Fala-se de interior e já toda a gente sabe o que vem a seguir: desertificação, migração, falta de oportunidades, desigualdades… Portugal é um país pequeno e estreito – vamos do litoral ao interior em pouco mais de duas horas – e, mesmo assim, sentimos todos as desigualdades de oferta que invalidam a fixação nas zonas mais afastadas dos grandes centros de decisão. Como resultado, as zonas interiores ficam não só cada vez mais desérticas, como também mais presas ao passado, com desânimo e com baixos níveis de desenvolvimento e é aos jovens que cabe mudar este panorama. É urgente cativar os jovens para estas zonas, é urgente colocar o interior de novo no mapa, mostrando que também há espaço para grandes ideias, que há oportunidades e que, ainda para mais, há qualidade de vida!

O desafio maior é atrair esses jovens, bem sei, mas também sei que não é impossível. Aqui, acredito que o associativismo juvenil (do qual me orgulho de fazer parte) pode ser uma das chaves. É certo que não será o associativismo a fixar pessoas, pois os recursos de uma associação juvenil são bem mais reduzidos do que os de uma empresa, mas são associações juvenis e identidades semelhantes que ajudam a manter a ligação dos jovens à terra, incluindo-os, de facto, na comunidade onde estão inseridos.

Urge que esta preocupação das associações possa ter reflexos em políticas locais, em haver uma procura constante por estratégias de fixação dos jovens através de incentivos como, por exemplo, à natalidade ou à criação de empresas. Existem mais de 100 associações juvenis no interior (registadas no Registo Nacional das Associações Juvenis) que ajudam à fixação de jovens sem esses incentivos e Vila Nova de Foz Côa tem um desses exemplos.

Sou, positivamente, obrigado a falar de Foz Côa e da realidade que abraço há anos. A realidade é igual a tantas outras por este país fora e alinhada com o que acima é descrito sobre o interior: segundo dados do INE sobre densidade populacional, em 2017, no interior das regiões Norte e Centro do país e no Alentejo, a maior parte dos concelhos não ultrapassava os 50 habitantes/km2 e em Foz Côa só existiam, em média, 16,5 habitantes/km2. Mas, aqui, são os próprios jovens, com o apoio do município, que se têm desdobrado em iniciativas para valorizar os residentes, mostrar que a região tem vida e atrair novas gentes àquela zona. Aliás, a Associação Juvenil Gustavo Filipe foi criada exatamente com esse propósito e tem resultado! Temos atividades culturais e desportivas para promover diálogo e contacto entre os jovens que por lá ficam e os que regressam no final da semana. Temos uma gala anual onde galardoamos os jovens da região que mais se destacam em determinadas áreas, como desporto ou educação, valorizando-os. E temos um festival de música, o Côa Summer Fest, que vai já na 9ª edição e que, ano após ano, faz questão de mostrar aos jovens de todo o país que “o verão não é só praia” e que também ali podem passar bons momentos com os amigos. E desengane-se quem pensa que estes festivaleiros passam pela região durante três dias e nunca mais voltam. Voltam com amigos e com as famílias e é isso mesmo que queremos e precisamos, que se criem estas dinâmicas e que sejam os mais jovens o motor para que aconteçam.

Acredito que é este tipo de trabalho que vai converter o interesse dos jovens no interior, com eventos e participações ativas, e que são eles que vão dar uma nova vida às regiões mais “esquecidas” do nosso país.

Vou, um dia, chegar a Foz Côa e sentir que o panorama se atualizou e que as pessoas não têm mais de procurar a felicidade fora dali. Que será possível ser-se feliz e viver-se correndo atrás de objetivos muito próprios naquele local. Até lá, farei por ser parte da solução para que os cenários se equilibrem.

Um artigo de Rui Pedro Pimenta, organização do Côa Summer Fest.

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