Segundo estimativas da Agência Internacional de Pesquisa em Cancro (IARC) da Organização Mundial da Saúde (OMS), o cancro matou 30.168 pessoas em Portugal em 2020, número que tenderá a crescer nos próximos anos face aos atrasos do diagnóstico e tratamento, sendo que o grande impacto nas mortes por cancro deverá sentir-se dentro de um a cinco anos.

"É obviamente preocupante, na medida em que efetivamente, durante estes dois anos, os doentes oncológicos foram praticamente esquecidos", diz Vítor Veloso, secretário-geral da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), em declarações à TSF.

A LPCC defende que "é importante e urgente que se verifique uma reorganização do sistema nacional de saúde em defesa do doente e uma maior aposta em programas de prevenção, deteção precoce e tratamento do cancro em Portugal. Sobretudo, é importante uma reorganização dos Cuidados de Saúde Primários focada nos diagnósticos e na referenciação do doente com cancro".

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Mulheres entre as mais penalizadas

Relativamente ao programa de rastreios oncológicos nos cuidados de saúde primários, e de acordo com dados do Estudo do Movimento Saúde em Dia, houve menos 18% de mulheres com mamografia realizada, menos 13% de mulheres sem registo de colpocitologia atualizada e menos 5% de utentes com rastreio do cancro do colon e reto efetuado.

"Os dados sugerem que muitos casos de novos cancros ficaram por identificar durante os anos de pandemia", refere a LPCC.

"Vamos ter, com certeza, cancros muito mais avançados", admite Vítor Veloso à referida rádio. "Algumas doenças crónicas podem esperar um mês ou dois, o cancro não pode esperar", acrescenta.

Além da diminuição do número de rastreios, que teve impacto direto nos diagnósticos de cancro, a LPCC aponta a diminuição da capacidade assistencial dos Cuidados de Saúde Primários face à necessidade de dar resposta à pandemia como fatores que contribuíram para a redução de diagnósticos. "Nos casos em que não havia um diagnóstico precoce organizado e que constituem cancros mais agressivos – exemplos do cancro do pulmão, intestino e fígado – verificaram-se mais diagnósticos tardios", adverte a organização.

As restrições resultantes da pandemia por COVID-19 obrigaram a LPCC a suspender o programa de rastreio de cancro da mama durante seis meses em 2020/2021. "Em 2019, foram efetuadas 339.164 mamografias nas unidades móveis e fixas. Este número teve uma descida abrupta, em 2020, no qual foram realizadas apenas 170 mil mamografias. Porém, em 2021 já foi possível uma normalização do número de mulheres rastreadas, alcançando um total 353.062 mil mamografias efetuadas", refere.

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Atrasos na emissão de atestado multiusos

O tempo de espera pela emissão de atestados de incapacidade multiuso ao doente oncológico aumentou durante a pandemia e que há doentes a aguardar há mais de dois anos por um documento essencial para acederem aos benefícios, nomeadamente fiscais. "A LPCC defende que a situação piorou devido à suspensão de juntas médicas, sendo que o maior problema está nos doentes diagnosticados durante a pandemia", indica.

De acordo com dados do Globocan, o cancro é a segunda causa de morte mais frequente em Portugal, com 60.467 mil novos casos em 2020.

O cancro colorretal é o mais frequente em Portugal, com 10.501 novos casos. De seguida surgem o cancro da mama (7.041), próstata (6 759) e pulmão (5 415). Os números mais recentes da incidência são de 2020, segundo dados da da IARC.

O SAPO Lifestyle tentou uma entrevista com Vítor Veloso, que se mostrou indisponível por questões de agenda a responder a questões.

Veja ainda - Os sintomas de cancro mais ignorados pelos portugueses

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