A educação foi uma das dimensões mais atingidas pela pandemia. Não apenas em Portugal, mas por todo o mundo, as escolas encerraram como medida de controlo da transmissão da doença. O ECDC reconhece a utilidade da medida para controlar a pandemia, mas recomenda que seja utilizada apenas como último recurso. A recomendação é acertada, pois não só o impacto na aprendizagem é de difícil recuperação, como as escolas encerradas favorecem o aumento das desigualdades e colocam crianças em risco.

A FAO estima que perto de 400 milhões de crianças tenham perdido o acesso à refeição escolar, uma fonte vital de nutrientes em muitas partes do mundo. Em Portugal, após alguns problemas e indecisões durante o primeiro encerramento das escolas, no segundo encerramento, as autarquias mantiveram este programa a funcionar. Não nos podemos esquecer que a sociedade atribui às escolas, muito mais funções que apenas ensinar. Têm uma forte componente social e integradora na comunidade. Manter as escolas abertas e a funcionar, significa manter a rede social de apoio que envolve a educação, saúde e setor social.

As crianças são dos grupos com maior resiliência à morbilidade e mortalidade causada pelo Sars-CoV-2. Mas são um grupo bastante exposto aos efeitos secundários da pandemia, como os problemas de saúde mental relacionados com o isolamento a incerteza, os já referidos problemas de acesso à rede social construída em torno da escola, sem esquecer os problemas com a disrupção dos programas de saúde escolar.

A saúde escolar é a base da promoção da saúde. São ensinados hábitos de vida saudável às crianças, chegando de forma eficaz às famílias. Se corretamente financiados, podem transpor e adaptar, entre outros, os programas de prevenção tabágica, saúde sexual e reprodutiva, ou de nutrição. A saúde escolar é tão importante na formação de uma literacia em saúde precoce, que devíamos ambicionar o objetivo de alcançar uma cobertura de 100%.

Segundo a UNESCO, as escolas estiveram 24 semanas encerradas em Portugal. Um período maior que em Espanha (15 semanas) ou França (12 semanas), mas inferior aos observados em Inglaterra ou Alemanha, com 27 e 38 semanas respetivamente. Isto produz, naturalmente, efeitos no ritmo diário das crianças. Os padrões de sono, alimentação e atividade física tendem a deteriorar-se sem a previsibilidade das atividades letivas, o que associado à suspensão da prática desportiva, promove a obesidade infantil e todos os restantes problemas associados.

Neste momento, temos um problema diferente. Com mais de 90% da população elegível vacinada, incluindo todo a comunidade docente e não docente, não se compreende a manutenção de algumas regras neste contexto. O dia da libertação não chegou à educação. Sabendo que o vírus propaga-se por via área, porque não podem as crianças partilhar uma salada de frutas ou aquecer comida no micro-ondas? Com este nível de imunidade na comunidade, porque continua a ser obrigatório a utilização de máscaras no recinto escolar, inclusive no recreio ao ar livre?

As vacinas funcionam, salvam vidas, aumentam a resiliência do SNS e diminuem a probabilidade de transmissão da doença. O resto do país voltou quase à normalidade, mas as escolas e a estruturas residenciais para crianças e jovens mantém-se como se a vacinação não existisse. O vírus não foi embora, no pior cenário para este inverno, pode retornar e obrigar-nos a adotar novas medidas, mas por agora, é seguro e justo afirmar, que o dia de libertação deve chegar à comunidade escolar. É altura de trabalhar para recuperar as aprendizagens das crianças e reconstruir a rede de apoio social.

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