Neste artigo a pediatra Joana Martins disseca duas boas desculpas para ir à praia: a exposição solar e a imersão na água salgada.

A exposição solar

Quando dou o exemplo que a Academia Americana de Pediatria não recomenda que bebés com menos de 1 ano vão à praia, sou habitualmente brindada com um olhar incrédulo. Em Portugal, ir à praia, é sumariamente uma coisa boa. Já cheguei a ouvir que o melhor para a febre é dar um mergulho no mar… No entanto, nem sempre. Especialmente nos bebés mais pequenos. E porquê? Porque a pele do bebé tem uma estrutura mais frágil.

É simultaneamente mais permeável, pelo que tem maior risco de perda insensível de água, contribuindo para a desidratação e não tem o mesmo número de células que produzem melanina (pigmento que protege o núcleo das células da exposição aos raios UV que causam mutações). O que é que isto significa: é que, para o mesmo nível de exposição solar do adulto, a pele do bebé não bronzeia. Consequência? Maior risco de lesão da pele.

Não é por acaso que dizemos que as queimaduras solares nos primeiros 10 a 15 anos de vida se relacionam com o risco de desenvolvimento de melanoma. Tal tem que ver precisamente com esta fragilidade cutânea que é extrema nos primeiros 6 meses de vida.

E já que estamos a falar sobre exposição solar, sabemos que existem benefícios inegáveis: o ser humano depende da luz solar para produzir a sua forma endógena ativa de vitamina D. O que é que isto significa? Significa que, para produzirmos vitamina D suficiente para o nosso dia a dia, temos que expor as nossas mãos e a nossa cara, todos os dias, durante 30 minutos, à exposição solar. Isto é consideravelmente diferente de nos estendermos numa toalha ao sol durante uma tarde inteira. Nos bebés pequenos, porque o mecanismo de síntese da vitamina D é um pouco imaturo e porque têm um crescimento extremamente veloz, a síntese de vitamina D tem que ser ajudada com a toma de suplemento de vitamina D. Isto seguramente durante o primeiro ano de vida, por vezes extensível ao segundo ano.

Como vimos, a vantagem da exposição solar existe, mas é uns furos bem abaixo daquela que é a prática corrente do comum dos mortais na época balnear. Assim sendo, a recomendação é simples: exposição solar interdita no período entre as 11h00 e as 17h00, uso obrigatório de proteção solar na forma de cremes protetores solares ou roupa com filtro UV e, idealmente, quando na praia, porque a areia, sendo clara, reflete os raios UV, optar pela estadia à sombra.

Em relação aos protetores solares, existem dois tipos: os minerais, com substâncias na sua composição que, pura e simplesmente, fazem refletir os raios UV. Estes protetores são ativos desde o momento em que são aplicados na pele. E os protetores químicos, cuja ação está dependente de reações químicas que se dão à superfície da pele. Estes protetores precisam de cerca de 30 a 40 minutos para iniciar o seu efeito protetor.

O facto de optarmos por um tipo ou outro de proteção, prende-se com motivos monetários (os minerais são obviamente mais caros), mas também pela facilidade de aplicação (os minerais são mais difíceis de espalhar na pele… No entanto, as marcas têm feito um esforço significativo de melhoramento).

Em relação à reposição do creme protetor solar, deverá ser feita sempre após a submersão na água. No caso de longa permanência dentro de água, como nas piscinas, deve ser reposto a cada 2 horas.

No caso das crianças, o uso de fatos com proteção UV pode ser muito benéfico para a proteção à exposição solar. No caso da escolha de chapéu, apesar dos bonés serem mais modernos, a verdade é que o clássico panamá com aba é muito mais eficaz na protecção do pescoço e orelhas.

O problema da proteção solar é mesmo a questão de transmissão da mensagem e de garantir que, a partir de certa idade e autonomia das crianças e jovens, sejam elas próprias a adotar medidas de proteção.

Isto é especialmente relevante no caso das crianças acima dos 8 anos de idade: sofrem realmente de maior risco de queimadura solar. Estão numa fase de maior autonomia, maior tempo de permanência dentro de água e também – verdade seja dita – relativa menor preocupação dos pais (entre aplicar o creme de 2 em 2 horas numa criança de um ano ou num adolescente de 12 anos, já sabemos que vão haver diferenças).

Voltar a bater na tecla que os bebés abaixo dos 6 meses não devem estar na praia é chato mas fácil de perceber porquê, mas dizer que os rapazes com mais de 8 anos têm um maior risco de queimadura solar e insolação é praticamente ignorado.

É precisamente no grupo dos adolescentes que o risco de queimaduras solares é maior. Sobretudo porque estamos numa sociedade que valoriza o look bronzeado… O que é que isto significa? Adolescentes com mais de 13 anos, com pais que favorecem a ideia de pele bronzeada, têm 85% maior probabilidade de sofrer queimaduras solares. Estão a ver onde começa a educação para a saúde?

Os banhos de mar

Os benefícios dos banhos de mar estão intrinsecamente relacionados com o nosso tecido humano. Quer seja pela frescura da água, pela diminuição do efeito da gravidade, pelo facto da água do mar ser salgada e como tal, passível de estimular receptores químicos que temos na pele, a verdade é que quase todos conseguimos concordar que mergulhar no mar é bom.

E de facto, os benefícios da água do mar estendem-se em áreas tão amplas e díspares como a doença inflamatória cutânea, a doença reumatismal e a doença respiratória.

Não é por acaso que dizemos aos mais pequeninos mais ranhosos para fazerem praia no verão. Se existe um estudo científico irrefutável sobre esse assunto, não há. Mas que os miúdos parecem melhorar, parecem.

O que mais preocupa pediatras em relação aos banhos de mar – e aos banhos em geral - são os afogamentos. E apesar de corresponderem a um número pequeno de mortes em idade pediátrica - falamos de 7 casos com menos de 20 anos em 2019 - a verdade é que são causas de morte perfeitamente evitáveis! E, mais uma vez, não são as crianças mais pequenas que estão em risco, são novamente os rapazes entre os 8 e 15 anos.

Isto leva-me a falar da importância da vigilância: a morte por afogamento (no mar, ou na piscina) é absolutamente silenciosa. E o que os estudos nos dizem é que cada adulto deverá ser responsável no máximo por 3 crianças. E não falo estreitamente de crianças pequenas, porque para essas damos a nossa atenção indivisível. No entanto, nos mais crescidos, especialmente nos que até já têm bastante familiaridade com a natação, é que os azares acontecem. E isto é especialmente importante numa época em que somos tão facilmente distraídos pelo telemóvel.

Um artigo da médica Joana Martins, pediatra na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

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