Os resultados, ainda preliminares, a que a Lusa teve hoje acesso, emergem de um estudo desenvolvido por um grupo de investigadores da Universidade do Minho e do CINTESIS - Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, aplicado a 200 jornalistas, editores, coordenadores e diretores de órgãos de comunicação social nacionais.

De acordo com Felisbela Lopes, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho e coordenadora deste estudo, “os media assumiram um lugar na frente de combate e mostraram-se eficazes”.

“O papel assumido pelos jornalistas pode ter sido crucial para promover tão rapidamente o confinamento”, sublinha a coordenadora do trabalho que juntou também os investigadores Rita Araújo, Olga Magalhães e Alberto Sá.

De acordo com as respostas dos jornalistas, o esforço para orientar os comportamentos dos cidadãos foi realizado através dos textos noticiosos (36% das respostas), mas também de infografias (29%) e caixas explicativas (29%), que tornaram a informação mais simples e compreensível por parte de franjas mais largas da população.

Rita Araújo, também da UMinho, considera que “os media tradicionais são ainda a melhor forma de chegar aos públicos menos instruídos que, de outra forma, teriam poucas oportunidades de contactar com informação sobre saúde”.

A par das preocupações com o impacto que o seu trabalho teria no comportamento dos cidadãos, os jornalistas reportaram ter vivido várias dificuldades: 87% dos jornalistas, editores/coordenadores e diretores testemunharam um crescendo de informação falsa durante a pandemia, que tornou o processo de seleção das notícias mais complexo e moroso.

Aliás, os problemas na triagem de informação credível sobre covid-19 foram apontados por mais de metade dos jornalistas auscultados como a dificuldade mais importante que enfrentaram durante o estado de emergência, a clara distância da dificuldade seguinte – a falta de colaboração das fontes de informação.

Para combater a informação falsa, de acordo com os resultados do inquérito, os jornalistas usaram essencialmente duas estratégias: o cruzamento da informação com fontes documentais e o pedido de explicações a uma fonte oficial ou especializada, sendo que cada uma delas somou quase metade das respostas dos inquiridos, como primeira escolha.

“Esta necessidade de explicações adicionais pode justificar o elevado número de especialistas e académicos que surgiram no espaço público, contribuindo para a qualidade do debate”, realça Olga Magalhães, do CINTESIS.

De acordo com as respostas dos jornalistas auscultados, a escolha das fontes especializadas baseou-se sobretudo na informação que os especialistas possuem, claramente indicada como característica mais valorizada para 87% dos inquiridos.

Os jornalistas que habitualmente não trabalham as áreas da saúde/ciência apontaram a complexidade dos acontecimentos como uma das maiores dificuldades sentidas na cobertura da covid-19 (indicada por 38% dos respondentes como primeira escolha). Em contrapartida, os jornalistas de saúde assumiram estar “bem preparados” para lidar com os desafios da cobertura mediática durante a pandemia (76% das respostas).

“A especialização dos jornalistas, que já se mostrou fundamental no período da crise financeira, ganha novos argumentos com a pandemia. É importante investir na especialização dos profissionais para promover uma cobertura noticiosa mais crítica e vigilante”, defende Alberto Sá.

O inquérito integra um projeto de investigação que visa analisar a cobertura jornalística feita à covid-19 pelos media portugueses.

Portugal contabiliza pelo menos 1.522 mortos associados à covid-19 em 37.336 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS).

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Depois de a Europa ter sucedido à China como centro da pandemia em fevereiro, o continente americano é agora o que tem mais casos confirmados e mais mortes.

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