Muitas vezes incompreendida, a depressão afecta um em cada cinco portugueses, mas «ninguém está imune a ter um quadro depressivo durante a sua vida», diz Graça Cardoso, psiquiatra.

A melhor forma de nos defendermos? Começar por perceber os «trunfos» desta doença e descobrir em nós pequenas fortalezas.


Na verdade, a depressão vai muito além da tristeza. Quando o humor depressivo persiste mais de duas semanas e surge associado a um desinteresse por qualquer actividade, fadiga, perda de concentração ou, por exemplo, sentimentos de desvalorização e culpa, o caso muda de figura.

«A depressão major engloba um conjunto de sintomas mas para que se faça um diagnóstico é preciso que tenha impacto no funcionamento normal da pessoa», explica Graça Cardoso. As características da patologia podem variar consoante a pessoa e ter causas distintas, envolvendo múltiplos factores, como aspectos bioquímicos ou genéticos, um acontecimento marcante ou o acumular de situações negativas.

Atitude preventiva

A rotina actual, marcada pelo stress, noites mal dormidas acrescidas de responsabilidades e preocupações, exerce uma pressão excessiva que se pode reflectir na nossa saúde, tanto física como psíquica. Ter tempo para si, manter um círculo de afectos sólido e desenvolver novos centros de interesse, ter hobbies e praticar desporto são estratégias que mantêm o equilíbrio emocional e o stress à distância.

Como alerta a psiquiatra, «às vezes é uma soma de coisas que, no dia-a-dia, vai desgastando a pessoa. Daí ser essencial tentar reduzir as fontes de frustração e seguir um ritmo saudável, fazer exercício. A vida normal de cada um de nós vem sempre associada a frustrações e tudo o que se possa fazer para equilibrar esse lado menos bom é importante».

Alvos fáceis

Também na depressão existem grupos de risco. «Sabe-se, por exemplo, que quem perdeu um dos progenitores numa fase precoce da vida, assim como pessoas que foram abusadas (sexualmente ou de outras formas) na infância ou adolescência ficam mais vulneráveis à depressão», refere Graça Cardoso, acrescentando que eventos do dia-a-dia, mesmo na fase adulta, aspectos sócio-económicos e a personalidade podem também ser determinantes.

«As pessoas que são optimistas reagem a situações adversas de maneira positiva. É a eterna história do copo meio cheio ou meio vazio. Depois há a resiliência, a capacidade que alguns têm de lutar, enquanto outros se entregam imediatamente à tristeza face às coisas mais pequenas da vida», refere.


Veja na página seguinte: Os factores da vulnerabilidade feminina

A questão feminina

As mulheres, sobretudo na fase reprodutiva, são as grandes vítimas da depressão, sendo que a incidência no sexo masculino desce quase para metade.

O que explica a discrepância? «As hormonas só por si não são desencadeadoras de depressão», afirma a especialista.

Embora a maioria das mulheres sofra alterações de humor mensais e a síndrome pré-menstrual corresponda a uma maior tendência para depressão, outros factores ditam a vulnerabilidade feminina.

É o caso do papel que têm na sociedade actual. «As mulheres dão mais apoio ao outro (cuidam das crianças, pais, familiares doentes) e são também elas que, a nível socio-económico, estão mais desprotegidas, ganham menos e na maternidade ficam sobrecarregadas», salienta.

Aqui os laços afectivos funcionam como uma bóia vital. Um estudo mostrou que as mulheres com uma boa relação conjugal são mais resistentes à depressão. «E, na ausência dessa relação, se tiverem um confidente, com quem possam partilhar a ansiedade, estão também mais protegidas», acrescenta.

E agora?

Nem todas as fases difíceis exigem acompanhamento médico. «Há vários tipos de depressão. A chamada perturbação de adaptação ou depressão reactiva resolve-se espontaneamente», exemplifica a psiquiatra.

Contudo, se os sintomas são marcados e afectam a sua vida justifica-se recorrer a acompanhamento médico. Na opinião de Graça Cardoso, «deve ser o médico de família a iniciar a terapêutica e se não conseguir resolver o problema encaminhar para o psiquiatra. Alguns casos são mais graves, com risco de suicídio e têm indicação para o psiquiatra».

O tratamento farmacológico é o mais comum e prevê a toma regular de antidepressivos, «durante quatro a seis semanas para um efeito completo, sendo depois mantidos, pelo menos, por seis meses no caso de um episódio único de depressão major», explica.

«São medicamentos que levam à remissão dos sintomas e cujo efeito não desaparece quando pára a toma. Não dão habituação, nem dependência física ou psíquica» acrescenta. Existem ainda outras abordagens terapêuticas eficazes, como a psicoterapia muito usada em complemento.


Contra-ataque

Os principais tratamentos usados no combate à depressão:

Fármacos
Os antidepressivos são o medicamento por excelência. Inicialmente «usaram-se antidepressivos tricíclicos e inibidores da monoaminoxidase.

Depois, sintetizaram-se os inibidores da recaptação da serotonina que agora, juntamente com uma nova geração com menos efeitos secundários, são os mais usados», diz Graça Cardoso, psiquiatra.


Veja na página seguinte: O que a psicoterapia pode fazer por si

Psicoterapia
Realizada por psicólogos ou psiquiatras, pode englobar «psicoterapia de suporte, dinâmica ou
cognitivo-comportamental.

No tratamento de depressões mais graves juntar a abordagem psicoterapêutica à medicação pode ajudar a pessoa a reformular alguns aspectos da sua vida», afirma a especialista.

Electroconvulsivoterapia
Tratamento considerado eficaz em casos em que a depressão resiste aos fármacos. Consiste «em descargas eléctricas a nível cerebral realizadas em sessões curtas. De facto, nas pessoas que não respondem à medicação tem um efeito dramático, no sentido em que rapidamente fica muito melhor.»


Dica
Não tome antidepressivos sem supervisão médica. «Se um antidepressivo não surte efeito é necessário ajustar a dose ou usar outro. A pessoa desconhece isto e ao automedicar-se pode julgar que está tratada sem estar, pois mantém sintomas depressivos que não se resolveram», alerta a especialista.


Texto: Manuela Vasconcelos com Graça Cardoso (psiquiatra)

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