O cancro do pulmão continua a ser o tipo de tumor maligno que mais mata em Portugal e no resto do mundo - a taxa de mortalidade é superior à do cancro do cólon, mama e próstata combinados. Todos os anos, são diagnosticados cerca de 4.000 novos casos a nível nacional, sendo que em 70% das vezes o diagnóstico é realizado numa fase tardia da doença.

Nos últimos anos, surgiram tratamentos inovadores, com grandes benefícios na sobrevivência global do doente e vantagens na tolerabilidade face aos tratamentos tradicionais (menos efeitos adversos). É o caso da imunoterapia. Trata-se de uma terapia inovadora que, em vez de tratar diretamente o tumor, ensina o sistema imunitário do próprio doente a identificar e destruir as células cancerígenas, ou seja, a combater a doença autonomamente.

O Infarmed, que é a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, aprovou em maio o financiamento da terapêutica combinada de imunoterapia com quimioterapia para o tratamento em primeira linha de doentes com cancro do pulmão de células não-pequenas (CPCNP), o tipo mais comum de cancro do pulmão.

O tratamento imuno-oncológico passará a ser financiado para os doentes que desenvolvem cancro do pulmão de células não pequenas com histologia não escamosa, que representa a maioria dos casos deste carcinoma.

Que tratamento é este e a quem se destina (indicações)? Quais as contraindicações?

O tratamento de imunoterapia é amplamente usado na Oncologia Médica, desde há vários anos, em diversas neoplasias.
No cancro do pulmão, mais concretamente no cancro do pulmão de células não pequenas (CPNPC), a sua utilização também não é novidade.

Porém, em maio de 2020, foi ampliado o leque de indicações no pulmão, quando o Infarmed aprovou a imunoterapia como primeira linha de tratamento em associação com quimioterapia, para doentes com CPNPC metastático, com expressão de PD-L1 <50%, sem mutações do EGFR ou translocações do ALK.

Ana Rodrigues, especialista em Oncologia Médica no IPO Porto
Ana Rodrigues, especialista em Oncologia Médica no IPO Porto créditos: Direitos Reservados

Esta aprovação teve por base os resultados de um ensaio clínico de fase III. Isto significa que atualmente todos os doentes com CPNPC metastático, sem alterações genéticas alvo, desde que não apresentem contraindicações e cumpram as indicações, podem usufruir de imunoterapia aquando a primeira linha de tratamento, em monoterapia (se expressão PD-L1≥ 50%) ou em associação à quimioterapia (se expressão <50%). Esta medida é assim uma boa notícia para cerca de 70% dos doentes com CPNPC, uma vez que, com a combinação de imunoterapia com quimioterapia, estes têm a possibilidade de ter a doença controlada durante mais tempo.

Como atua no corpo humano?

Em primeiro lugar, é importante explicar como funciona o sistema imunitário. Existem proteínas nos linfócitos, denominadas de PD-1, que são responsáveis por prevenir o sistema imune de atacar os tecidos do próprio. Acontece que alguns tumores expressam também estas proteínas que, por sua vez, ajudam as células tumorais a escapar aos “sensores” do sistema imunitário, o que leva, consequentemente, ao crescimento e desenvolvimento do tumor. Assim sendo, a solução passa por bloquear estas proteínas que as células tumorais expressam, de forma a restaurar a atividade dos linfócitos T, que podem assim atacar as células tumorais.

É desta forma que atua no corpo humano a imunoterapia (pembrolizumab), um anticorpo humanizado anti PD-1, que se classifica como um inibidor do checkpoint imunitário capaz de regular a resposta do sistema imune, de modo a que este passe a reconhecer as células tumorais e a destrui-las.

Quais os efeitos secundários?

O reverso da medalha são os efeitos laterais que daí podem advir. Com uma sobreativação do sistema imune, praticamente todos os tecidos normais são passíveis de serem reconhecidos como “anormais” e consequentemente “atacados”. Podem surgir assim inflamações em vários órgãos, nomeadamente pneumonites, colites, hepatites, nefrites, tireoidites, entre outras endocrinopatias e alterações cutâneas. Apesar da grande variedade de efeitos laterais, a sua prevalência é relativamente pequena e, de um modo geral, são leves e facilmente controladas, desde que identificadas atempadamente.

De que forma este tratamento vem revolucionar as terapêuticas contra o cancro do pulmão?

Aos poucos, nas últimas duas décadas, a introdução de novas terapêuticas, nomeadamente a imunoterapia, tem aumentado de forma significativa a sobrevivência global e livre de progressão dos doentes com cancro do pulmão. Além disso, são terapêuticas bem toleradas, com poucos efeitos laterais. Caminhamos lentamente para a mudança de paradigma: o cancro visto não como uma doença letal a curto prazo, mas como uma doença crónica.

Qual o seu custo-benefício?

A avaliação farmacoterapêutica e farmacoeconómica concluiu que tanto o custo efetividade incremental, como o impacto orçamental foram considerados aceitáveis, depois de negociadas condições para utilização pelos hospitais e entidades do SNS.

Quantas pessoas podem beneficiar deste tratamento atualmente?

Citando a publicação do relatório de avaliação de financiamento público do tratamento de imunoterapia combinada com quimioterapia, "estima-se que aproximadamente 1000 doentes por ano tenham potencialmente indicação para este tratamento em Portugal (85% dos casos de cancro do pulmão são CPCNP, destes, 64% são não-escamosos sem mutação EGFR/ALK, 70% são diagnosticados em estádio avançado e 77% têm condições para tratamento). Destes doentes com possível indicação para o tratamento em avaliação, cerca de 30% poderá apresentar expressão tumoral de PD1-L ≥50% e ser elegível para pembrolizumab em monoterapia". Assim, seja em monoterapia, seja segundo a nova aprovação (em associação a quimioterapia), haverá um grande universo de doentes a beneficiar deste tratamento.

Estará disponível em que unidades?

Este tratamento estará disponível em todas as unidades hospitalares de Oncologia Médica ou Pneumologia Oncológica.

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