Eu culpado me confesso. Culpado por anos a fio ver na beirã Serra da Gardunha pouco mais do que um último obstáculo na demanda da grande Estrela e das neves nas alturas. Duplamente culpado por ser um apreciador incondicional de cerejas, ansiando a sua época a partir de maio ou junho, dependendo dos humores do tempo, e somente as ver como produto de aquisição nos mercados. E ali mesmo, nos vales ensolarados da Gardunha, a meia dúzia de quilómetros da velocidade da A23 que tantas vezes me levou à Estrela, espraiando-se, habitam dezenas de quilómetros quadrados de pomares de cerejais.

Agora, num soalheiro dia de abril , vogo ao sabor de um comboio turístico, lento e trepidante, mas obstinado na conquista das estradas municipais da freguesia de Alcongosta, no Fundão, concelho que conta mais de oito mil hectares de cerejais. E assim me redimo pelo segundo ano consecutivo. Primeiro porque passeio com vagar neste enorme maciço da Gardunha, depois porque me torno mais do que um provador passivo de cerejas. Estou na casa delas, nos cerejais em flor, onde dentro de algumas semanas brotarão em cachos as cerejas. E assim me sinto um privilegiado. Comigo está Patrícia Ramos, técnica de turismo do município do Fundão e apaixonada conhecedora da terra onde nasceu. O que inclui, obviamente, as necessárias explicações sobre esta Cereja Cova da Beira, um produto IGP (Indicação Geográfica Protegida) que também vamos encontrar nos concelhos vizinhos da Covilhã e Belmonte.

Fundão: Em Alcongosta passeamos na maior maternidade de cerejas do país

Com maio as primeiras cerejas

Na altura em que esta peça é publicada, com maio já estreado, saem dos pomares do Fundão as primeiras cerejas rumo a diversos mercados, nomeadamente o nórdico, com capacidade para pagar a bom preço, próximo dos 50,00 euros o quilo, estas cerejas que inauguram a época. Mais tarde irão alimentar o mercado nacional, mas também o Chile, Brasil, Angola, Inglaterra, Países Baixos. “Um bom ano de cerejas pode render perto de oito mil toneladas deste fruto”, garante-me Patrícia, enquanto o comboio turístico franqueia uma curva apertada da estrada.

A poucas dezenas de metros estende-se um campo tomado de branco. Contas feitas há mais de dois mil hectares em floração só nesta freguesia. Uma alvura que se presta a inevitáveis comparações entre a Gardunha e as neves da Estrela. Mas, aqui, esta “neve” não é produto de céus cinzentos, antes de dias tépidos e do trabalho incansável, não só do Homem, como também das obreiras dos cerejais, as abelhas.

“São elas, as abelhas, o elemento polinizador das cerejeiras. Uma boa polinização tem de ter vento fraco, abaixo dos 25 km/h, temperatura acima dos 12 ºC e tempo seco”, como me conta Patrícia, acrescentando, “só 5 a 10% das flores são fecundadas.

No Fundão, voar a 1600 metros sobre os cerejais da Cova da Beira
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Os produtores têm uma receita antiga para atrair as abelhas para os seus cerejais. Pulverizam as árvores com uma mistura de água, erva-cidreira e mel”. Cuidar de um pomar é muito do que contar com o pacto das abelhas.

É um trabalho de ano inteiro que obriga a enxertos, a podas, a renovar os pomares a cada 15 anos, a selecionar as melhores variedades de cerejas, a escolher solos calcários, com pouca água e, no caso dos crentes, um pedido a São Pedro, que traga primaveras de tempo benigno. A cereja é fruto que gosta do frio na altura certa. Precisa de mais de 700 horas de temperaturas baixas no outono e inverno. Mas, depois, aproximando-se o estio, aprecia o calor.

Fundão: Em Alcongosta, passeamos na maior maternidade de cerejas do país

Toco nas pétalas destas flores delicadas, “cada uma fornecendo 3 ml de néctar com 60% de açúcar”, leio no guia que trago para o terreno. Tento imaginar como dentro de um mês cada um dos botões se tornará numa sumarenta cereja. E de como este fruto, em Junho será capaz de atrair ao Fundão, mais concretamente aqui, a Alcongosta, 40 mil visitantes para a “Festa da Cereja”.

O culminar de um calendário anual em torno deste fruto com origens asiáticas que, desde 2004, lhe tem tirado parte do carácter sazonal e que convida o forasteiro a visitar a maternidade das cerejas. Atualmente não trincamos apenas a carne da cereja do Fundão, também a bebemos em licor, em chá, a saboreamos nos bombons criados pelo chefe chocolateiro António Melgão, ou no pastel doce desenvolvido na Escola Profissional de Hotelaria do Fundão (um pastel que curiosamente quase não se encontra nas pastelarias locais).

O município detém a patente deste acepipe semelhante, no folhado, ao pastel de nata. A receita para a confeção tem segredo. Um fruto que fora das fronteiras do Fundão já fez mexer as cozinhas de chefes como José Avillez, Miguel Laffan, Miguel Castro e Silva, Kiko Martins, Vítor Sobral e Hugo Nascimento e atraiu marcas como a Compal, Santini ou Yonest que desenvolveram edições limitadas com cereja.

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António, o homem que faz cestos há 71 anos

Deixo o comboio e os campos na companhia de Patrícia Ramos. Vamos visitar, aqui mesmo na pacata Alcongosta uma testemunha de um tempo quase perdido. O senhor António, 80 anos de vida, natural desta freguesia, há 71 anos que labora num oficio historicamente ligado à apanha e transporte das cerejas, a produção de cestos de verga em madeira de castanho. A oficina de To Nunes, como é conhecida, é território singular. Poucos metros quadrados são espaço suficiente para juntar as ferramentas do ofício, dezenas de cestos e outras peças em verga, “coisas que eu e a minha mulher fazemos e que vão tendo saída aqui e nas feiras”, artefactos que marcam a afeição clubística deste artesão e uma exposição com milhares de canetas de plástico muitas com marcas promocionais. “Uma ´entretenga`. Há muitas pessoas que aqui chegam e deixam as suas canetas”, diz-nos este beirão, enquanto se presta a explicar-nos a sua arte. Um labor que começa na montanha com a seleção das vergas de castanheiro.

“Em dezembro e janeiro cortamos as madeiras e vão para uma cova para manterem a humidade. Assim não partem”, explica-nos António. Mais tarde a madeira será tostada, ripada num “podão”, altura em que vai para a “mula”, um enorme artefacto onde o mestre cesteiro se senta para, com um cutelo, desbastar a madeira. Um processo que continua com um banho de água durante um dia. Só então se inicia, verdadeiramente o processo de entrelaçamento do cesto. “Levo duas horas a fazer um cesto, mas como vê, é trabalho de meses”. O produto final vende-o António entre 15,00 a 20,00 euros, dependendo do tamanho da peça. O artesão sabe que está entre os últimos da sua linhagem, “há 70 anos havia mais de 200 oficinas aqui. Hoje, para além da minha, há um velhote de 90 anos a fazer cestos e um rapaz que aprendeu comigo”.

Piqueniques e apadrinhamentos

Quem não quer perder a oportunidade de percorrer o concelho com um cesto na mão pode fazê-lo alugando um no Posto de Turismo do Fundão, bem próximo do Largo do Município. “A intenção é promovermos o contacto do visitante e dos locais com o meio natural através de uma experiência de piquenique”, explica Patrícia. Ou seja, pegamos no cesto recheado de produtos da região e desfrutamos das sombras da serra. Os cestos estão disponíveis todo o ano em três opções, para duas pessoas.

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“Temos o cesto `Cereja` (20,00 euros) que traz, entre outros, o licor, o doce, o pastel, bombons, pão, chá. Acima, o cesto ´Tradição`, (32,00 euros), com enchidos, queijos, doce, pastéis. O cesto personalizável (35,00 euros) é composto de acordo com o gosto de quem o pede”, finaliza a nossa interlocutora. Mas atenção, no final o cesto volta à procedência.

Se a ligação à região for mais telúrica, saiba o visitante que também no Posto de Turismo, pode apadrinhar uma cerejeira. Isto com a garantia de que a jovem árvore vai ser cuidada, de que a pode visitar e, durante cinco anos, é-lhe oferecida uma caixa de cerejas. Acresce 15% de desconto em unidade de alojamento do concelho. A iniciativa tem um custo anual de 20,00 euros e com um objetivo meritório, a reflorestação de parte da Serra da Gardunha.

Bombos e tecedeiras

Como na generalidade do que é produzido atualmente também a Cereja do Fundão procura a rentabilidade e credibilidade. O município local trabalha em parceria com a Cerfundão entidade criada em 2006 e que visa organizar e profissionalizar toda a fileira da cereja com a indicação Cova da Beira, na investigação, produção, conservação e comercialização.

No concelho conseguimos identificar mais de cem variedades deste fruto. Duas delas, autóctones, encontram exploração comercial, a Morengão, um fruto mais escuro e a Saco da Cova da Beira, mais dura e pequena. Muitas outras variedades têm sido importadas e, através de enxertos, adaptadas às condições que encontram no território. Num vale aninhado junto a Alcongosta sento-me sob uma ginjeira, hoje em dia uma cultura praticamente extinta por estas bandas. A produção não é rentável, a árvore muito sensível. Acresce que a ginja exige muito cuidado na apanha. Um torção menos cuidado no pedúnculo do fruto é suficiente para o deixar magoado.

Fundão: Em Alcongosta, passeamos na maior maternidade de cerejas do país
Estrutura base para o Bombo.

De acordo com as contas do município, a cereja rende anualmente qualquer coisa como 20 milhões de euros, o que inclui o produto transformado e os investimentos em torno do fruto. Para breve o município prevê inaugurar a Casa da Cereja, um centro interpretativo a instalar no edifício de uma antiga escola primária. Uma infraestrutura análoga a outras que encontramos no concelho, como a Casa do Bombo (na aldeia de Lavacolhos), a Casa dos Míscaros (na aldeia de Alcaide), a Casa das Tecedeiras (na aldeia de Janeiro de Cima), a Casa do Mel (na aldeia de Bogas de Cima).

Visito duas destas casas, na primeira, a do Bombo, percebo que este tambor de grandes dimensões é muito mais do que um instrumento arcaico de produção de barulho. É uma peça transversal a muitas culturas. Encontramo-lo em África, nas Américas, na Ásia e na Europa. No Fundão é um património imaterial ainda vivo, ainda hoje tocado. Desde os anos de 1990 houve a criação de novos grupos, mais ou menos próximos da tradição. Uma tradição que dita que um grupo de tocadores deve juntar três bombos, duas caixas (tambores) e um pífaro. A mesma tradição que nos traz as cantigas de bombos e um saber fazer que implica anos de aprendizagem na manipulação da pele de cabra, da latoaria, das madeiras.

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Tear na Casa das Tecedeiras em Janeiro de Cima.

No extremo Oeste do concelho visito a Casa das Tecedeiras na localidade de Janeiro de Cima, uma das aldeias do xisto encostada às margens do rio Zêzere. Um centro de interpretação do ciclo do linho, uma casa para o visitante experimentar todo o engenho de um tear com mais de cem anos, para acompanhar o labor das tecedeiras que ocupam as horas neste espaço e para adquirir, por exemplo, as mantas robustas e coloridas aqui produzidas.

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Atualmente já ninguém por aqui produz o linho de raiz e nos seis teares da Casa das Tecedeiras há lugares por ocupar. Vale, contudo, nestes territórios rurais o espirito de alguns empreendedores. Ainda em Janeiro de Cima conheço Filipe que explora o restaurante Fiado, num espaço cedido pela autarquia. Surpreende-me a cozinha, regional, boa e despretensiosa que nos chega à mesa bem empratada e equilibrada. Destaco, ainda nos petiscos, as moelas, os enchidos, o folhado de chanfana com mel e nos pratos de resistência o cabrito no forno a lenha, os maranhos à moda de janeiro de Cima, o coelho à moda de Bogas, o bacalhau com broa.

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Polvo à lagareiro.

Não esqueço também Pedro e Catarina, ele arquiteto, ela professora de artes visuais que, a poucos quilómetros da Aldeia Histórica de Castelo Novo, inauguraram há poucos meses a Casa de Campo Carvalhal Redondo. Pedro fala com entusiasmo do desafio que é tirar do solo da propriedade proveito, com as cerejeiras, oliveiras, até mesmo os sobreiros. De como é difícil desenvolver uma ideia quando se está neste interior, de como se aprende com os mais velhos a lidar com a terra, mas também de como é entusiasmante devolver-lhes com novas soluções para potenciar as culturas.

Catarina apresenta-me com estima cada quarto (personalizado) e todos os pormenor pensados e repensados para os espaços comuns. Insistem em acompanhar-me ao pequeno-almoço, cuidando que na mesa cabem os produtos da região.

Há pão, queijos, enchidos e uma vez mais, a compota e o chá de cereja. A fruta que me fez olhar para a Gardunha de uma outra forma. Agora já não atravesso o túnel no maciço rochoso a 100 km/h sobre o asfalto da estrada. Tomei-lhe o gosto e volteio a serra pela velhinha nacional 18.

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