Foi uma noite de emoções, mas de poucas surpresas. Naquela que foi a segunda edição do guia exclusivamente português, nenhum restaurante conquistou a cobiçada terceira estrela. E mais: não houve novas entradas na categoria de duas estrelas. A cerimónia de terça-feira destacou principalmente os oito restaurantes que receberam a primeira estrela, um feito notável, mas que não dissipou a frustração geral, numa noite em que os protagonistas foram sobretudo a chef Marlene Vieira e o chef Vítor Matos.

O sentimento entre chefs é unânime. "Acho que ficou curto na mesma, mas haverá mais”, partilhou o chef João Sá, do restaurante Sála.

Reconhecimento, frustração e a espera pela terceira estrela marcam a edição do Guia Michelin em Portugal
Reconhecimento, frustração e a espera pela terceira estrela marcam a edição do Guia Michelin em Portugal O Chef Vítor Matos somou cinco estrelas divididas entre quatro restaurantes. créditos: Guia Michelin

Vítor Matos também manifestou a sua frustração, revelando a incerteza que se instalou entre os chefs. À pergunta “por que razão Portugal não conseguiu uma terceira estrela?”, o chef foi perentório: "Não consigo responder a isso. Há um sentimento de desilusão. Notou-se no palco. Estamos todos à espera”, evidenciando o facto de, mais do que não ter havido uma terceira, faltou as segundas estrelas. “Passou isso. Agora não consigo dizer assim, 'vai ser para o ano'? Agora não consigo dizer isto", conclui, numa noite que o consagrou como o chef que mais estrelas acumula no guia português, com cinco.

Dieter Koschina, do Vila Joya – o restaurante que há mais tempo integra o Guia Michelin em Portugal –, também comentou sobre a situação. "É um pouco difícil, realmente, quanto tempo vamos levar?" questionou, assumindo que "para mim foi um pouco seco. Faltam muitas coisas e há tanto potencial."

Reconhecimento, frustração e a espera pela terceira estrela marcam a edição do Guia Michelin em Portugal
Reconhecimento, frustração e a espera pela terceira estrela marcam a edição do Guia Michelin em Portugal O Vila Joya é o restaurante que há mais tempo está no guia português. créditos: Guia Michelin

Apesar de o Vila Joya ter conquistado a segunda estrela em 1999 e ser sempre um possível candidato a ter mais uma, Koschina refletiu sobre a pressão associada à terceira estrela: "O chef que tem três estrelas já não é muito feliz. Está sempre 'o que existe aqui?' Será que o inspetor vem?’ Todo o cliente se torna inspetor."

O chef fez ainda um paralelismo com a recente edição do Guia Michelin austríaco, onde 62 restaurantes têm uma estrela, 18 com duas estrelas e dois com três estrelas (Portugal soma 38 restaurantes com uma estrela e oito com duas estrelas).

Reconhecimento, frustração e a espera pela terceira estrela marcam a edição do Guia Michelin em Portugal
Reconhecimento, frustração e a espera pela terceira estrela marcam a edição do Guia Michelin em Portugal Os chefs com restaurantes com duas estrelas Michelin créditos: Guia Michelin

Dieter Koschina partilhou ainda como as coisas aconteciam quando conquistou as suas estrelas. "Antes nunca se sabia se havia estrelas ou não. Só no fim de ano, lá no livro, é que víamos 'olha uma estrela, espetacular!' Nunca sabíamos, como hoje, com esta festa grande e apresentação", explica, relembrando que, quando o Vila Joya foi distinguido com a segunda estrela, foi avisado por telefone de forma muito efusiva.

Reconhecimento, frustração e a espera pela terceira estrela marcam a edição do Guia Michelin em Portugal
Reconhecimento, frustração e a espera pela terceira estrela marcam a edição do Guia Michelin em Portugal Os Chefs João Sá e Marlene Vieira ao centro. créditos: Guia Michelin

Já João Sá, que revalidou o título de uma estrela para o seu restaurante confessou ter ficado nervoso na parte final da gala, quando Marta Leite de Castro chamou ao palco os chefs de restaurantes com duas estrelas Michelin, evidenciando que todos mantinham a distinção: “Às tantas tínhamos de chegar ao fim para perceber se perdíamos ou não. Porque as duas estrelas disseram que ninguém perdeu, mas uma estrela não disseram nada”. “Ficámos ali ‘olha como assim?’ E agora?”, afirmou.

No final, o único que perdeu esse estatuto foi o restaurante 100 maneiras de Ljubomir Stanisic, cuja ausência foi notada no evento e que, sabemos, foi informado antecipadamente sobre a despromoção.