“Nós não resolvemos a pandemia da diabetes só através dos recursos diretos da saúde. Precisamos de melhor urbanismo e acesso à alimentação, precisamos de condições de trabalho e de vida diferentes, precisamos da promoção da atividade física e alimentação saudável nas escolas”, defende João Filipe Raposo, diretor clínico da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP). O endocrinologista alerta que Portugal tem de definir uma estratégia para combater a diabetes e a obesidade, tal como aconteceu com a Covid-19, e que “irmos na culpabilização do indivíduo, como sendo ele o único responsável pelo seu estilo de vida, é uma simplificação do nosso sistema e uma desresponsabilização de toda a sociedade, que, na verdade, promove muito ativamente esse estilo de vida pouco saudável”.

HealthNews (HN)- Porque é que as pessoas com diabetes são um grupo de risco para doenças infeciosas como a gripe e a Covid-19?

João Raposo Aquilo que é do conhecimento desde há muitas décadas é que realmente as pessoas que vivem com a diabetes têm este risco aumentado para formas mais graves de muitas das doenças infeciosas. Essa associação é agravada se estiver ligada a outros fatores, como a idade mais avançada ou presença de outras patologias, nomeadamente patologia respiratória, patologia cardíaca, patologia renal, ou se essa diabetes estiver pior compensada. Portanto, há vários níveis de risco associados a diferentes formas de viver com a diabetes. As razões desta suscetibilidade aumentada às formas mais graves das doenças infeciosas têm sofrido muitas explicações ao longo dos últimos anos. Hoje em dia, face à evidência, acredita-se que as pessoas com diabetes vivem num estado de inflamação crónica que tem uma interação com o nosso sistema imunitário, com as nossas defesas, limitando a parte da produção de anticorpos e de outras respostas de defesa. Este estado inflamatório, por sua vez, é exacerbado quando existe uma infeção, portanto é nestas pessoas mais fácil a transição para o que se tornou agora mais conhecido como tempestade imunológica, que pode surgir num contexto de uma infeção e que vai levar a esta evolução desfavorável.

HN- Quais as implicações da gripe nas pessoas com diabetes?

JR- A gripe aqui funciona como a infeção respiratória, que começa a crescer nesta altura do ano. Em Portugal, tem normalmente um pico no mês de janeiro, eventualmente fim de dezembro, e novamente, sendo uma infeção respiratória viral, aquilo que está associado, nas formas mais graves, é a intercorrência com pneumonias ou a associação à descompensação das outras doenças que a pessoa possa ter, nomeadamente a insuficiência cardíaca e a insuficiência renal, e com acréscimo da mortalidade associada a esta infeção. Por exemplo, durante o pico de infeção da gripe, há também mais enfartes de miocárdio, portanto, há um risco cardiovascular associado também a esta infeção. Ora, nós sabemos que as pessoas com diabetes já têm um risco aumentado de doença cardiovascular, portanto temos de atuar de modo a reduzir este risco.

HN- Há grupos mais vulneráveis entre as pessoas com diabetes?

JR- Uma pergunta razoavelmente frequente é se há algum tipo de diabetes mais suscetível do que outro, entre a diabetes tipo 1 e a diabetes tipo 2. De um modo geral, não existem dados consistentes para diferenciar entre tipos de diabetes. Novamente, serão sempre as pessoas mais velhas, com maior excesso de peso e obesidade, com a existência de outras doenças e pior compensadas que estarão condicionadas a um maior risco destas formas de doença.

HN- O que é que as pessoas podem fazer para prevenir ou minimizar o impacto de doenças infeciosas como a gripe?

JR- Além das medidas específicas para a gripe que passam pela recomendação da vacinação anual, temos de trabalhar na correção de todos os outros fatores, e esta é a parte principal, porque nós não queremos só prevenir as consequências nefastas de uma infeção como a gripe; nós queremos que as pessoas com diabetes saibam gerir a sua doença, consigam evitar todas as complicações associadas à diabetes – agudas ou crónicas – e queremos que mantenham ou melhorem a sua qualidade de vida. Isto são os objetivos do tratamento das pessoas com diabetes.

Aquilo que nós queremos, então, é que as pessoas tenham a sua diabetes o melhor compensado que for possível. Sabemos que isto diminui o risco das complicações associadas à diabetes, como os riscos associados às infeções, e sabemos que se a pessoa se alimentar de uma maneira mais saudável, se a pessoa tiver mais atividade física, os benefícios destas medidas não se refletem só na diabetes e nas complicações a ela associadas, como se traduzem também em melhor qualidade de vida e em menor risco de ter outras patologias. Portanto, estas intervenções são aquelas que são necessárias para que um cidadão, neste caso com diabetes, disfrute do potencial que a vida lhe pode proporcionar.

HN- E as associações também ajudam nesse sentido, não é?

JR- Cada vez mais se fala da inclusão das pessoas que vivem com a doença nos processos de decisão. Desde há muitas décadas que existem associações de doentes, que refletem não só as necessidades dessas pessoas, como refletem a energia que essas pessoas têm, que são capazes de se mobilizar, de serem agentes participativos da sociedade e que estão disponíveis para discutir com a estrutura do Governo, com as estruturas regulamentares, com as estruturas autárquicas como é que se pode aumentar a participação das pessoas na procura das soluções. Ou seja, nós conhecemos muito o papel das associações de doentes chamando a atenção para os problemas, e essa é uma das funções, mas as associações de doentes têm recursos para oferecer soluções às pessoas com diabetes que podem e devem ser utilizados pela sociedade como um todo.

HN- Tendo em conta que o estilo de vida e a história familiar podem conduzir à diabetes, qual a importância de começar a prevenir cedo esta doença?

JR- Nós temos que pensar que a diabetes tipo 2 pode ser prevenida ou atrasado o seu aparecimento através de mudanças no estilo de vida. Independentemente do seu risco, nós queremos ter uma sociedade mais saudável, uma sociedade em que toda a população se alimente melhor e que faça mais atividade física, combatendo o excesso de peso ou a obesidade. As pessoas que têm maior risco de ter diabetes tipo 2, porque têm história familiar, porque estão mais velhas, porque têm esta história de excesso de peso e obesidade, porque são mulheres que tiveram diabetes durante a gravidez, beneficiariam de medidas e de estratégias de proximidade que as ajudassem a mudar o seu comportamento.

Todos nós sabemos a dificuldade que é mudar o comportamento de uma maneira consistente, especialmente em relação a estilos de vida, porque são adotados ao longo de décadas e estão incorporados na nossa cultura atual, familiar, regional ou do país, e irmos na culpabilização do indivíduo, como sendo ele o único responsável pelo seu estilo de vida, é uma simplificação do nosso sistema e uma desresponsabilização de toda a sociedade, que, na verdade, promove muito ativamente esse estilo de vida pouco saudável.

HN- Que medidas gostaria que fossem implementadas?

JR- Aquilo que nós precisamos de definir enquanto país é a estratégia global que queremos para combater esta pandemia que a diabetes representa e que está associada à pandemia da obesidade, das doenças cardiovasculares, das doenças osteoarticulares. Estão todas associadas exatamente a um conjunto de fatores de risco que são dominantes na nossa sociedade. Nós precisamos de assumir isto como um desafio global do país e de definir a estratégia para responder a esta pandemia. Agora acho que se tornou mais evidente para toda a população naquilo que se fez em relação à Covid.

Nós não resolvemos a pandemia da diabetes só através dos recursos diretos da saúde. Precisamos de melhor urbanismo e acesso à alimentação, precisamos de condições de trabalho e de vida diferentes, precisamos da promoção da atividade física e alimentação saudável nas escolas. E isto complementado com medidas regulamentares ou legislativas, como aquelas em relação às bebidas açucaradas, mas também podem existir em relação às taxas aplicadas aos alimentos que contêm gorduras menos saudáveis. Portanto, é esta estratégia nacional de combate à diabetes e à obesidade que claramente necessita de um investimento e de um processo de avaliação que permita ir adaptando as políticas que se vão tomando, em função dos resultados, para deixarmos de estar a fazer experiências em projetos piloto, que claramente demostram o sucesso das intervenções, mas precisamos de aprender com os bons exemplos, alargando essas experiências à realidade nacional.

HN- Este inverno, acredita que os serviços de saúde estão preparados para dar resposta aos casos de Covid-19 e de gripe?

JR- Tipicamente, os serviços de saúde tentam acautelar-se mobilizando recursos acessórios para a resposta à gripe. No ano passado, fruto do sucesso da vacinação, por um lado, da gripe e fruto também das medidas da higiene respiratória que foram ativamente promovidas, felizmente, o caso da gripe não se revelou como um problema. Este ano, necessitaremos também de uma política ativa de vacinação da gripe, que ainda está a decorrer nesta altura, para tentarmos minimizar o impacto que estes casos possam vir a ter.

Aquilo que se sabe também é que, como no ano passado não tivemos praticamente casos de gripe, a nossa população terá menos anticorpos perante uma nova infeção. Portanto, é necessário termos a capacitação da nossa população para vacinar e é muito importante a capacitação da população no reforço das medidas de higiene respiratória. A máscara não serve só para a Covid e todas aquelas medidas que fomos aprendendo nestes quase dois anos [de pandemia Covid-19] são importantes também para prevenir a infeção pelo vírus da gripe. Depois, temos que ter a confiança de que o sistema de saúde tem as capacidades para responder aos casos graves que lá chegam e que necessitam de internamento.

Entrevista de Rita Antunes

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