Nesta sexta-feira, com todas as escolas encerradas, a principal diferença na vida da cidade verifica-se no trânsito rodoviário, com menos tráfego em comparação a quinta-feira. A regra é ficar em casa, mas a tarefa não está a ser tão fácil de cumprir como em março de 2020, aquando do primeiro confinamento.

No Martim Moniz, considerado a praça mais multicultural de Lisboa, numa zona frequentada por mais de 130 nacionalidades, o ambiente geral é esta manhã de sossego. Percorrendo as ruelas, o movimento de pessoas é constante, ainda que muito menos intenso do que o habitual. Algumas não usam máscara, outras fazem-se notar pelo barulho do arrastar das malas de rodinhas pela calçada portuguesa, e a maioria das lojas, desde minimercados a papelarias, está aberta.

“Metade não está a cumprir, ninguém quer saber, […] entram nas lojas sem máscara”, reclama Ana Rita, de 32 anos, moradora no Martim Moniz, considerando que as medidas do Governo para travar a pandemia “já vêm tarde”, porque a situação “cada vez está pior”, e que é preciso “regras mais duras”.

Ana Rita diz à Lusa que é preciso “a polícia não virar a cara, atuar mesmo” nos casos de incumprimento, apelando a “mais polícia na rua” para garantir o respeito pelo confinamento, assim como para resolver os problemas de prostituição e drogas.

Carregada de sacos pela rua, Maria Luís, de 77 anos, também moradora, concorda com o novo confinamento, inclusive com o fecho das escolas, e diz que o Governo deveria ser “mais rígido”, porque “as pessoas não cumprem”.

“Vou às compras todos os dias […], e depois, às vezes, dou aqui uma voltinha e vou à Senhora da Saúde e vou para casa, porque eu estou farta já de estar em casa. Isto de estar em casa, uma pessoa como eu, que sempre trabalhei e sempre lidei com muita gente, isto para mim é uma doença estar ali em casa a olhar para a televisão”, conta.

Devidamente protegida com máscara, Maria Luís acrescenta que não está preocupada com a possibilidade de ser infetada: “Não tenho medo da morte, por isso a mim não me faz diferença”.

A gerir um quiosque no Martim Moniz, junto a uma praça de táxis cheia de viaturas paradas, Afonso Katchi defende que as medidas “já deveriam ter sido tomadas há muito tempo – por exemplo, fecho de escolas e confinamento rigoroso” -, apontando culpas ao poder político: “Desleixaram-se um bocadinho e, agora, chegámos a uma situação pior”.

“Em Portugal levam muito tempo, é preciso ir aos partidos políticos, é preciso ir à Assembleia da República fazer aquele teatro todo, não decidem logo”, contesta, acrescentado que “não pode haver hesitações” na tomada de decisões.

Quanto ao impacto do encerramento das escolas, o comerciante afirma que se nota “muita diferença, há muito menos movimento de pessoas”, o que “é péssimo” para o negócio.

Ali perto, a Rua Augusta está quase deserta e a maioria dos estabelecimentos está encerrada, inclusive ‘lojas com história’ que até poderiam estar em funcionamento porque disponibilizam bens essenciais. Entre o comércio aberto está a venda do tradicional pastel de nata, mas faltam os clientes. As poucas pessoas que percorrem esta artéria passam a correr, a passear os cães, e raros são os turistas, que ainda há um ano ocupavam toda esta rua pedonal.

O elétrico continua a subir e a descer a cidade, mas, à semelhança dos autocarros, poucos são os passageiros.

Por toda a Lisboa há fitas da Polícia Municipal a impedir o uso dos bancos presentes no espaço público, inclusive junto à zona ribeirinha, e a polícia marca presença em vários locais.

Junto à estação de Sete Rios, a corrida para os transportes também se vê menos intensa, sem filas nas paragens de autocarros, e com poucas pessoas a entrar e a sair dos comboios e do metro.

Muito perto, na Avenida Columbano Bordalo Pinheiro, uma pastelaria que se mantém aberta para ‘take-away’ sente o efeito da redução de pessoas na rua devido ao novo confinamento. O gerente, Serafim Pereira, reconhece que “é um mal necessário”, explicando que a situação é mais complicada, “porque não se pode vender o essencial, que é o café pela manhã, só bolos e pão, e os clientes não aparecem”.

Com as escolas fechadas, a afluência de clientes registou uma diferença “muito grande”, com uma quebra das vendas que coloca o estabelecimento numa situação “gravíssima, porque não há clientes, não há movimento, não há dinheiro a entrar em caixa e as despesas são sempre as mesmas ou ainda mais”.

Sobre a gestão da pandemia em Portugal, Serafim Pereira afirma que os cidadãos não têm cumprido, arriscando dizer que “o Governo não é culpado”, ainda que devesse implementar “medidas mais rígidas”, com a aplicação efetiva de coimas, porque “à base de pedagogia não vai lá”.

Pelas 12:30, num restaurante próximo, aberto desde as 08:00, Manuel Rodrigues contabiliza a venda de 15 refeições para ‘take-away’ (numa situação normal já teria vendido 30 ou 40).

“A gente está aqui praticamente para passar o tempo […], é só para não estar em casa sem fazer nada”, diz o gerente, indicando que “não compensa” manter o restaurante em funcionamento. Critica a decisão de proibir a venda de café e bebidas, que “prejudicou bastante” o negócio.

Aplicável a todo o território continental, o novo confinamento geral, em que a principal regra é ficar em casa, entrou em vigor no dia 15, com vigência até 23:59 de 30 de janeiro, mas ao longo desta semana o Governo avançou, por duas vezes, com o agravamento das medidas, inclusive o fecho dos estabelecimentos de ensino até 05 de fevereiro.

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