Fala-se muito em técnicas de educação certas e erradas. Acredita nesse conceito?

As mães, pais e educadores antes de escolherem qualquer "técnica de educação" devem pensar bem sobre quais as intenções da educação. Quando falo sobre esta questão no meu trabalho a grande maioria dos pais dizem que gostariam que os filhos crescessem a ser respeitadores, a desenvolver sentido crítico, a ser honestos, empáticos e felizes. Ora, a pergunta então é, quem é que eu tenho de ser e o que tenho de fazer como mãe/pai/educador para o meu filho desenvolver estas qualidades. Quem aceita fazer este exercício chega rapidamente à conclusão que utilizar a técnica do time out - como colocar a criança a "pensar" isoladamente o mesmo número de minutos que a sua idade - ou ameaçar e utilizar quadros de recompensa onde se premeia o comportamento desejado não são técnicas adequadas.

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Como é que uma criança pode desenvolver respeito pelo cuidador?

Para aprender o que é o respeito, a criança tem de se sentir respeitada e tem de poder questionar para desenvolver um sentido crítico. Para aprender o que é a honestidade, os adultos à volta da criança têm de ser honestos com a criança. E para desenvolver empatia, os adultos cuidadores têm, obrigatoriamente, de demonstrar empatia para com a criança.

Quando procuramos desenvolver uma relação saudável dificilmente utilizamos 'técnicas de educação'

É esse o segredo para se criar uma criança feliz?

Para a criança poder ser feliz, tem de ter a hipótese de desenvolver uma auto-estima saudável. Todas as qualidades que referi anteriormente desenvolvem-se através de uma relação saudável e forte entre a criança e os principais cuidadores, com autenticidade, respeito pela integridade dos dois e responsabilidade pessoal. Isto não quer dizer que a criança pode fazer o que quer, nem que eu posso fazer tudo o que eu quero. Isto quer dizer que agimos em parceria, em que eu tenho mais responsabilidade e onde me guio pelas minhas intenções. Quando procuramos desenvolver uma relação saudável, dificilmente utilizamos técnicas de educação.

Quem é Mikaela Övén?

Mikaela Övén, ou Mia, nasceu em 1976, na Suécia, vive em Portugal desde 2001 e é mãe de três filhos. Desde que se lembra interessa-se pela igualdade, igualdade do género e o feminismo. Estudou ciências comportamentais na Universidade de Lund e é licenciada em Recursos Humanos com a especialidade de desenvolvimento de competências pela Universidade de Malmö. É coach e practitioner em Programação Neurolinguística, certificada em Competências de Relacionamentos nas Escolas, facilitadora Family Lab e instrutora de Mindfulness certificada desde 2012. É também fundadora da Academia de Parentalidade Consciente. É autora dos livros "Educar com Mindfulness - Um Guia de Parentalidade Consciente para pais e educadores" (Porto Editora, 2015) e "Heartfulness - Enfrente a vida de coração aberto" (Porto Editora, 2016).

O que pode levar uma criança a ser mal-comportada?

Uma criança que se sente muito insegura, pouco reconhecida ou com falta de experiências também não tem capacidade de se "portar bem". Uma criança que tem muito sono não tem capacidade de se portar bem. Nem nós, adultos, temos! Ou seja, estar a utilizar "técnicas de educação" torna-se completamente obsoleto. Uma criança que se sente bem, porta-se bem. Ou seja, o meu "trabalho" como adulto é perceber quais as necessidades em falta e agir aí, assim o "mau comportamento" deixa de ser necessário para a criança comunicar o que tem para comunicar. Nós, adultos, funcionamos exatamente da mesma forma. Ninguém se lembra, por exemplo, de colocar o marido 42 minutos numa cadeira a pensar sozinho por se recusar a tomar banho num certo momento.

Discorda das técnicas utilizadas, por exemplo, no programa de televisão Supernanny?

As técnicas usadas nesse programa podem funcionar tal como a palmada também pode funcionar. Aliás a violência é provavelmente a técnica mais eficaz se o que procuramos é obediência total. Algo que não acredito que os pais na realidade procurem, pois ainda não encontrei ninguém que tem vontade de criar adultos totalmente obedientes.

Estas técnicas, no fundo, são uma manipulação emocional que afetam negativamente a influência que temos sobre a criança e a conexão autêntica que podemos ter com ela. Se tivermos intenções bem definidas com a nossa parentalidade e se assegurarmos que nós adultos estamos bem connosco os dramas que vemos no programa são praticamente eliminados. Não precisamos daquelas técnicas para nada.

Mikaela Övén:
créditos: DR

O que pensa da exposição mediática das crianças neste tipo de programas?

Acho que os pais estão, verdadeiramente, bem intencionados e que não estão a pensar no "big picture" e nas consequências que esta exposição poderá ter. Também acredito que quem desenvolve este tipo de programas está a agir com boas intenções de acordo com a sua realidade, mas também não estão a ver o "big picture" e as consequências. Os meus valores dizem-me que devemos agir sempre com o melhor para as crianças em mente. Neste caso em concreto penso que não se está a fazer isso.

Como comenta o facto do programa "SuperNanny" ser um sucesso em 21 países?

Fico feliz por haver tantas pessoas que se interessam pela educação e pela parentalidade. Porque espero mesmo que o interesse seja esse e não o drama. Isto porque nós, os humanos, somos bastante viciados em dramas. Lamento que os métodos utilizados sejam tão desatualizados e até contraindicados. Também devo salientar que em muitos desses países também houve grandes contestações, houve petições, houve casos no tribunal, etc.

Que tipo de efeitos negativos essa exposição pode criar nas crianças?

Os efeitos da exposição dependerão certamente da idade das crianças: quanto mais velha, pior. Além disso, temos de nos lembrar que a criança poderá ter de reviver a exposição mais tarde. Está tudo filmado. A mesma questão coloca-se em relação à exposição que os pais proporcionam nas redes sociais. Não partilho nada dos meus filhos que eles não tenham aprovado previamente, nem fotografias, nem conversas... Há tempos partilhei uma frase qualquer do meu filho do meio pela qual achei que tinha tido permissão, mas houve um mal entendido. Uma professora do meu filho viu o comentário, falou com ele e ele ficou muito triste comigo. Sentiu-se desiludido, exposto e até traído, talvez. (E sim, falei com ele sobre esta situação em mencioná-lo aqui!) Isto são tudo coisas que ferem a autoestima e ferem a relação com os pais, a relação de confiança. E quanto maior e mais íntima for a exposição, pior. Cientificamente certamente há mais questões que se podem falar.

Como vê a exposição da vida das crianças nas redes sociais?

Acho que os pais se devem questionar antes de fazer as partilhas. Porque partilho isto? Qual a intenção da minha partilha? Se fosse eu, gostava que partilhassem isto? Como é que o meu filho se irá sentir no futuro quando vir isto? Será que estou a respeitar a integridade do meu filho ao fazer esta partilha? O que é que eu faria se alguém que eu amo fizesse uma partilha equivalente sobre mim? Se depois de terem feito estas perguntas ou outras e continuarem a sentir-se bem e congruentes com a partilha, então partilhem. Se sentirem dúvidas, então a resposta deve ser bastante óbvia.

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