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Burnout sistémico: o alerta da pediatra Joana Martins

Já se ultrapassou a exaustão, já se ultrapassou a sensação de futilidade da maioria das nossas ações quotidianas e esta pandemia privou-nos de toda a possibilidade de manter ligações pessoais próximas. Um artigo da médica pediatra Joana Martins.
Burnout sistémico: o alerta da pediatra Joana Martins

Como pediatra, uma parte significativa do meu trabalho é conversar com as mães das crianças. E assuntos como o cansaço crónico, a falta de ligação emocional e o automatismo são recorrentes na minha consulta. Tanto, que sinto necessidade de falar sobre o burnout parental e o risco social que ele representa. Talvez por isso, esta semana, decidi fazer uma tradução completamente livre de um artigo publicado no The New York Times.

A pandemia mergulhou-nos a todos num outro nível de exigência. O incrível malabarismo que as mulheres são obrigadas a fazer entre o trabalho remoto e a telescola, entre a agenda profissional e o cuidado com as crianças, é de facto assustador.

Como sociedade já não primávamos por justiça social e apoio sério às famílias, então no seio da pandemia, a situação só se agravou. As mulheres representam 97% dos gestores de projeto familiar. São elas que tomam decisões, que organizam, que garantem que há detergente para lavar a roupa e leite no frigorífico, que o mais novo não anda vestido de pijama o dia todo e que a filha do meio faz a telescola, ao invés de vídeos no TikTok. Assumo claramente o que digo, quando digo que são as mulheres que estão a suportar o peso quotidiano desta pandemia.

Nas últimas semanas tenho assistido ao extremar de confidências e o cansaço tranformou-se em desespero. Intitular o que as mães referem por burnout é um eufemismo. Já se ultrapassou a exaustão, já se ultrapassou a sensação de futilidade da maioria das nossas ações quotidianas e esta pandemia privou-nos de toda a possibilidade de manter ligações pessoais próximas.

E no meio desta confusão, temos mães a ter que enfrentar escolhas difíceis: faço a telescola com eles ou trabalho? Respondo a estes emails, deixando-os em frente a um ecrã, só para conseguir alinhavar 3 frases seguidas? Insisto em fazer revisões de matéria com os miúdos, ou assumo que isto está tudo mal consolidado e vão repetir o ano letivo?

Estes pequenos dilemas que são enfrentados diariamente pelas famílias só nos mostram o problema real da sociedade dita moderna: a procura de lucro a todo o custo. Mantemos o trabalho, para que a realidade económica não se agrave ainda mais, mantemos as crianças na escola com maus resultados e matéria mal consolidada, para não atrasar um ano a sua entrada no mercado de trabalho. Vivemos na rodinha dos ratos na gaiola.

Por isso tenho que assumir: isto não é SÓ burnout, isto é uma escolha social que alguém fez por nós.

Enquanto o burnout fala-nos de falta de resiliência em enfrentar as dificuldades da vida e como tal, coloca a tónica na responsabilidade e capacidade individual (daí a culpa), quando falamos de escolhas sistémicas, apontamos para estruturas sociais absolutamente injustas e apodrecidas.

Então o que podemos realmente fazer?

  1. Reconhecer que os problemas atuais são sistémicos

O sentimento de impotência, apatia, culpa e exaustão é devido a escolhas que são feitas por nós. A ausência de decisões concretas que permitam efetivamente apoiar as famílias tem um peso real.  Se se questionar: “Como é que eu posso sair desta situação? 9 em cada 10 respostas estarão relacionadas com políticas que apoiem realmente as famílias.

  1. Não existe a resposta perfeita

“Se eu fosse uma boa mãe, então eu saberia manter o meu filho de 2 anos perfeitamente satisfeito, apesar de ter 2 videoconferências esta tarde”. Se alguma verdade resultar deste artigo é esta: nenhuma boa conclusão pode sair de um início de frase como “se eu fosse boa mãe…”. Pensar desta forma dá-nos a noção de controlo, um controlo que não temos sobre o momento atual.

Sempre que encontrar a sua cabeça a dizer um SE desta natureza, pare e respire fundo! Saia desse pensamento. Conclua com: “lá vou eu, outra vez, à procura da resposta perfeita”. Porque frequentemente, esta linha de pensamento não é nem produtiva, nem realista.

  1. Elimine todos os extras

Adicionar mais tarefas, ainda que sejam de “auto-cuidado” à sua lista infindável de coisas por fazer, só aumenta a carga mental (o trabalho invisível que fazemos naturalmente em casa e pela nossa família) e a sensação de culpa.

O trabalho de “auto-cuidado” é sobretudo começar por interiorizar que temos que nos dar permissão para recuperar tempo individual e energia. Isto pode implicar ter conversas difíceis com o parceiro (caso o tenha), os membros da família ou mesmo o seu chefe. Se esta conversa não tiver lugar, vai continuar a estar mergulhada num mar de tarefas que podem não ser todas igualmente necessárias: é necessário priorizar. O que não é prioritário, pode e deve esperar.

  1. Observe como fala consigo própria

Se repete para si própria “não estou a fazer o suficiente” ou “eu devia conseguir fazer isto”, está a expressar uma cultura internalizada que de forma sistemática, desvaloriza o trabalho que dá cuidar de uma ou mais crianças. É de facto algo histórico: o trabalho de cuidar dos outros, tantas vezes em cima dos ombros das mulheres, foi sendo sistematicamente desvalorizado. Por isso, se deu por si a encomendar as refeições no takeaway mais próximo, não se sinta culpada. O mundo está um caos. Você não é uma má mãe. Lembre-se que o objetivo não é nem a perfeição, nem a organização, apenas e só a empatia e a flexibilidade.

  1. Invista o pouco tempo que lhe sobra em algo que efetivamente a ajude a se sentir melhor

E mais do que imaginar um fim-de-semana sem miúdos num turismo rural, pense que realmente o que nos traz felicidade são as amizades, a autenticidade como vivemos a nossa vida e sentir-se vista, amada e confortada. Nutrir a autenticidade das nossas relações, sejam elas com o parceiro, família ou amigos, pode bem ser o mecanismo que temos ao nosso dispor para reduzir a intensidade do burnout.

  1. Está na hora de expressar a sua raiva

Por vezes, estamos tão cansadas que só a energia necessária para reclamar um pouco de espaço, já faz com que não valha a pena. Mas pense assim, por cada vez que não fala por medo de desagradar alguém, ou ser incómoda, está a perder pequenos bocadinhos de si própria. Fale. Fale e proponha alternativas. Se calhar aquela videochamada que lhe propuseram pode ser substituída por uma breve chamada telefónica ou aquele trabalho que lhe propuseram da escola do seu filho pode ser substituído por um desenho simples. Com calma, proponha alternativas que lhe permitam não continuar fechada sobre si própria.

No fundo, o que todo este artigo pretende dizer é que vivemos tempos estranhos e exigentes, para os quais nenhum de nós tem respostas adequadas. Ao reconhecermos que grande parte das decisões não passa por nós, podemos bem aliviar a culpa e angústia que, como mães, sofremos mas que, sem dúvida alguma, não merecemos.

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