Por que motivo(s) Portugal tem uma incidência tão elevada de doenças psiquiátricas?

É difícil dar uma resposta simples a esta pergunta. Todas as doenças mentais resultam de fatores genéticos, que herdamos dos nossos pais, e fatores ambientais, nomeadamente as nossas experiências de vida. Não sabemos ao certo porque é que em Portugal a combinação destes fatores resulta numa prevalência mais elevada de doenças mentais do que noutros países. Mas o facto é que isso acontece, em particular com a depressão, razão pela qual devem existir políticas de saúde que tenham em atenção essa maior prevalência – um maior investimento em saúde mental, que nas últimas décadas tem recebido percentagens muito diminutas dos orçamentos para a saúde.

A depressão é uma doença ou pode ser um traço da personalidade?

A depressão é uma doença e instala-se num determinado momento da vida. Caracteriza-se por um conjunto de sintomas que não estava presente e que se desenvolve num período de tempo, que pode ser relativamente curto – por exemplo, duas semanas.

A personalidade é o conjunto de características da nossa maneira de ser, ou seja, a forma como nos relacionamos com os outros, com o que se passa à nossa volta e connosco mesmos. A personalidade desenvolve-se ao longo de toda a infância e adolescência e torna-se relativamente estável a partir do início da idade adulta. A partir daí, a nossa maneira de ser, chamemos-lhe “feitio”, fica mais ou menos igual durante o resto da vida. Portanto, a depressão, atendendo ao que descrevi antes, não faz parte da personalidade. No entanto, há determinados traços ou tipos de personalidade que podem tornar a pessoa mais propensa a desenvolver depressão, como por exemplo aquelas que fazem viver os acontecimentos com maior carga de stress psicológico. Mas é importante que qualquer pessoa pode vir a ter depressão, independentemente da sua personalidade.

Sendo uma doença, tem cura?

A depressão tem tratamento e com ele é possível, numa grande percentagem de pessoas, obter a remissão completa dos sintomas (o seja, a sua eliminação), sem que haja novos episódios de doença posteriormente. Não se utiliza habitualmente a palavra “cura” porque podem ocorrer recaídas, mas a verdade é que muitas pessoas que têm depressão e que obtêm o tratamento adequado não voltam a ter mais episódios da doença.

A que sinais se deve estar atento? 

Os sintomas que mais chamam a atenção são habitualmente a tristeza ou a falta de energia. Estes têm que estar presentes permanentemente (ao contrário do que acontece com uma tristeza normal), - todos ou quase todos os dias, a maior parte do dia – por um período superior a 2 semanas. Mas há habitualmente outros sintomas a acompanhar, como alterações do sono, do apetite, diminuição da libido, falta de prazer nas atividades, entre outros. É importante lembrar que quando ocorre depressão há uma alteração do funcionamento habitual, ou seja, a pessoa reconhece que “eu antes não era assim”, e que esse estado causa sofrimento e perturba o dia-a-dia.

Nos países de alto ou médio rendimento, em que Portugal está incluído, a depressão é a principal causa de incapacidade para o trabalho

Quais os efeitos da doença a longo prazo?

Quanto mais tempo de depressão não tratada, pior o prognóstico. Por outras palavras, mais difícil é tratar e eliminar os sintomas completamente. Além disso, há vários estudos que comprovam alterações no cérebro de pessoas com depressão não tratada. Por exemplo, o hipocampo – uma região do cérebro envolvida na memória (entre outras coisas) – tem reduções do seu volume a cada ano de depressão sem tratamento.

Há outras evidências que apontam para uma maior probabilidade de desenvolver quadros neurodegenerativos, como a demência, quando se tem uma depressão não tratada ao longo de muito tempo. Isto já para não falar nas consequências mais óbvias no dia-a-dia das pessoas – perda de funcionalidade no trabalho e vida familiar, mudanças nos estilos de vida, etc.

Qual o impacto da depressão no contexto do trabalho?

O impacto é muito significativo. Como a depressão afeta os níveis de energia, o prazer nas atividades, o sono, entre outras coisas, é previsível que isso tenha impacto na capacidade de trabalhar. Mas além disso, fazem também parte do quadro clínico da depressão os sintomas cognitivos, ou seja, dificuldades de concentração, de atenção, de memória, ou de raciocínio. Pior que isso, esses sintomas são muitas vezes os últimos a desaparecer durante o curso do tratamento (e se o tratamento não for corretamente realizado, podem tornar-se sintomas residuais). Por isso, é natural que a depressão tenha muito impacto a nível laboral, o que aliás é fácil de provar pelas estatísticas relacionadas com a incapacidade para o trabalho. De acordo com a OMS, a depressão é a terceira causa de incapacidade para o trabalho a nível mundial. Se estratificarmos os países pelo nível de rendimentos, percebemos que nos países de alto ou médio rendimento, em que Portugal está incluído, a depressão é a principal causa de incapacidade para o trabalho.

Deveria haver mais apoio em contextos laborais?

O respeito pela saúde mental deve ser um valor fundamental das empresas. Embora não seja tão visível como uma perna partida, a doença mental e em particular a depressão têm impacto direto na produtividade e na qualidade do trabalho, para além das consequências para o próprio trabalhador doente. Por isso, as empresas podem e devem implementar estratégias de monitorização da saúde mental dos seus trabalhadores e formação das equipas no sentido de proteger a saúde mental. Devem também facilitar o acesso a diagnóstico e tratamentos quando necessário sem julgar os indivíduos quando isso é necessário. Há muitas medidas e programas que podem ser implementados, para fazer modificar muitas variáveis, com um impacto positivo nas pessoas mas também nos resultados das empresas. É uma win-win situation, mas a maior parte das empresas ainda não acordou para isso.

A doença é estigmatizada pela família e colegas?

A doença mental e os seus tratamentos são ainda muito estigmatizados pela sociedade em geral. Isso resulta de vários fatores. Um deles é a própria história da psiquiatria, porque os tratamentos eficazes para as doenças mentais são muito recentes na história da medicina. Até eles existirem, a partir dos anos 60 do século XX, a psiquiatria estava muito associada aos asilos e a tratamentos sem sentido, como banhos quentes e frios ou comas insulínicos. Tudo isso deixou de existir, mas na cultura popular, e, portanto, na cabeça das pessoas, permanece. As pessoas com doença mental são vistas como “malucas” ou “fracas da cabeça”, o que não tem qualquer fundamento, atendendo a tudo o que se sabe sobre as causas e a evolução destas doenças. Infelizmente, as representações da cultura popular, como novelas ou filmes, continuam a passar uma imagem desatualizada e errada, que perpetua o estigma. Claro que isso vai fazer com que as pessoas doentes não procurem ajuda, porque não querem estar associadas a esta imagem.

Um dos desfechos possíveis da depressão é o suicídio, por isso: sim, a depressão pode ser fatal

Como é que se pode ajudar um amigo ou familiar com depressão?

Falar abertamente do assunto, sem julgamentos não fundamentados da pessoa que está doente. A pessoa doente não é a doença – ou seja, as características da pessoa não são determinadas pela doença, como “fraqueza de espírito” e outros disparates que tantas vezes se ouve. Também é importante não colocar a culpa de ter a doença no doente, mesmo que seja indiretamente. É comum ouvir “tu tens é que ir fazer desporto” ou “acorda cedo e aproveita o dia, não fiques em casa a lamentar-te” ou ainda “tu tens que ter força para melhorar, tens que fazer por ti!”. Tudo isto é absurdo, porque é o mesmo que dizer a uma pessoa com as pernas partidas “levanta-te e anda!”. Não só a pessoa com depressão não quer estar assim, como só com o tratamento adequado poderá deixar de estar assim. É importante que a família e amigos percebam isto, recomendem e apoiem o tratamento adequado. Apoiar o tratamento é também importante porque já perdi a conta às vezes que me disseram “eu já me estava a sentir melhor e a minha família disse que já era altura de parar a medicação”.

O abandono precoce do tratamento é um dos principais fatores que contribui para a recaída de depressão, e também aí a família e amigos têm um papel. Isto está relacionado também com a imagem que a maior parte das pessoas tem sobre os medicamentos psiquiátricos. A maior parte dos antidepressivos tem muito poucos efeitos adversos e esses são mitigáveis. Ou seja, a ideia de que os antidepressivos deixa as pessoas gordas, pedradas, a babarem-se e a arrastarem-se como zombies é falsa e injusta. Essa é também uma vertente muito significativa do estigma.

A depressão pode ser fatal?

Um dos desfechos possíveis da depressão é o suicídio, por isso: sim, a depressão pode ser fatal. Mas mesmo que não estejamos a considerar esta relação direta com a morte, há outras formas pelas quais a depressão pode contribuir para a mortalidade. A depressão agrava a evolução e o prognóstico de doenças de várias especialidades, como sendo a doença cardiovascular, respiratória ou oncológica. Também por essa via a depressão pode contribuir para um aumento da mortalidade.

Como procurar ajuda?

O médico de família e o médico psiquiatra estão habilitados para diagnosticar depressão e iniciar o tratamento. As equipas de saúde mental devem também incluir outros profissionais, em particular psicólogos, cujo trabalho em articulação com o médico, melhora muito os resultados.

Como se trata?

O tratamento mais eficaz para a depressão é a conjugação de medicação antidepressiva e psicoterapia. O conjunto das duas modalidades terapêuticas é mais eficaz do que qualquer uma delas isoladamente. E os seus efeitos são diferentes e complementares. A medicação reequilibra quimicamente o cérebro, digamos assim, para simplificar. Ou seja, faz com que os neurónios e os neurotransmissores (como a serotonina, noradrenalina ou dopamina) voltem a funcionar como antes da depressão acontecer. O tratamento de um primeiro episódio de depressão deve ser mantido durante 6 a 12 meses após a remissão completa de sintomas (ou seja, o tempo só começa a contar quando os sintomas já desapareceram!) para garantir que esse funcionamento neuroquímico fica estabilizado e seja diminuída a probabilidade de uma recaída. Paralelamente a psicoterapia vai permitir reformular as estratégias para lidar com o stress, com os acontecimentos de vida, ajudar a identificar padrões de pensamento, de ação e de reação e desenvolver formas de os tornar mais funcionais (entre muitas outras coisas). A medicação não substitui a psicoterapia nem a psicoterapia substitui a medicação.

Como se previne esta doença?

Há várias medidas que podem contribuir para um menor risco de desenvolver depressão. É o caso de determinados padrões alimentares, como os plant-based e a dieta mediterrânica, por vários motivos, que incluem o seu potencial anti-inflamatório. O exercício físico, por essa e por outras razões, realizado de forma regular, também tem uma contribuição importante. O respeito pelos ciclos vigília-sono também é fundamental, em particular os horários de sono, o número de horas de sono, entre outras variáveis. Há também estratégias psicológicas de gestão do stress (que seriam demasiado longas para explicar nesta entrevista) que podem ser postas em prática para diminuir o desenvolvimento de respostas prolongadas e intensas face a acontecimentos de vida, que possam aumentar a probabilidade de desenvolver depressão. Mas é muito importante, posto tudo isto, perceber que quando a doença está instalada o tratamento dirigido tem que ser realizado. Quando se deteta que os açúcares no sangue de alguém estão a ficar altos, recomendam-se estratégias alimentares. Mas se já estiver diagnosticada diabetes, isso não é suficiente e não passa pela cabeça de ninguém privar os doentes do seu tratamento. O mesmo acontece com a depressão. Estas estratégias que referi não são uma alternativa ao tratamento da depressão, como muitas vezes se ouve ou se lê nas redes sociais. São preventivas (antes de existir doença) ou complementares ao tratamento.

Leu uma entrevista a Gustavo Jesus, médico psiquiatra, diretor clínico da PIN (www.pin.com.pt), assistente hospitalar no Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central e assistente convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

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