As relações são dinâmicas e, por vezes, têm prazo de validade. Esgotam-se e podem até tornar-se tóxicas e uma fonte de mal-estar generalizada. No entanto, enquanto parte das pessoas assume que a relação deixou de ser frutuosa e põe um fim na mesma, há outras que não sabem terminar um relacionamento, porque não conseguem aceitar que o mesmo acabou. E os problemas acrescem quando é a outra pessoa que deseja pôr fim à relação e não conseguimos aceitar esse fim, levando a uma confusão de sentimentos e à ativação de um medo primitivo: o medo da rejeição. Desta forma, o “não saber como deixar um relacionamento”, aliado ao “não quero ser deixado”, leva-nos a entrar num ciclo que pode representar sérios prejuízos para a saúde psicológica.

O vício afetivo é sentido tanto por quem chegou à conclusão de que a relação chegou ao fim, mas não tem coragem de colocar um termo na mesma, como por quem tem medo de ser abandonado. Algumas pessoas têm dificuldade em deixar a relação que já não as preenche mais, porque existe o receio de magoar o outro e de tornar a vida dessa pessoa miserável. Deixar alguém representa um enorme sofrimento para quem é “deixado” e isso pode levar a que essa decisão seja adiada indefinidamente. Acresce ainda que se começam a criar pretextos para não sair da relação, tais como “mais vale acompanhado que sozinho”, desvalorizando a infelicidade sentida e arranjando desculpas para se manter nela. O medo da solidão parece, nestes casos, sobrepor-se à liberdade de seguir um caminho diferente e de ser feliz por outras vias.

De forma análoga, outras pessoas têm medo de serem “deixadas”, manipulando emocionalmente o outro para que a relação subsista, nem que seja apelando a sentimentos como pena ou compaixão. Quando um membro do casal dificulta o término do relacionamento, isso pode ser uma demonstração de apego pouco saudável. Ao depositar a felicidade nas mãos da outra pessoa, quando ela demonstrar que quer terminar, o pânico irá dominar por completo, levando-nos a todos a esquecer-nos que a nossa felicidade depende de nós próprios e não dos outros. É neste momento de decisão entre o amor-próprio e a ausência dele, que se percebe a existência deste vício afetivo.

Este apego insano pode ser revelador da falta de autoestima e de um medo avassalador de não saber estar sozinho(a), criando ansiedade e humor deprimido. É, pois, importante que o casal decida se ainda quer tentar salvar a relação, procurando ajuda especializada, ou não. Quando uma pessoa não deseja manter a relação, é o momento de aceitar e aprender a deixar ir, porque não se pode obrigar ninguém a estar num relacionamento onde os dois são infelizes. Forçar uma relação cria um ambiente de mal-estar generalizado e com tendência para piorar.

Como enfrentar o vício afetivo?

  • Em primeiro lugar, é preciso reconhecer o próprio vício nas relações afetivas e as consequências do mesmo. Isto significa que temos de nos conhecer e saber identificar qual é o nosso padrão nos relacionamentos e, sobretudo, como nos comportamos quando esses relacionamentos já não estão a resultar. É necessário ser racional e, sobretudo, procurar ajuda para desenovelar as emoções e ajudar a aceitar situações das quais não se tem controlo.
  • O respeito pelo outro e por si mesmo deve ser a base de qualquer relação. A partir do momento em que desrespeitamos a liberdade do outro ou alguém desrespeita a nossa, é um claro sinal de que o caminho não é por ali.
  • O vício afetivo, revelado pela necessidade obsessiva de ter alguém ao nosso lado a qualquer preço, acaba por nos afastar do nosso potencial, tornando-nos pessoas manipuladoras, frustradas e sem competências emocionais para lidarmos com os problemas. É preciso assumir as nossas fragilidades e procurar melhorá-las.
  • O medo de estar sozinho costuma ser o motor para estes comportamentos de manipulação emocional do outro, por isso, a pessoa deve entender que a validação, o respeito e a felicidade, dependem exclusivamente de si. O outro só pode acrescentar mais valor, não pode ser responsável pelo nosso valor, enquanto pessoa.
  • Por fim, é importante trabalhar a autoestima e desenvolver competências de comunicação que permitam ser-se honesto, sem obrigar a outra pessoa a fazer algo que claramente não irá resultar e terá implicações para ambos.

Saber quando é o momento certo de procurar ajuda é um ato de coragem e de vontade para mudar formas de pensar e de se comportar que podem ser disfuncionais e prejudiciais para o(a) próprio(a). Os profissionais de psicologia servem para isso mesmo: promover o autoconhecimento e ajudá-lo a tornar-se numa melhor versão de si próprio(a).

Um artigo da psicóloga clínica Laura Alho, da MIND - Psicologia Clínica e Forense.

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