“Após dois anos de impactos indiretos da covid-19, os preços dos alimentos aumentaram exponencialmente e acreditamos que, por causa da crise na Ucrânia, num continente que tem 30% das importações de trigo e cereais provenientes da Ucrânia e da Rússia, os preços vão certamente aumentar ainda mais e os preços do gás vão aumentar ainda mais, o que terá também um impacto nas vidas das pessoas”, disse o diretor regional para África do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), Patrick Youssef.

O impacto do aumento dos preços reflete-se também no trabalho das próprias organizações humanitárias, nomeadamente na distribuição de serviços, ou na aquisição de alimentos, admitiu o responsável, em declarações à Lusa por telefone.

“[A guerra na Ucrânia] irá repercutir-se lenta, mas seguramente em tudo o que fazemos”, afirmou Youssef, alertando para o impacto direto de uma crise que “infelizmente está a desenrolar-se com resultados desconhecidos”.

Também o diretor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para a África Oriental e Austral, Mohamed M. Fall alertou que a guerra na Ucrânia está, por um lado, a fazer desaparecer das notícias outras crises humanitárias, como a insegurança alimentar no Corno de África, que afeta 20 milhões de pessoas, mas também a agravá-las.

“Tem ramificações de longo alcance. Se tomarmos, por exemplo, o aumento de preços que enfrentamos aqui — é algo que é muito desafiador”, afirmou o responsável da agência da ONU, a partir de Adis Abeba.

O Quénia, a Somália e a Etiópia, três países do Corno de África fortemente afetados pela seca nos últimos anos, dependem das importações de trigo da Rússia e da Ucrânia em 67% a 92%, exemplificou Fall, alertando que, além da indisponibilidade do cereal no mercado, a crise ucraniana resultou num forte aumento dos preços.

“Nós tentamos responder à crise através de transferências de verbas para apoiar as famílias necessitadas, mas percebemos que o dinheiro que lhes dávamos há dois meses para viverem durante uma semana não chega atualmente nem para dois dias”, lamentou.

Fall alertou também que a guerra na Ucrânia junta-se a outras crises que se arrastam há anos, como a da Síria, do Iémen ou da Somália, mas mostrou-se confiante na generosidade dos doadores.

“Penso que a humanidade tem generosidade. Já o mostrou em diferentes situações, em momentos em que enfrentámos múltiplas crises”, disse.

Youssef declarou à Lusa que partilha desta esperança e, embora admita que existe apreensão de que a crise na Ucrânia possa absorver a atenção dos doadores do CICV, assegurou que os fundos e recursos de que a organização precisa para responder às necessidades em África “estão lenta, mas seguramente a concretizar-se”.

“Estamos a receber garantias de que os nossos doadores não estão a esquecer-se de África”, referiu, lembrando que ainda este mês a organização anunciou que vai aumentar as suas operações em 10 países africanos.

O CICV estima que mais de um quarto da população de África – 346 milhões de pessoas – enfrente atualmente uma crise de segurança alimentar, com milhões de famílias a saltar refeições e crianças a morrer de malnutrição.

Para isto contribuíram os efeitos de conflitos continuados, como na Somália, assim como os efeitos das alterações climáticas, como as secas na África Ocidental ou no Corno de África, agravados pela pandemia, disse Yousseff.

O Programa Alimentar Mundial (PAM) alertou na semana passada que os seus custos em 2022 deverão subir 136 milhões de dólares só na África Ocidental devido ao impacto da guerra na Ucrânia nos preços dos alimentos e dos combustíveis.

Isto num momento em que a fome quadruplicou em três anos na região, alcançando um máximo de 10 anos, com a organização a estimar que 43 milhões de pessoas enfrentem insegurança alimentar aguda em junho deste ano.

Numa entrevista recente ao Politico, o diretor-executivo do PAM, David Beasley, avisou que a guerra na Ucrânia piorou uma situação alimentar já de si difícil em regiões como África e Médio Oriente e alertou a Europa de que, se não fornecer “milhares de milhões de dólares” em ajuda humanitária, irá enfrentar “fome, desestabilização e migração em massa”.

Em declarações à Lusa, Fall e Youssef alertaram que é preciso agir, e rapidamente.

“Se não agirmos agora e assumirmos a responsabilidade — não apenas das agências humanitárias, mas também dos Estados, das organizações internacionais e dos atores do desenvolvimento, como o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento e outros… Se não trabalharmos juntos, falharemos com as pessoas que precisamos de servir”, alertou Youssef.

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