Desde os primeiros grãos de cacau até à criação de um chocolate puro e sustentável, a Alma do Cacau, com sede em Oliveira do Hospital, nasceu com uma missão clara: recuperar a autenticidade deste alimento milenar e transformar a forma como as pessoas o consomem. Num mercado onde o chocolate é frequentemente associado a produtos industrializados e altamente processados, a marca decidiu trilhar um caminho diferente, valorizando a simplicidade, a qualidade e a ética em cada etapa da produção.

Nesta entrevista, Elisa Boin, fundadora da Alma do Cacau, partilha a jornada que levou à criação da marca, desde a inspiração inicial até ao reconhecimento internacional. Exploramos o conceito "bean to bar", o impacto da sustentabilidade na produção de chocolate e a importância de oferecer um produto que alia sabor e saúde. Além disso, descobrimos como a marca portuguesa tem conquistado novos mercados, inovado em sabores e desafiado a perceção tradicional do chocolate.

Seja através da Alma do Cacau, focada na pureza do cacau, ou da marca Nómada, que convida à aventura dos sabores, cada criação reflete a paixão e o compromisso com a excelência. Mais do que um doce, este chocolate representa um estilo de vida consciente, onde cada tablete conta uma história de respeito pela natureza, pelos produtores e pelo verdadeiro prazer do cacau.

O que inspirou a criação da Alma do Cacau? Há alguma memória especial ligada ao chocolate?

Quando criámos a Alma do Cacau tínhamos em mente uma missão: voltar às origens do cacau e recuperar a essência do autêntico chocolate. Muitas pessoas ainda veem o chocolate como um alimento nocivo para a saúde, mas a verdade é que o cacau, na sua forma pura, é um verdadeiro superalimento. Repleto de nutrientes e minerais, o cacau não só proporciona um sabor incrível, como também contribui para o bem-estar do nosso corpo e da nossa mente.

A inspiração para este projeto veio da vontade de mudar essa perceção e de oferecer algo diferente. Desde os primeiros contactos com chocolates artesanais até o momento em que aprofundámos o conhecimento sobre o cacau e os seus benefícios, percebemos que havia espaço para criar um chocolate que fosse mais do que um simples doce.

Com a Alma do Cacau, quisemos trazer ao mercado um alimento nutritivo, delicioso, ético, justo e sustentável. Cada decisão que tomamos, desde a seleção das origens do cacau até o processo de fabrico, reflete esse compromisso. O nosso objetivo sempre foi proporcionar uma experiência genuína e mostrar que o verdadeiro chocolate pode ser um prazer aliado à saúde e à consciência ambiental.

Como foi o momento em que percebeu que estavam a conquistar o mundo com o vosso chocolate?

O momento em que percebemos que o nosso chocolate estava a conquistar o mundo não foi um evento isolado, mas sim uma soma de pequenas conquistas que foram ganhando significado ao longo do tempo. Ver o reconhecimento crescer, seja através do feedback de clientes apaixonados pelo produto ou através da entrada em novos mercados, foi um sinal claro de que estávamos no caminho certo.

Uma das experiências mais marcantes foi quando recebemos os primeiros pedidos do exterior, percebendo que a nossa identidade e o nosso compromisso com a qualidade estavam a gerar interesse para além das fronteiras. Isso confirmou que o nosso trabalho tinha valor e que havia um público global à procura de chocolates autênticos e cuidadosamente preparados.

Claro que ainda há muito caminho a percorrer, mas cada novo país onde chegamos e cada cliente que escolhe o nosso chocolate reforça a sensação de que estamos a construir algo com impacto e significado.

O vosso chocolate é descrito como revolucionário. O que o torna tão especial?

O nosso chocolate distingue-se pela simplicidade e pelo respeito à essência do cacau. Seguimos um processo artesanal 'bean to bar', o que significa que controlamos todas as etapas da produção – desde a seleção e torra dos grãos até à moagem, conchagem e moldagem das barras. Isso permite-nos garantir a máxima qualidade e preservar as características únicas do cacau.

Além disso, utilizamos apenas ingredientes biológicos e mantemos uma composição minimalista, com apenas dois a três ingredientes: grãos de cacau, açúcar de coco e manteiga de cacau. Ao eliminarmos completamente a inclusão de açúcares refinados, lecitinas, aditivos, óleos refinados e quaisquer ingredientes artificiais e nocivos, conseguimos realçar o verdadeiro sabor do cacau e proporcionar uma experiência mais autêntica e saudável.

Algo que nos diferencia também dos restantes chocolates, principalmente no mercado em Portugal é que os nossos chocolates na Alma do Cacau são adoçados apenas com açúcar de coco, que é uma alternativa mais saudável ao açúcar refinado, usado na maioria dos chocolates. Este incrível néctar da natureza tem um baixo índice glicémico, é rico em fibras e não é refinado.

Mais do que um simples chocolate, quisemos criar um produto puro, nutritivo e sustentável, que respeita a essência do cacau e desafia a perceção de que o chocolate precisa de ser altamente processado para ser saboroso. Pensamos que é essa abordagem que faz com que o nosso chocolate seja descrito como revolucionário.

O conceito “bean to bar” está a ganhar força. Mas o que é que significa?

O conceito "bean to bar" refere-se a um processo artesanal de produção de chocolate em que controlamos todas as etapas, desde a seleção dos grãos de cacau até à criação da tablete final. Em vez de recorrer a intermediários ou a chocolate já processado, trabalhamos diretamente com os grãos, garantindo um maior controlo sobre a qualidade, o sabor e a autenticidade do produto. Este método permite-nos valorizar a matéria-prima, respeitar as características naturais do cacau e oferecer aos consumidores uma experiência mais pura e diferenciadora, muitas vezes com o mínimo de ingredientes e processos mais sustentáveis.

As marcas Alma do Cacau e Nómada têm identidades próprias. O que as distingue e como cada uma reflete a filosofia da empresa?

Com a Alma do Cacau quisemos fazer diferença e trazer às pessoas mais do que um simples chocolate. Quisemos criar um alimento nutritivo, delicioso, biológico, ético, justo e sustentável.

A Alma do Cacau e a Nómada são duas marcas com conceitos muito diferentes entre si. Enquanto na Alma do Cacau procurámos criar um alimento nutritivo, delicioso, ético, justo e sustentável, na marca Nómada procurámos ter uma oferta de chocolates mais indulgentes.

Para a criação da Nómada procuramos associar a alegria de ser um viajante à descoberta de novos sabores e experiências. Este conceito reflete a personalidade da marca, onde procuramos mostrar a todas as pessoas que os nossos chocolates são uma celebração desse espírito de aventura e descoberta, em que as convidamos a embarcar numa jornada inesquecível connosco.

Para a criação dos chocolates Nómada procuramos optar por uma técnica mais artesanal, feita em pequenos lotes e onde reforçamos a nossa aposta em ingredientes de qualidade. Aqui, contrariamente à Alma do Cacau, mantemos uma base mais tradicional do chocolate, aquele que é habitualmente conhecido pelas pessoas. Temos opções com chocolate branco, chocolate de leite e chocolate negro, onde para além de versões clássicas, apostamos em sabores originais e combinações de ingredientes diferenciadores.

Elisa Boin, fundadora da Alma do Cacau
Elisa Boin, fundadora da Alma do Cacau créditos: Divulgação

Como imagina o futuro do chocolate artesanal em Portugal?

Acreditamos que pode ser promissor. A procura por produtos de qualidade, com ingredientes naturais e que respeitam os valores éticos e sustentáveis, está a crescer. Vemos cada vez mais consumidores a optarem por chocolates que não só oferecem um sabor excecional, mas que também têm um impacto positivo na sociedade e no ambiente. Acredito que o chocolate artesanal vai continuar a destacar-se pela sua autenticidade e pela sua ligação aos produtos locais.

Produzem mais de 100 tipos de chocolate. Como surgem as ideias para novos sabores? Há algum que tenha uma história curiosa?

As ideias para novos sabores surgem da nossa paixão por explorar novas combinações e da constante busca por combinações únicas. Muitas vezes, as inspirações vêm da nossa cultura, das tendências de mercado e da natureza que nos rodeia.

Na Alma do Cacau dispomos temos uma gama de chocolate origens, onde trabalhamos essencialmente com as diferentes percentagens de cacau, que acaba por fazer toda a diferença na tablete final. Depois temos ainda a nossa gama de sabores, onde a uma tablete de 60% de cacau, juntamos ingredientes apreciados pelas pessoas, como flocos de framboesa, flor de sal, nibs de cacau e até café. Contudo, são chocolates que respeitam muito a essência do puro cacau.

Na marca da Nómada, também devido ao conceito da própria marca, é onde exploramos mais o nosso lado aventureiro de explorar novos sabores e desenvolvemos embalagens originais. Por isso, desde o clássico chocolate de leite aos sabores mais exóticos, como chocolate branco com maracujá, às latinhas de chocolates e bombons, é nesta marca que procuramos criar referências únicas e diferenciar-nos dos tradicionais chocolates.

 O vosso chocolate é bio, vegan e natural. Sentem que há uma mudança na forma como as pessoas consomem?

Sim, sentimos que há uma grande mudança na forma como as pessoas consomem. A crescente preocupação com a saúde e o ambiente tem levado os consumidores a procurar alternativas mais saudáveis e éticas. O interesse por produtos biológicos, vegan e naturais tem vindo a aumentar, e estamos a ver que as pessoas estão cada vez mais conscientes da importância de fazer escolhas responsáveis, tanto para o seu bem-estar como para o planeta. Daí também criarmos a Alma do Cacau, pois é uma marca que está muito ligada à saúde, à natureza e a um consumo mais consciente.

A sustentabilidade está cada vez mais em voga. Como garantem que o vosso chocolate respeita todas essas premissas?

A sustentabilidade é uma das nossas principais prioridades. Desde a escolha de grãos de cacau provenientes de produtores que seguem práticas justas e responsáveis, até à utilização de embalagens biodegradáveis e recicláveis, trabalhamos para que cada parte do nosso processo tenha um impacto positivo.

Para os chocolates da Alma do Cacau usamos cacau proveniente de São Tomé e Príncipe. Enquanto produtores de chocolate, nós queremos ter um papel ativo no bem-estar dos produtores de cacau e sabemos que para isso temos de criar um chocolate sustentável, justo e ético.

O cacau que usamos nos nossos chocolates é nutritivo, cremoso e delicioso e, mais importante que tudo, é certificado pelo Fairtrade. Isto garante-nos não só ingredientes cheios de sabor, mas também um pagamento justo aos agricultores e produtores que lhes permita viver com dignidade.

Qual foi o momento mais marcante da vossa jornada até agora?

Houve vários momentos especiais ao longo da nossa jornada, mas um dos mais marcantes foi quando percebemos o impacto real do nosso trabalho, tanto na forma como os consumidores valorizam o nosso chocolate como no reconhecimento dos produtores de cacau com quem trabalhamos. Saber que estamos a contribuir para um setor mais sustentável e que o nosso chocolate desperta emoções e memórias em quem o prova é algo muito gratificante.

Se pudessem criar um chocolate que definisse Portugal, como seria?

Seria um chocolate que refletisse a identidade e os sabores característicos de Portugal, combinando ingredientes que fazem parte da nossa tradição gastronómica. Poderia incluir elementos como frutos secos, citrinos ou até bebidas emblemáticas como o vinho do Porto ou a Ginja, criando um equilíbrio entre inovação e autenticidade. O objetivo seria proporcionar uma experiência que transportasse quem o prova para as memórias e sabores do nosso país.

Há algum sabor ou combinação que ainda sonha em explorar?

Estamos sempre à procura de novas combinações que unam tradição e inovação. Se existe algo que nos distingue é o facto de gostarmos de explorar ingredientes inesperados e criar harmonias de sabores que despertem novas sensações. Por isso, seja através de inspiração na pastelaria tradicional ou da fusão com ingredientes mais exóticos, acreditamos que há sempre espaço para surpreender e reinventar a experiência do chocolate. Existem várias ideias e esperamos conseguir fazer testes e explorar novas combinações.

Qual o segredo para um chocolate perfeito? É o cacau, o processo ou a paixão?

O segredo está na combinação dos três. O cacau de qualidade é essencial, pois é a base de tudo. O processo, com cada detalhe cuidadosamente controlado, garante que o chocolate atinja a textura e o sabor ideais. Mas, acima de tudo, a paixão é o que transforma o chocolate numa verdadeira experiência, desde a escolha dos ingredientes até ao momento em que chega às mãos do consumidor.