Nas últimas décadas, o número de cremações em Portugal tem sofrido um aumento exponencial. Ainda antes da pandemia originada pelo vírus SARS-CoV-2, responsável pela doença COVID-19, que aconselhava a cremação das vítimas mortais desta doença infeciosa, já entre o ano de 2008 a 2018, tinha sido registada uma evolução de 200% do número de cremações, com um aumento de 6.900 (2008) para 20.200 cremações (2018).

Este aumento crescente é compreendido como resultado da mudança de perceção dos rituais fúnebres que têm vindo a ser acompanhada pelo reconhecimento dos benefícios ambientais e dos gastos financeiros tendencialmente mais reduzidos associados à cremação. Paralelamente, a lotação crescente dos cemitérios tem vindo a potenciar que a cremação possa ser reconhecida como o futuro dos rituais fúnebres.

Ao longo dos anos, as investigações têm vindo a demonstrar que o funeral é um momento importante para que o processo de luto seja vivido em plenitude, na medida em que desempenha quatro funções, designadamente:

  1. Providencia um momento de confronto direto e próximo com a veracidade e irreversibilidade da morte. Este momento tende a ser considerado como “um ponto de partida” para a aceitação da perda e para a sua consequente integração na narrativa de vida das pessoas em luto, as quais reinventam a sua história sem a pessoa perdida.
  2. Proporciona uma oportunidade para receber apoio emocional da rede de suporte social e da comunidade, fundamental num momento de tamanha fragilidade.
  3. Facilita a expressão emocional da pessoa em luto, na medida em que o suporte emocional, com recurso a palavras e ao toque, como um abraço, propiciam um espaço seguro para expressar o sofrimento.
  4. Oferece um momento de despedida e de homenagem à pessoa perdida.

Desta forma, colocam-se algumas questões, nomeadamente: É isto possível quando as pessoas recorrem à cremação? Qual o impacto no processo de luto?

No que diz respeito ao confronto com a veracidade da perda e momento de despedida, existe a possibilidade de estar em contacto com o corpo da pessoa perdida antes da cremação. É permitido que a família organize uma cerimónia privada, independentemente da sua natureza religiosa, como um velório, para um momento de despedida estruturado em função das crenças, tradições e rituais da pessoa perdida ou da família. Por exemplo, para as pessoas que pretendem um funeral católico, pode existir um velório tradicional e, mais tarde, após a cremação, existir o enterro da urna no cemitério.

Durante este processo, é igualmente facilitada a expressão emocional, dado existirem momentos e oportunidades em que o apoio da rede de suporte social é fundamental.

No concernente à homenagem, a cremação oferece um leque de possibilidades e significados, como enterrar as cinzas no lugar preferido da pessoa perdida ou de particular significado para a família, como o jardim da casa em que a pessoa viveu durante a sua vida ou recorrer a serviços especializados que permitem lançar as cinzas ao mar ou guardar as cinzas numa urna biodegradável com uma semente que, mais tarde, irá germinar e dar origem a uma árvore.

Neste sentido, as investigações aludem que não parecem existir diferenças no processo de luto em função da natureza dos rituais fúnebres. Ainda assim, é imprescindível referir que nas situações em que existe uma cremação sem recurso a festividades ou contacto com o corpo da pessoa perdida, pode ser facilitada a sensação de descrença acerca da morte. Por sua vez, existe um risco de ser originado um processo de luto semelhante ao que acontece com outras mortes em que o corpo não é encontrado, em que predomina a questão “Eu não vi, será que aconteceu?”.

A ciência psicológica aponta para dois elementos, transversais aos funerais e às cremações, que são importantes para um processo de luto pleno.

Em primeiro, destaca-se o papel ativo nos rituais que possibilita a sensação de um “controlo” simbólico sobre a morte. Ou seja, o envolvimento, a tomada de decisão e as escolhas associadas aos rituais facilitam a sensação de algum controlo e mestria sobre um dos fenómenos que mais assusta o ser humano: a morte. Ainda que simbólico, este papel ativo facilita a gestão do sofrimento e, simultaneamente, funciona como uma estratégia de distração.

Em segundo, a existência de conflitos, independentemente da natureza dos rituais fúnebres, impossibilita o bem-estar facilitador do processo de luto. Por exemplo, conflitos familiares, divergências entre os desejos da pessoa perdida e os desejos da família ou problemas financeiros. Alguns conflitos familiares podem decorrer do diferente significado que é atribuído às cinzas.  Enquanto algumas pessoas preservam as cinzas por sentirem que permitem uma proximidade emocional, ainda que totalmente simbólica, com a pessoa perdida; outras valorizam a sensação de libertação e paz que é atribuída à pessoa perdida quando as cinzas são lançadas, por exemplo, ao mar. Não significa que as pessoas que não permanecem com as cinzas não as valorizem, apenas atribuem um significado diferente às mesmas.

Desta forma, é imperativo que a decisão de recorrer à cremação resulte de um processo de decisão familiar, o qual deve ter em consideração o desejo da pessoa perdida. A ansiedade provocada por não terem sido cumpridos rituais considerados importantes pela pessoa pode provocar constrangimentos no processo de luto, como sentimentos de culpa. Por exemplo, ainda que a cremação não integre os princípios familiares de uns pais que perderam o filho, mas que esse era o seu último desejo, é fundamental ponderar a decisão a implementar.

É importante que exista consenso e flexibilidade, dados os benefícios e desafios associados a esta tomada de decisão.

Tome-se como exemplo a decisão de guardar as cinzas, na urna, em casa. Particularmente no que diz respeito aos rituais, praticados individualmente ou em família, esta decisão traz vantagens, como a facilidade do recurso a rituais como rezar, acender velas, colocar flores ou enfeitar com fotografias ou pertences da pessoa perdida o sítio onde se encontra a urna. É também uma estratégia para as pessoas que tendem a evitar o cemitério pelo desconforto vivenciado, ou que se encontram a longas horas de distância do cemitério e que tendem a experienciar sentimentos de culpa por não visitarem “a última morada” da pessoa perdida, como se a tivessem esquecido ou negligenciado.

Não obstante, existem também desafios. A título exemplificativo, o processo de tomada de decisão acerca do momento e do local para libertar as cinzas, quando não são deixadas instruções pela pessoa perdida; a responsabilidade de possuir as cinzas de um familiar, de geração em geração, até alcançar uma geração de familiares que desconheciam a pessoa perdida e, por não possuírem qualquer ligação emocional com a mesma, tornam-se responsáveis pelas cinzas de um mero “estranho”, o que pode gerar desconforto e algum mal-estar.

Em suma, é fundamental que exista um processo de decisão familiar, flexível e ponderado, que integre o desejo da pessoa perdida, que permita homenageá-la e facilite a construção de uma ligação emocional e simbólica para toda a vida.

As explicações são de Mauro Paulino e Sofia Gabriel da MIND – Psicologia Clínica e Forense.

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