
Pedro Chagas Freitas já habituou os seguidores das redes sociais às suas dissertações sobre as mais diversas figuras públicas e sobre assuntos da atualidade.
Mas desta vez, o escritor fez uma reflexão sobre ele próprio, abordando o preconceito que já sentiu na pele pela sua imagem.
"Já fui acusado de ser bonito demais para ser escritor. Já me disseram, por exemplo, que o meu rosto não devia estar na badana de um livro, mas sim num catálogo da Massimo Dutti. Parece uma piada fraquinha; é só preconceito", começa por escrever o autor.
"A estupidez tem muitas formas. Esta é mais uma: acreditar que a literatura tem de ser escrita a partir da fealdade visível. Que palermice: a pele não serve de certidão do espírito. Escrever não exige coerência estética.
Se és feio (o que é isso de ser feio ou bonito, afinal? Cada vez acredito menos na ditadura dos olhos, do que se vê com os olhos; é tão curto, tão pequeno; a beleza tem camadas, tantas, e cada vez mais aprecio as de lá de baixo, as que só aparecem quando se descobre mesmo a pessoa, a beleza da pessoa, a história da pessoa, a dor da pessoa, os medos da pessoa, a pessoa da pessoa) e escreves, encaixas no cliché — confirmas a narrativa reconfortante de que a arte é refúgio para os deserdados da carne. A burrice precisa sempre de coerência", refere Pedro Chagas Freitas.
De seguida, o autor aponta exemplos práticos do que já lhe disseram por ter determinada aparência física.
"O preconceito estético é um veneno subtil. Chega no subtexto, às vezes no não-dito, no comentário leve, no riso disfarçado, no aparentemente inócuo 'não tens ar de escritor'. Parece pouco; pode ser devastador. É uma forma de te negar a dor, de te roubar o direito de escrever a partir do osso.
Um rosto simétrico não faz prova de ausência de abismo. A literatura não nasce da cara; nasce da carne interior, da podridão íntima, do vazio, da sensibilidade que magoa, da intensidade que corrói em silêncio. Escrevo contra esse tribunal esdrúxulo, quase dogmático, que confunde estética com verdade. Habituo-me à ferida; não a esqueço.
Tenho medo de que muitos caiam perante ela, esmagados pela acusação invisível de não terem direito ao sofrimento. Escrevo também por eles. Para lembrar que a dor não precisa de rosto: precisa de existir. Enquanto houver um leitor para me ler, continuarei em busca da beleza que interessa. Isso basta-me", concluiu Pedro Chagas Freitas.
Quem é Pedro Chagas Freitas?
Pedro Chagas Freitas nasceu em Guimarães em 1979 e, para além de escritor, é ainda formador de escrita, jornalista e orador. Conta com uma vasta carreira na literatura tendo já escrito dezenas de obras e chegando a "um milhão de livros vendidos".
É o autor de livros como 'O Hospital de Alfaces'; 'A Raridade das Coisas Banais'; 'Prometo Falhar'; 'Prometo Perder'; 'Prometo Amar'; 'É Urgente Amar'; 'O Amor Não Cresce nas Árvores' entre muitos outros.
Na vida pessoal, Chagas Freitas passou por uma situação muito delicada quando viu o seu filho, Benjamim, ser submetido a um transplante de fígado com apenas seis anos de idade. O menino foi diagnosticado com deficiência de alfa-1antitripsina aos três meses de idade.
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