
Um dos setores responsáveis pelas maiores emissões de gases de efeito estufa, a produção de carne bovina emite mais do que o dobro do limite necessário para cumprir as metas ambientais internacionais. Essa é uma das conclusões de uma investigação publicada na revista Environmental Science and Pollution Research.
O trabalho, que se debruça sobre o setor brasileiro de produção de carne bovina, traz uma avaliação de cenários preditivos de emissões, juntamente com uma valoração económica. As investigadoras calcularam que as emissões do setor podem variar de 0,42 a 0,63 gigatonelada de CO2 equivalente (GtCO2e) até 2030, enquanto o limite para atender à meta da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) seria de 0,26 GtCO2e. Por outro lado, estratégias de mitigação ao longo da cadeia produtiva poderiam evitar perdas de até 42,6 mil milhões de dólares e garantir maior competitividade.
A NDC (sigla em inglês para Nationally Determined Contributions) é o compromisso que os países assumiram no Acordo de Paris, assinado em 2015 e que passará por revisão neste ano até a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), a ser realizada em Belém (PA), no Brasil.
No compromisso estão as metas de redução de emissões dos países, com diretrizes para a transformação do modelo de desenvolvimento, abrangendo todos os setores da economia. O objetivo global é limitar o aumento da temperatura média do planeta a 1,5°C em relação ao período pré-industrial (entre 1850 e 1900). Esse limite, no entanto, tem sido colocado em risco – 2024 foi o ano mais quente da história, com aumento médio da temperatura global de 1,55°C, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM).
O estudo usou como base a NDC em vigor até 2024 – redução das emissões em 43% até 2030 em comparação a 2005. Em novembro, o Brasil entregou à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) a nova contribuição, com o compromisso de reduzir as emissões líquidas de gases com efeito de estufa entre 850 milhões e 1,05 mil milhões de toneladas de CO2 equivalente até 2035 – uma queda de 59% a 67% em comparação aos níveis de 2005.
“Sabemos da importância do setor de carne bovina (...). Nosso objetivo não é dizer: produzam ou comam menos carne, mas sim trazer uma discussão sobre a forma atual de produção, que vem atrelada ao desmatamento, a altas emissões e sem adotar técnicas sustentáveis. Assim, não conseguiremos cumprir as metas climáticas estabelecidas. As nossas descobertas mostram que é preciso adotar na cadeia produtiva práticas que mitiguem as emissões. Isso contribui também com a redução dos custos associados às mudanças climáticas”, diz a primeira autora do artigo, a bióloga Mariana Vieira da Costa, do Laboratório de Economia, Saúde e Poluição Ambiental (Lespa) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
No trabalho, as autoras usaram o chamado custo social do carbono (CSC), uma forma de quantificar o impacto financeiro das emissões na sociedade, sendo uma referência para a construção de políticas climáticas e tomada de decisões.
O CSC representa os custos económicos causados pela emissão de uma tonelada de CO2, incluindo impactos não comerciais sobre o meio ambiente e a saúde humana e incorporando consequências, como perdas na agricultura e danos provocados por eventos climáticos extremos. Esses custos podem ser reduzidos ou redirecionados para investimentos em práticas de produção pecuária mais sustentável através de políticas públicas e linhas de crédito acessíveis.
Segundo o estudo, o potencial de redução de custos varia entre 18,8 mil milhões e 42,6 mil milhões de dólares até 2030 dependendo do cumprimento das metas.
Em 2023, o Brasil bateu um recorde na exportação de carne bovina, com 2,29 milhões de toneladas vendidas para 157 países, atingindo uma faturação de 10,55 mil milhões. As cientistas consideraram a relevância da exportação de carne bovina para o Brasil ao calcular quanto estaria disponível para consumo interno em 2030, caso a produção fosse reduzida para se manter dentro do limite de emissão de 0,26 GtCO2e, necessário para o cumprimento da NDC. O resultado obtido foi de 2 a 10 kg de carne bovina per capita (no ano).
“Sempre quis estudar a relação da pecuária bovina com as alterações climáticas. No início, tivemos dificuldades en encontrar dados mais refinados. Por isso, criámos o nosso indicador”, complementa Costa, que contou com a orientação da professora Simone Miraglia, líder do Lespa-Unifesp e coautora do artigo juntamente com a bióloga Daniela Debone.
Para Miraglia, os resultados são importantes, pois, se não houver reduções expressivas nas emissões de gases de efeito estufa, o aumento da temperatura média global acarretará impactos económicos adicionais, como a redução da produção agrícola, o aumento dos incêndios florestais e a intensificação dos efeitos sobre a saúde, incluindo a mortalidade, por exemplo.
Cenário
Num período de quase quatro décadas (1985 a 2022), a área ocupada pela agropecuária no Brasil cresceu 50%, ficando em 282,5 milhões de hectares – um terço do território nacional. Do total, 58% são de pastagens (atualmente em 164,3 milhões de hectares), de acordo com levantamento do MapBiomas.
Cerca de 64% da expansão da agropecuária foi resultado do desmatamento para pastagem (64,5 milhões de hectares). Esse crescimento deu-se, principalmente, na Amazónia, levando o bioma a superar o Cerrado em área de pastagem.
As cientistas apontam a necessidade de sinergia entre a investigação científica e produtores rurais com o objetivo de promover práticas de produção mais eficientes e de baixa emissão, adotando técnicas e tecnologias ambientalmente sustentáveis. Além disso, destacam o papel que o governo federal pode desempenhar na mediação e integração da ciência e da adoção de tecnologias pelos produtores.
Citam que, embora o Plano ABC+ atualmente facilite investimentos dos pecuaristas em práticas intensivas, a sua adoção ainda é baixa. O Plano de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (ABC+) é uma agenda do governo brasileiro, a ser executada entre 2020 e 2030, que dá continuidade à política setorial para enfrentamento à mudança do clima no setor agropecuário. Além de criar e fortalecer mecanismos para adoção de sistemas e práticas de produção sustentáveis, busca diversificar fontes e instrumentos financeiros e fiscais.
Costa destaca que a diversificação de incentivos, como isenções fiscais e a implementação de créditos de carbono, é essencial para estimular e promover mudanças significativas em larga escala no setor.
O trabalho teve o apoio da FAPESP através de bolsa de estudo atribuída a Costa e de outro projeto com abordagem para analisar emissão de gases com efeito de estufa, alterações climáticas e indicadores de saúde.
O artigo Brazilian beef production and GHG emission – social cost of carbon and perspectives for climate change mitigation pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11356-025-36022-1.
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