisa que não nos falta agora) para preparar a chegada do rebento e que não sou um bicho raro.

Eu sei, posso tratar de tudo online. Mas eu estou farta de estar ao computador! Não consigo encontrar motivação para começar a "fazer o ninho". Ainda estamos em Estado de Emergência. E o meu mood continua nesse ponto.

Às vezes questiono-me: será que se não estivessemos a passar por isto, a minha disposição seria diferente? Estaria mais animada para estes detalhes da chegada de um bebé? Isso é algo que nunca saberemos.


Daniela Costa chegou ao SAPO em agosto de 2013, depois de uma passagem por produtoras de televisão em que fez um pouco de tudo: desde programas para a RTP 2 sobre agricultura, pescas e desenvolvimento rural, programas sobre lusofonia, na RTP África ou programas para a RTP Internacional sobre o melhor que se fazia em Portugal nos anos de crise financeira, entre outros. Entrou na equipa do SAPO Lifestyle, em novembro de 2015, e desde fevereiro de 2017 que assume a função de editora.

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