Num discurso pessoal, por vezes humorístico, a pediatra Joana Martins conta-nos como é o dia a dia de uma profissional de saúde em plena pandemia do vírus SARS-CoV-2. Este é o décimo sexto episódio da série "Diário da trincheira: vida no covidário":

Quando a vacina BCG (Bacilo Calmette Guerin) integrou o programa de vacinação em 1965, Portugal tinha uma elevada incidência de transmissão de Mycobacterium tuberculosis, vulgarmente conhecida como tuberculose. A vacina BCG não é mais do que uma vacina viva, mas inativada, construída a partir de uma bactéria muito parecida, o Mycobacterium bovis, que causa doença no gado bovino.

Desde 2016 que a vacinação com o BCG deixou de ser universal, para passar a ser dirigida a crianças com menos de seis anos, pertencentes a grupos de risco identificados pela Direção-Geral de Saúde.

Como a vacina BCG consegue induzir algumas alterações metabólicas e epigenéticas (a forma como a genética se expressa) que favorecem a resposta imunitária inata e porque, no passado, teve um papel na redução da carga viral de outros vírus de RNA, como o Vírus da Febre Amarela, postulou-se que poderia ter um papel na estimulação da resposta imunitária ao vírus SARS-CoV-2. Esta resposta levaria a uma redução da virémia pós-exposição, o desenvolvimento de uma doença menos grave e uma recuperação mais rápida.

Mas reparem, trata-se de uma hipótese que, apesar de bem formulada, carece de confirmação científica. Sendo assim, neste momento, decorrem vários ensaios clínicos de qualidade que pretendem, justamente responder a esta questão.

E por isso mesmo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) desaconselha a vacinação pela BCG fora destes ensaios clínicos. E porquê?

  1. A vacina da BCG não é facilmente produzida e é sobretudo muito necessária para países com elevada transmissão endémica de tuberculose. Prejudicar a vacinação dos habitantes destes países causará uma maior mortalidade do que o eventual benefício (não testado nem confirmado) no caso das infeções pelo coronavírus SARS-CoV-2.
  2. O facto da incidência de doença COVID-19 ser mais baixa em países que mantêm a vacinação universal com BCG, não prova rigorosamente nada. São frequentemente os países mais pobres que têm maior risco endémico de tuberculose e como tal, menos meios técnicos e financeiros para testar para o vírus SARS-CoV-2 em larga escala. Logicamente que terão uma incidência de COVID-19 inferior.
  3. Dificilmente uma vacina BCG feita na primeira infância terá efeitos assim tão duradouros na imunidade inata para influenciar, décadas depois, já na vida adulta, a resposta ao vírus. Isto implicaria a revacinação dos adultos. Se isso acontecesse, a falsa segurança proporcionada por uma vacina pode prejudicar as mudanças comportamentais que realmente são fundamentais para prevenir o contágio.
  4. São precisos estudos científicos aleatorizados com qualidade e dimensão suficiente para compreender se a modulação da resposta imunitária inata em alguns doentes não desencadeia, inversamente ao expectável, um agravamento do curso da COVID-19. Um clássico exemplo de virar-se o feitiço contra o feiticeiro. Por isso é que os estudos são importantes.

Em resumo, tendo em conta o estado atual do conhecimento sobre a infeção do vírus SARS-CoV-2, os resultados de testes preliminares que estudem a utilização da BCG como estimulador da imunidade inata podem ter um papel importante como ponte até ao desenvolvimento de uma vacina dirigida especificamente para o novo coronavírus. Até lá, estamos no terreno pantanoso das suposições ainda sem confirmação científica. Por isso, não, não corram para a vacina BCG, cujos benefícios no caso do vírus SARS-CoV-2 não estão comprovados.

Um artigo da médica Joana Martins, pediatra na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Série

- Episódio 1: Os preparativos

- Episódio 2: Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão

- Episódio 3: Calor, nevoeiro, chichi, comichão... Enfim, parece tortura chinesa

- Episódio 4: A pandemia pôs o dedo na ferida (sem luvas)

- Episódio 5: Somos todos heróis, mas há uns mais do que outros

- Episódio 6: Sem ovos não há como segurar a omelete

- Episódio 7: Nós, os profissionais de saúde, também temos medo

- Episódio 8: O problema dos bebés que nascem de mães suspeitas ou confirmadas para a COVID-19

- Episódio 9: Os meus vizinhos são uns loucos irresponsáveis. Denuncio-os?

- Episódio 10: E ao fim de 63 dias, as creches reabrem

- Episódio 11: Estaremos preparados para a maratona COVID-19 que aí vem?

- Episódio 12: Máscaras "à la mode" para todos os gostos. Qual é a sua?

- Episódio 13: Sem vacina à vista, infetarmo-nos faseadamente será a solução?

- Episódio 14: Que sociedade é esta que só para por causa de uma pandemia?

- Episódio 15: Trabalhamos ataviados como apicultores. Qual o impacto do vírus na prática médica?

- Episódio 16: O que sabemos sobre a vacina da BCG na COVID-19?

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