A pandemia está a interferir de forma significativa na dinâmica familiar

A situação pandémica está a interferir na dinâmica familiar a vários níveis. Em resposta às restrições impostas pelas entidades governamentais, muitos de nós interrogamo-nos de forma insistente: “ficar em casa, sim, mas com quem?”, “em que casa?”, “como tratar dos pais idosos e evitar a solidão?”, “como tratar das nossas crianças?”. Queremos saber como podemos e devemos refazer as relações familiares na pandemia.

Vamos começar por abordar a situação dos cuidadores dos pais idosos. As gerações cuidadoras confrontam-se com a situação de terem de rever os seus projetos de vida. Mesmo que os seus pais idosos não queiram ser um peso, existe um sentimento de obrigação dos filhos e das filhas. Tenta-se distribuir essas atribuições e obrigações por entre todos os descendentes, para evitar a concentração de responsabilidades num único familiar.

Devido à ausência de auxiliares domésticos ou profissionais de saúde, dispensados com o receio de contágio ou devido ao próprio confinamento, as tarefas quotidianas intensificam-se para os cuidadores familiares que têm a cargo os dependentes idosos. A situação é agravada com a dificuldade da divisão de tarefas, o que conduz a situações de aumento de stress e desgaste, motivado pela obrigação familiar de executar esses cuidados. Assim, se por um lado o cuidador vê o seu modo de vida desestruturado (podendo até o cuidador informal não tratar de si próprio e “esquecer-se” das suas próprias necessidades), por outro lado intensificam-se os conflitos familiares entre os vários dependentes.

Um outro aspeto importante que originou o estado de pandemia é a “proximidade excessiva”. Já diz o ditado que a melhor maneira de perder um ídolo é conviver com ele. No tempo atual, têm-se exacerbado os conflitos familiares, conjugais e intergeracionais. Conflitos e ruturas familiares irrompem, em particular devido a uma convivência forçada e prolongada por coabitarem praticamente 24 horas. De facto, temos assistido a um crescimento da violência doméstica e ao aumento do número de divórcios.

Esta na hora de (re)descobrir as relações e mantê-las saudáveis

Se é verdade que a pandemia por COVID-19 fez crescer e aumentar as tensões familiares, também se constata que o isolamento forçado serviu de “empurrão” para juntar casais que já pensavam em dividir o mesmo teto. Filhos adultos voltaram a morar com os pais – e a redescobrir os afetos familiares. Casais separados entenderam-se para transformar o momento atual em algo menos penoso e traumáticos para os filhos.

A pandemia transformou o nosso quotidiano, aproximou uns, distanciou outros. Redefiniu o conceito de saudade. Criou o fenómeno de “proximidade excessiva”. Exigiu – e continua a exigir – doses extremas de paciência e equilíbrio nas relações familiares. Mas dá a oportunidade para cada um se conhecer melhor, ao mesmo tempo que nos concede a possibilidade de fortalecer as nossas relações.

Esta situação de pandemia também redefiniu o sentido de saudade. Se por um lado, tivemos que ficar 24 horas com a família mais próxima, por outro fomos privados de tantas coisas, muitas das quais, provavelmente, não dávamos o devido valor. Agora temos uma maior perceção da sua importância devido à ausência temporária delas.

Se aprendemos algo com a vivência desta pandemia é que afinal há determinados assuntos e temáticas que estávamos a deixar para segundo plano, mas que afinal são mais importantes do que pensávamos. Já referimos a saudade, mas também temos que falar da solidariedade, da amizade e, claro, da família. São essenciais na nossa vida. Por isso, é tempo de revermos as nossas prioridades. Está na hora de nos ajudarmos mutuamente para não desesperarmos. O desespero vem quando temos a perceção de abandono. Vamos pensar na empatia, na compaixão, no sentimento e na emoção do reencontro com os outros.

Elisabete Condesso / Psicóloga e Psicoterapeuta

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